Mulheres contra a corrupção

 As procuradoras da República Raquel Dodge e Deborah Duprat comandam as investigações do mensalão do DF

Por:LUCAS FERRAZ, FERNANDA ODILLA, ANDREZA MATAIS , LUCAS FERRAZ

As investigações do mensalão do DEM, em Brasília, alçaram aos holofotes as procuradoras da República Raquel Dodge, 48, e Deborah Duprat, 50. As “damas de ferro” do Ministério Público Federal são definidas por colegas, advogados e juízes como sérias, dedicadas e rigorosas.
Dodge e Duprat tiveram papel central na inédita prisão de um governador por suspeita de corrupção. A primeira pediu a detenção de José Roberto Arruda, sob a acusação de ter tentado impedir a apuração do esquema de propina e compra de apoio político no governo do Distrito Federal. A segunda sustentou a necessidade de mantê-lo preso perante o STF (Supremo Tribunal Federal).

Em comum, têm a militância pelos direitos humanos e uma coleção de ações contra políticos acusados de corrupção. E são amigas -Duprat é madrinha de casamento de Dodge.

“Elas são empenhadas na busca por correção de rumos”, diz Marco Aurélio Mello, ministro do STF, que já foi chefe e professor de Raquel Dodge.

Subprocuradora-geral da República, Dodge foi uma das responsáveis pela primeira condenação do ex-deputado Hildebrando Pascoal, que assassinou um mecânico com motosserra no Acre em 1996. Atuou também no combate ao crime organizado no Espírito Santo, levando à prisão o então presidente da Assembleia, José Carlos Gratz, em 2003.

Reservada e discreta -amigos dizem que ela nunca altera o tom de voz-, Raquel Dodge não teme pressões. Nem mesmo as ameaças de Hildebrando Pascoal no período em que amamentava a filha caçula a fizeram abandonar o caso ou mudar de profissão.

“Ela age como pensa”, afirma a amiga de mais de 30 anos Maria Oliveira Cerejo, assessora no STF, garantindo que Dodge sempre foi uma pessoa “de opiniões firmes e claras”. A ponto de, no auge da investigação do mensalão do DEM, ter acionado o procurador Alexandre Camanho para resolver a situação dos índios no sul da Bahia, onde estavam em pé de guerra.

A sala de Dodge, antes de ser promovida a subprocuradora, era famosa pelos adornos indígenas e pelo mapa indicando a localização exata de todas as tribos. Procurada pela Folha, ela não quis ser entrevistada. Por meio da assessoria, disse que prefere o anonimato.

 

Hippie
Assim como a amiga, a atual vice-procuradora-geral da República Duprat também é apaixonada pela questão indígena, tema que a fez entrar para o Ministério Público. Ela conta que frequentemente viaja para reservas indígenas. Sobre a paixão pelos índios, diz: “Acho que é uma fantasia. Vem daquela coisa de querer viver numa praia cheia de índios”.

Ela também atuou em casos rumorosos contra políticos. Denunciou Ivo Cassol, governador de Rondônia que ainda hoje responde a processos na na Justiça. Coordenou vários inquéritos contra o ex-aliado e agora inimigo de Arruda, Joaquim Roriz (PSC), acusado de crimes como corrupção.
Duprat já defendeu a legalidade da marcha da maconha e a união civil de homossexuais. “Sou alternativa, um pouco hippie. Sou uma pessoa mais década de 60”, define-se.

Nos tribunais, a “cotação” da vice-procuradora está em alta. Colegas de profissão e ministros do STF ouvidos pela Folha destacam o charme de Duprat, que corre regularmente (de 7 km a 8 km) e pratica hipismo montando o próprio cavalo, um puro sangue inglês.

Prestes a completar 51 anos, mãe de um casal e solteira após dois casamentos, ela afirma que não é muito assediada. “É porque tenho cara de mulher má”, brinca.

Sobre o escândalo no DF, uma das “damas de ferro” evita comentá-lo diretamente. “É uma tristeza para todos que gostam de Brasília. O que está acontecendo aqui é uma coisa que você imagina só ocorrer nos rincões mais escondidos do país, onde o Estado praticamente não chega.”
Fonte: Folha de S.Paulo

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