Mulheres estão em apenas 37% dos cargos de chefia nas empresas

No setor público, elas são apenas 21,7%

POR CÁSSIA ALMEIDA, do O Globo 

Procuradora de Goiás, Fabiana Bastos lança a campanha “Menos rótulos mais respeito” – Y. Maeda / V. Maeda/divulgação

Às vésperas do Dia Internacional da Mulher, há pouco a se comemorar quando se olha o topo das hierarquias de poder tanto no serviço público quanto no privado. Com o avanço da mulher no mercado de trabalho, elas respondem atualmente por 43,8% de todos os trabalhadores brasileiros. Mas a participação vai caindo conforme aumenta o nível hierárquico. Elas representam 37% dos cargos de direção e gerência. No topo, nos comitês executivos de grandes empresas, elas são apenas 10% no Brasil.

— Em 2015, eram 4,7 milhões de profissionais, dentre os quais 63% eram homens nos cargos de chefia. A desigualdade de rendimentos entre homens e mulheres nesta categoria é maior que no mercado de trabalho como um todo — afirma a economista do IBGE Cristiane Soares.

Na média, a mulher ganha 76% do salário dos homens. Nos cargos de gerência e direção, essa proporção vai para 68%. Quanto mais alto o cargo e a escolaridade, maior a desigualdade de gênero. As estatísticas mostram, no entanto, que, na média da população, a escolaridade feminina é maior. A mulher tem oito anos de estudo, e o homem, 7,6 anos.

Para Cristiane, a sociedade empurra a mulher a um papel que acaba restringindo suas escolhas profissionais. E a família é outro motivo para frear a subida da mulher no mercado, diz a economista:

— Muitas mulheres escolhem carreiras em que podem conciliar trabalho com as tarefas de casa, mãe, esposa, cuidadora. Outras abrem mão da carreira ou dão prioridade para a ascensão do marido, por ele ganhar mais. Há vários aspectos que restringem essa ascensão, inclusive o machismo, pois alguns homens ainda não aceitam a ideia de serem comandados por uma mulher.

No setor público, a situação se repete, mas como a entrada se dá por concurso público, a distorção é menor no ingresso, mas se intensifica nos graus superiores. Por causa disso, procuradoras de Goiás resolveram promover uma campanha em prol da igualdade e de mais respeito nos ambientes de trabalho. Segundo Fabiana Bastos, procuradora do Estado de Goiás, a presença feminina nos espaços de decisão do Judiciário é mínima:

— Em Goiás, só 19% dos desembargadores são mulheres. Nos tribunais militares, a participação feminina fica em 16%.

No STJ, só seis mulheres em 33 ministros

A campanha também visa a extinguir os rótulos associados às mulheres no mercado de trabalho. O cartaz da campanha “Menos rótulos mais respeito” é emoldurado por expressões do tipo “bonita demais para ser inteligente”, “histérica”, “bonitinha, mas burra”, “deve ser a TPM”. A procuradora de Goiás Poliana Julião sofreu esse tipo de constrangimento quando era promotora de Justiça em Tocantins.

— Nesse período tive alguns dissabores na vivência profissional. A beleza era sempre invocada como se fosse incompatível com sua capacidade profissional. Escutei coisas como “você deveria ser modelo e não estar num tribunal”. O mérito nunca é conquistado pela sua capacidade profissional.

Ela conta que fez uma sustentação oral num processo difícil em segunda instância e conseguiu reverter a situação em favor do estado:

— Foi quando um colega me falou que eu ganhei porque o desembargador me achou bonita. Outro falou que eu tinha conseguido o cargo porque tinha prova oral no fim do concurso. Como se defender de uma ofensa dessa?

O problema na Justiça, segundo Poliana, é quando as indicações determinam a ascensão na carreira. E isso fica claro ao olhar os números. Entre os 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que são indicados pelo presidente da República, há somente duas mulheres. No Superior Tribunal de Justiça (STJ), dos 33 ministros, seis são mulheres. No Tribunal Superior do Trabalho (TST), há seis mulheres entre os 27 ministros.

— Por isso, decidimos partir em busca de estratégias para sensibilizar a sociedade sobre a discriminação envolvendo gênero — afirma Poliana.

10% nas diretorias executivas

Na administração pública, 39,7% são mulheres. O que não acontece no topo. Os cargos comissionados, os chamados DAS (direção e assessoramento superior) têm uma exclusão sexual clara. No DAS 1, que paga R$ 2.467,90, as mulheres representam 44,9%. Quando se vai para a outra ponta, o DAS 6, com salários de R$ 15.479,92, a participação da mulher cai para menos da metade: 21,7%:

— A desigualdade é um pouco menor no setor público, inclusive porque, em grande parte, o ingresso se dá por concurso. No entanto, a distribuição dos cargos DAS por sexo deixa evidente que o acesso das mulheres a níveis superiores é mais restrito. O setor público, que de certa forma tem gerência para romper com determinadas desigualdades, geralmente não faz ou até reforça estereótipos. O setor público deveria ser exemplo e muitas vezes não é — afirma Cristiane, do IBGE.

Nas grandes empresas, a realidade não é diferente. A professora da UFF Hildete Pereira de Melo costuma dizer que quando uma mulher assume a presidência de uma grande empresa vira notícia de jornal de tão raro que é. Levantamento feito pela Consultoria Internacional Oliver Wyman em grandes companhias do setor financeiro em 32 países constatou que somente 10% dos cargos na diretoria executiva no Brasil são preenchidos por mulheres. A média é de 16%, e o país mais bem posicionado no ranking é a Noruega, com 33% de mulheres no comando das empresas. No último lugar aparece o Japão, com 2%.

— Trabalho com o setor financeiro. Quando faço reuniões no nível executivo, sou a única mulher. Além disso, a participação feminina é maior em Recursos Humanos e Jurídico e menor em funções de risco e tecnologia, mas houve uma melhora no último ano nessa questão — afirma a diretora da Oliver Wyman, Laura Maconi.

Para ela, há poucas ações de flexibilidade dentro das empresas, e as políticas de maternidade não estão associadas às de paternidade:

— É importante garantir que as mulheres sejam representadas abaixo do nível executivo, para que haja oferta de mulheres para ascender. Outro ponto importante é que os processos de avaliação e promoção sejam bem objetivos. Se for subjetivo, com um homem na liderança, vai reconhecer alguém mais parecido com ele, no caso, um homem.

As políticas públicas em nível nacional e uma cultura mais inclusiva explicam as posições de liderança de Noruega e Suécia. É nessa realidade que as procuradoras de Goiás esperam viver um dia:

— Sonhamos que o Brasil passe a figurar, juntamente com Islândia, Noruega, Suécia e Finlândia, entre os países em que as mulheres têm melhores chances de igualdade de tratamento no trabalho — afirma Fabiana Bastos.

 

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