sexta-feira, fevereiro 26, 2021

Tag: Quando me descobri negra

Ilustração/ Thaddeus Coates

Quando eu descobri a negritude

A negritude, um termo cunhado pelo francês Aimé Césaire que pretendia reivindicar a identidade negra e a sua cultura perante a cultura francesa dominante e opressora, é uma verdade que aprendemos sobre o mundo à nossa volta. Para começar, recordo-me perfeitamente de ter percebido que havia algo de diferente na minha experiência social. Tal é inevitável quando somos nascidos da imigração recente e quando chegamos a um país que nos é estranho e, principalmente, no qual somos estranhos. Foi no jardim de infância que percebi que era diferente e que isso era mau. Rapidamente entendi que ser negro era algo horrendo e vil e não queria ser associada a tais características, porque me veriam através de uma lente cruel. Então, achei que a solução passava por pintar-me e chegava a casa a exigir aos meus pais que me tornassem “tom de pele”. Eles não sabiam o que dizer. Fui percebendo, ...

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Anna Ismagilova/Adobe

Será que eu sou uma fraude? A mestiçagem e o meu não lugar

A vida inteira fui chamada de branquinha pelo meu pai e era assim que eu me via, apesar dos constantes comentários acerca do meu cabelo “ruim”, do meu nariz de “barraca” e da minha boca de “nego”. Sempre ouvi que apesar da minha pele clara, eu tinha um “pezinho na senzala”. Quando eu entrei no Ensino Fundamental em uma escola pública perto da minha casa, eu e um primo íamos e voltávamos juntos, pela rua de barro. Eu adorava a escola, mas a gente tinha muitos problemas, como trocas de professores, greve, salas pequenas e abarrotadas de alunos. Todos nós queríamos a atenção da Tia, mas era impossível ela fazer um atendimento individualizado. Eu não me lembro de ter dificuldades de aprendizado nesta fase, mas acabei passando para a segunda série sem saber ler, ou pelo menos foi isso que disseram para os meus pais. Acho que foi aí que ...

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Bianca Santana (Foto: Natália Sena)

Nossa negritude de pele clara não será negociada

Não ser branco nem preto, em uma sociedade racializada como a brasileira, permite a pessoas negras de pele clara negociarem benefícios o tempo todo. Para se aproveitarem das cotas raciais, soltam o black power; para conseguirem emprego, alisam o cabelo. A passabilidade — serem mais aceitas pelos brancos, quem realmente têm poder — oferece mais posições subalternas a essas pessoas. Privilégio que se pode constatar nas estatísticas. Segundo dados divulgados pelo IBGE em 2017, enquanto o rendimento médio real de um trabalhador branco era de R$ 2.660 e dos pretos era R$ 1.461, o do pardo era R$ 1.480. Percebem a vantagem social? Do mesmo modo, enquanto o desemprego entre brancos era de 9,5%, dentre os pretos era de 14,4%, dentre os pardos era 14,1%. Sei que os dados cansam. Apresento só mais alguns. Dentre as empregadas domésticas, 50% são pardas (as quais somam 40% do total de mulheres), 13% ...

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Ilustração/ Thaddeus Coates

O colorismo e o privilégio que ninguém te deu

Provocada por registros recentes nas redes sociais acerca do colorismo, me senti convidada a compartilhar um pouco das reflexões que tenho desenvolvido no meu trabalho de Mestrado.  Confesso que as declarações recentes da Dr. Sueli Carneiro sobre a necessidade de unirmos pretos e pardos na luta contra o racismo, foram o incentivo final para que eu desviasse dessa escrita densa, e me permitisse dividir algo dessas análises que tem me ocorrido.  À Dra. Sueli Carneiro eu também devo a compreensão que tive pela primeira vez, quando li o texto da sua autoria “Negros de pele clara”, onde ela me explicou que é bem fácil para nós reconhecermos como os brancos são diversos entre si, sendo eles loiros, ou ruivos, ou morenos... e por outro lado, como é difícil para nós reconhecermos que também há diversidade entre a população negra.  Nesse texto selecionei um tópico do meu trabalho para compartilhar. Ele ...

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Cleidiana e seu pai. Foto: arquivo pessoal

O dia em que meu nariz me definiu como negra – notas sobre o racismo à brasileira

Em 1996 eu estava na metade do curso de jornalismo na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom- Ufba). Nesse ano, meu pai Pacífico Teixeira Ramos (1933-2004), conhecido como Chico Preto, foi candidato a prefeito em Iaçu, município onde cresci e que fica a 275 km de Salvador na região da Chapada Diamantina. Era uma campanha dura, sem dinheiro e em oposição às três esferas de governo. Mas meu pai era muito carismático e tinha toda uma trajetória vinculada às pautas progressistas ao longo da sua trajetória. Assim sua campanha contava até com vaquinha dos próprios eleitores. Em uma dessas ações tive que ir na cidade vizinha, Itaberaba, com uma amiga da família. Lá encontramos uma pessoa que conhecia meu pai, mas não sabia que ele tinha outra filha – a minha distância etária para meu irmão Gildásio Ramos é de 11 anos. Em meio a essa conversa, ...

