Negra sim!?

Cresci sem me reconhecer como criança negra, apesar dos inúmeros apelidos ofensivos, referentes ao meu cabelo, minha pele não é retinta e isso me fazia acreditar que era branca. Meu pai é um homem negro, minha mãe uma mistura que a deixou mais próxima da branquitude, cabelo liso, lábios e nariz finos, pele clara. Só na Universidade, durante o Mestrado, que me descobri negra. Foi um processo doloroso, pois tive consciência de que muitas experiências que vivi na infância e em relacionamentos afetivos, na verdade era racismo. Suspeito que muitas meninas negras de pele clara, assim como eu, viveram um dia a sensação de um não lugar, é justamente isso que me leva a escrever este ensaio. 

Há mais ou menos dois anos venho me aprofundando nas leituras sobre as questões raciais. O livro “Racismo Estrutural”, do professor, filósofo e advogado Silvio Almeida, tem sido um importante aliado neste processo formativo. Falar sobre raça no Brasil é sempre muito complexo, porque os inúmeros estupros das mulheres pretas no período da escravização, assim como as políticas de embranquecimento após a abolição, foram muito eficientes para nos dividir entre pretos e pardos. Silvio Almeida aponta que por conformação histórica, a raça opera a partir de dois registros básicos que se entrecruzam e se complementam:

1 – características biológicas (traço físico como a cor da pele, por exemplo);

2 – como caractersítica étnico-cultural em que a identidade está associada à origem geográfica, à religião, à língua ou outros costumes, “a uma certa forma de existir”. (ALMEIDA, 2019, p.30)

Observem que o registro 2 foi sistematicamente apagado da história e das experiências do povo negro sequestrado para o Brasil. Por um acaso, algum negro brasileiro, aprendeu na família ou na escola de qual parte da África vieram seus antepassados? Quem de nós, exibe nas conversas cotidianas, a linhagem da família, como adora fazer os brasileiros descendentes de europeus? Quantos negros brasileiros têm sobrenomes com origem africana? Quantos tiveram contato com religiões, línguas, danças, arte de matriz africana? Eu não tive, pelo contrário, assim como a maior parte da população negra no Brasil, tive o Cristianismo empurrado goela abaixo. Diante desses apagamentos, só nos restou como mecanismo de identificação e pertencimento à negritude, as características biológicas, cujos traços se analisados de maneira isolada, sem contextualização histórica e cultural, é arbitrário toma-lo como único parâmetro para definir identidade racial. 

Em um país miscigenado como o nosso, não existe apenas um tom de pele que defina negritude, ou seja, não é porque não tenho uma pele retinta que não sou uma mulher negra. Contudo, é importante pontuar que quanto mais melanina, mais seremos alvo do racismo. Tentarei explicar, com a ajuda do Silvio Almeida, o porquê me afirmo mulher negra. Almeida (2019) afirma que:

 […]as instituições atuam na formulação de regras e imposição de padrões sociais que atribuem privilégios a um determinado grupo racial, no caso, os brancos. E um exemplo disso é a exigência de “boa aparência” para se candidatar a uma vaga de emprego, que simultaneamente é associada a características estéticas próprias de pessoas brancas. (ALEMIDA, 2019, p.46, grifos do autor) […]

As palavras deste intelectual negro falaram diretamente comigo. Quando cheguei a Rondonópolis (uma cidade do interior de Mato Grosso, localizada a 110 km da minha cidade natal) por volta dos anos 2000, era uma jovem cheia de sonhos, planos, metas. Procurei emprego como se procura agulha no palheiro, fiz inúmeras entrevistas para ser vendedora, secretária, recepcionista, balconista, mas não consegui uma vaga desta, sabem por que? Porque as pessoas me olhavam e só me ofereciam a vaga de serviços gerais ou empregada doméstica. Eu não entendia o porquê outras meninas conseguiam e eu não. Hoje, eu sei e compreendo bem a dinâmica, eu não tinha o padrão, a estética branca para atender diretamente o público. Eu até alisei o cabelo para me sentir mais apresentável, mas parafraseando Cristiane Sobral (2014), nossos cabelos alisados jamais serão vistos como padrão de beleza, eles são falsos. Esta realidade tem mudado com o avanço de políticas públicas voltadas para as ações afirmativas, com o fortalecimento dos coletivos negros, do levante, cada vez mais organizado politicamente, do nosso povo, mas isso é assunto que renderia um outro texto.

Demorei muito para me autorizar escrever sobre minha identidade racial, sempre achava que não tinha conhecimento suficiente para tamanho desafio, pensar assim também faz parte da colonização do nosso pensamento. Enfim, gostaria de dizer que, essa pele mais clara, não foi o suficiente para me poupar do racismo estrutural que nos mata cotidianamente. A minha face e o meu jeito de ser, não negam o lugar de onde venho. Eu não sou pobre à toa, meus antepassados não tiveram o privilégio de herdar terras, de terem acesso à escolarização, para eles estava destinado as senzalas, os troncos, os estupros, a desumanização. Por isso, é leviano falar de pobreza, de desigualdades, de classe social no Brasil sem falar sobre racismo. Hoje, a realidade não mudou muito, continuam nos deixando à margem, nos expulsando para as favelas, encarcerando nossos corpos, exterminando nossos jovens, subalternizando nosso trabalho, matando, ridicularizando, inferiorizando nossas produções intelectuais. As Universidades cometem, diuturnamente, epistemicídios com a produção científica de intelectuais negros. Mas, a gente segue resistindo.

Encerro deixando destacado, que ser negro no Brasil não se define apenas pela cor da pele, é muito mais profundo e complexo do que isso. Tem a ver com ancestralidade, com cultura, com experiências, dentre elas a negação de direitos, o preterimento, trabalhos precarizados, vidas pauperizadas, tem a ver com quantas portas se fecharam e ainda fecham na sua cara negra cotidianamente. 

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, Silvio Luiz de. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019. 

SOBRAL, Cristiane. Só por hoje vou deixar o meu cabelo em paz. Brasília: 1ª Ed, 2014. 

 

Patrícia Alves Santos Oliveira

Feminista negra. Pesquisadora das temáticas de raça, gênero, educação e infância. Mestra em Educação, Graduada em Letras, ambos pela Universidade Federal de Mato Grosso – UFMT. Professora na Rede Estadual de Educação Básica de MT, na cidade de Rondonópolis. 

 

 

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** Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do PORTAL GELEDÉS e não representa ideias ou opiniões do veículo. Portal Geledés oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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