domingo, dezembro 4, 2022
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Mulheres denunciam injúria racial depois de serem acusadas de furto

Três mulheres negras foram acusadas de furtar um brinquedo em loja na região central de Campo Grande, situação que terminou com registro na Polícia Civil. Elas questionam a conduta dos vendedores, da PM (Polícia Militar) e do policial ao fazer o boletim de ocorrência, em que ela não conseguiu qualificar como injúria racial.

A dona de casa, de 44 anos, foi ao centro para fazer compras com a filha, de 18 anos, a nora, de 22 anos, e o neto, um menino de 1 ano e oito meses. Por volta das 17h30, entraram na loja Good Variedades.

Enquanto elas estavam na loja, a dona de casa diz que o neto tirou da sacola um dos brinquedos que havia comprado em outra local e colocou na gôndola. Segundo ela, a filha recolocou entre as compras.

A dona de casa diz que a filha foi ao caixa para pagar por um produto que escolheu, enquanto a cunhada foi para a porta da loja. Nesse momento, uma vendedora se dirigiu a um colega e disse: “Corre atrás daquela negra, que aquela negrinha colocou objeto na sacola”.

A dona de casa diz que o vendedor trouxe pelo braço outra mulher negra e a vendedora disse que não era essa. “Ele pegou minha nora pelo braço e disse ‘vamos para a cozinha’”.

A mulher percebeu o que tinha acontecido, foi tirar satisfação e disse ter ouvido algumas vezes que a “negrinha deu objeto e a outra negra guardou na bolsa”. Na discussão, alega ter sido empurrada pelo funcionário, pois se recusava a deixar a nora ir para os fundos da loja e, se ocorresse, ia chamar a polícia.

Os vendedores teriam bloqueado a passagem da porta para que elas não saíssem e diziam que a filmagem mostrava o objeto sendo retirado da gôndola e colocado na sacola.

Depois da chegada do policial militar, todos foram para os fundos do estabelecimento e as mulheres retiraram os objetos das sacolas e da bolsa para mostrar que não furtaram nada e que o brinquedo, ainda plastificado, fazia parte da compra feita em outra loja. No áudio, é possível ouvir que uma delas que quer registrar boletim de ocorrência contra a loja e a resposta do PM: “Essa é uma situação muito complexa”.

A dona de casa diz que o PM tentou demovê-la do registro da ocorrência, dizendo que somente seria possível se tivessem testemunhas, que foi um mal entendido e da dificuldade do registro no período de pandemia do novo coronavírus. Um homem que presenciou os fatos estava próximo se prontificou a ir à Polícia Civil. “Nós saímos como ladra dentro da loja, escoltadas”.

Na Polícia Civil, mãe e filha dizem que o boletim não foi registrado exatamente como as coisas ocorreram e queriam que constasse a qualificadora do crime racial. Porém, o registro foi de injúria e calúnia.

A advogada Silvia Constantino, da Comissão da Igualdade Racial da OAB-MS (Ordem dos Advogados do Brasil de MS), disse que a qualificadora do fator racial deveria constar no registro da ocorrência, até para que a investigação e posterior denúncia possam ser desenvolvidas de forma correta.

Segundo ela, a comissão foi acionada e irá acompanhar a condução do inquérito e posterior denúncia do caso.

O delegado João Eduardo Davanço, do 1º DP, disse que a Polícia Civil prestou atendimento, constando os fatos como foram denunciados e que tudo será apurado. No boletim, por exemplo, consta que foi a criança que colocou o brinquedo na gôndola e, depois, de novo na sacola, diferindo do relato feito pelas mulheres à reportagem.

Sobre a qualificadora, explicou que o registro não é o que a pessoa quer, mas o fato relatado. “Se isso foi em detrimento da cor, vai ser apurado”.

Davanço diz que o importante é o histórico conter todos os fatos relatados e, caso seja constatado a qualificadora, a injúria racial poderá ser incluída na investigação a qualquer momento.

A reportagem entrou em contato com a PM sobre o procedimento do militar, e aguarda retorno.

A reportagem também entrou em contato, por telefone e de forma presencial na Good Variedades. A informação é que os proprietários não estavam. O vendedor citado pelas mulheres disse que não empurrou Adriane e também não teria ocorrido menção à questão racial.

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