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NAPPY STUDIO

Você é negra

A primeira vez que ouvi que eu era negra foi de uma pessoa branca, ela me disse: você é negra. A primeira vez que entendi o racismo foi quando ao abrir o portão de acesso ao prédio que eu morava uma mulher branca me parou e me tratou como uma prestadora de serviço dela, serviço esse maioritariamente ocupado por mulheres negras. Eu respondi para ela: eu não sou funcionária, eu moro aqui. Ela não soube o que responder, virou as costas pra mim e eu já subi as escadas com lágrimas nos olhos e chorei por horas. Chorar doeu muito nesse dia. Eu, por ser negra da pele clara e ter o cabelo liso escovado na época, nunca achei que passaria por isso, mas sim, eu passei, chegando em casa, com as compras na mão e a chave do apartamento localizada numa Avenida, pago com o trabalho dos meus pais ...

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Arquivo Pessoal

Negra sim!?

Cresci sem me reconhecer como criança negra, apesar dos inúmeros apelidos ofensivos, referentes ao meu cabelo, minha pele não é retinta e isso me fazia acreditar que era branca. Meu pai é um homem negro, minha mãe uma mistura que a deixou mais próxima da branquitude, cabelo liso, lábios e nariz finos, pele clara. Só na Universidade, durante o Mestrado, que me descobri negra. Foi um processo doloroso, pois tive consciência de que muitas experiências que vivi na infância e em relacionamentos afetivos, na verdade era racismo. Suspeito que muitas meninas negras de pele clara, assim como eu, viveram um dia a sensação de um não lugar, é justamente isso que me leva a escrever este ensaio.  Há mais ou menos dois anos venho me aprofundando nas leituras sobre as questões raciais. O livro "Racismo Estrutural", do professor, filósofo e advogado Silvio Almeida, tem sido um importante aliado neste processo ...

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Me descobri negra aos 67 anos

Uma crônica sobre identidade Por Rafaella Martinez, no Diário do Litoral 67 anos depois que chegou ao mundo naquele duro semiárido da pequena Angelin, cidadezinha de Pernambuco, Edileuza Gomes Costa se descobriu negra. (Foto: Rodrigo Montaldi/DL) Foi um exercício de olhar. Desses bem demorados, típicos de quem busca algo além do que o espelho próprio já se acostumou a refletir com o passar dos anos. E exatos 67 anos depois que chegou ao mundo naquele duro semiárido da pequena Angelin, cidadezinha de Pernambuco, Edileuza Gomes Costa se descobriu negra. Foi simples e forte assim: bastou um olhar mais demorado no espelho após uma conversa sobre identidade com o filho, o ator Zecarlos Gomes. Coube a ele, ‘em uma conversa com amor e escuta, porque o amor transforma e educa’ fazer a mãe notar os traços do rosto, o tom da pele e o jeito do cabelo. Sinais de ...

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O dia em que me descobri uma mulher negra… e bonita

Depois de assistir à peça Pentes e participar da Marcha das Mulheres Negras, não poderia falar sobre outra coisa nesse Dia da Consciência Negra do que minha experiência como mulher negra. Muitas memórias vieram à minha mente e eu acho importante compartilhá-las, porque sei que muitas outras mulheres negras passaram (e ainda passam) pelas mesmas coisas que eu escreverei aqui. Por Joceline Gomes Do Favela Potente Eu tinha seis anos. Minha mãe tinha me dado banho e estava secando meu cabelo. Vendo a dificuldade dela de secar aquele cabelo crespo, soltei: quando eu crescer, vou fazer uma plástica pra ficar igual a ranger rosa. Na minha cabeça infantil eu podia fazer uma plástica e mudar tudo em mim: cabelo, nariz, boca, barriga, tudo que me incomodava. Até a cor da minha pele. Eu não me via negra e minha família não falava sobre isso também. Meus pais são maranhenses, estado com ...

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negra

Fragmentos do descobrir-se negra – Por: Gabriela Pires

Ser mulher negra é uma construção diária de identidade. A minha identidade negra começou a ser construída, infelizmente, há pouquíssimo tempo, mais ou menos há dois anos quando decidi prestar o vestibular. Fiz cursinho popular e concorri como cotista para o curso de Design Gráfico. Na época, prestei ainda com um pouco de relutância, parte por ter a sensação de estar tirando a oportunidade de outra pessoa que precisasse mais do que eu, e parte (este com um peso maior) por não me enxergar como negra. Lembro que essa dúvida não vinha apenas de mim, mas também dos meus pais e irmão. Será que eu era “negra o suficiente”? Minhas neuroses gritavam pra mim dizendo que a universidade seria o lugar que nos olhariam e nos apontariam o dedo dizendo: você é negro, você não é negra… próximo! Ao entrar na entrevista para candidatos cotistas minhas dúvidas começaram a se ...

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