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Me descobri negra aos 67 anos

Uma crônica sobre identidade

Por Rafaella Martinez, no Diário do Litoral

67 anos depois que chegou ao mundo naquele duro semiárido da pequena Angelin, cidadezinha de Pernambuco, Edileuza Gomes Costa se descobriu negra. (Foto: Rodrigo Montaldi/DL)

Foi um exercício de olhar. Desses bem demorados, típicos de quem busca algo além do que o espelho próprio já se acostumou a refletir com o passar dos anos. E exatos 67 anos depois que chegou ao mundo naquele duro semiárido da pequena Angelin, cidadezinha de Pernambuco, Edileuza Gomes Costa se descobriu negra.

Foi simples e forte assim: bastou um olhar mais demorado no espelho após uma conversa sobre identidade com o filho, o ator Zecarlos Gomes. Coube a ele, ‘em uma conversa com amor e escuta, porque o amor transforma e educa’ fazer a mãe notar os traços do rosto, o tom da pele e o jeito do cabelo. Sinais de uma ancestralidade que ficou encoberta por mais de seis ­décadas.

“Era como se esse tempo todo eu estivesse em uma névoa na minha frente e agora tudo está claro. Eu dei um pulo de um lugar para o outro, porque agora eu sei quem eu sou e isso me emociona, me deixa muito feliz”, conta a senhora de sorriso fácil, que passou a investigar sua própria história após a descoberta.

Conversou com a mãe, que aos 94 anos ainda lembra dos familiares retintos, cuja ‘cor de jabuticaba’ da pele em muito se distancia dos filhos que dona Edileuza teve. Agora, tenta entender de forma mais ampla o significado da palavra ‘colorismo’, que por tantos anos a colocou em uma posição de ‘parda’ e ‘morena’, embora o preconceito velado sempre tenha dado as caras ao longo de sua vida.

“Na feira, um senhor de outra banca me chamava de macaca. Eu ficava brava, brigava com ele e não entendia porque ele falava isso, pois eu era branca. Outro colega cantava aquela música ‘Preta, fala pra mim/Fala o que você sente por mim’, quando eu passava. Eu também já escutei que eu ‘escureci a família’ quando tive meu primeiro filho, mas nunca entendi muito bem tudo o que me falavam. Eu nunca entendi muito bem o motivo das pessoas julgarem as outras pela cor da pele. Agora eu entendo que tem gente que sofre muito mais porque a pele é mais escura”, conta.

O colorismo consiste no fato de que, ainda que uma pessoa seja reconhecida como afrodescendente, a tonalidade da sua pele será decisiva no tratamento que a sociedade dará a ela. Em outras palavras, quanto mais escuro o tom de pele de uma pessoa for, mais racismo ela irá sofrer e quanto mais claro, mais privilégios ela terá. A tese, no entanto, não desaloja negros claros de sua negritude, como é o caso de dona Edileuza.

O assunto esteve no centro do debate neste ano quando internautas questionaram a escolha da atriz Fabiana Cozza para viver no teatro Dona Ivone Lara, sob a alegação de que ela era ‘branca demais’, mesmo sendo negra.

Apesar de ter auxiliado a mãe, Zecarlos passa justamente por esse processo de descoberta da própria identidade. “Foi um processo meu que reverberou nela. Há alguns anos eu fiz uma peça onde uma das minhas falas era ‘preto não pode’. Hoje, se eu fizesse a mesma peça, essa fala teria mais força. Porque naquela época esse texto não passava por mim  e hoje ele passa. E é um aprendizado constatar que mesmo sendo negro eu sempre tive privilégios de brancos e não passei o que negros retintos passam. Eu enfrentei preconceitos que não doeram na hora, só depois, quando começava a pensar na situação e entender que tinha sido racismo”, conta.

Em tempos onde discursos de ódio e preconceito ocupam o noticiário, dona Edileuza é enfática: tem orgulho de ser negra e acredita que só o amor pode quebrar barreiras, como a que sua família está quebrando aos poucos. “Eu li que um candidato falou que preferia um filho morto a um filho gay. Li que ele tem preconceito por conta da cor da pele. Eu acho que o amor é o mais importante e, dentro daquilo que eu acredito, Deus não fez acepção de pessoas. Eu tenho muito orgulho de me assumir negra. Se todo mundo procurasse sua própria origem não teria tanto preconceito, porque somos todos iguais”.

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