Guest Post »

Não adianta só pedir desculpas

Taís Araújo, Elisa Lucinda, KL Jay, Luana Xavier e outras personalidades negras refletem sobre o racismo estrutural brasileiro

Por Carol Ito e Nathalia Zaccaro Do Revista Trip

Fotos: divulgação e reprodução/Revista Trip

Ter certeza de que você não é racista é um clássico brasileiro. A convicção de que por ter amigos negros, escutar rap ou adorar a Bahia você nunca poderia ser preconceituoso é um sinal do quão estrutural é o racismo no Brasil. Existe uma dificuldade enorme em se perceber racista porque esse tipo de comportamento está enraizado na cultura e na identidade do povo brasileiro.

O preconceito é cotidiano, naturalizado e defendido muitas vezes como apenas uma brincadeira. E vemos esse padrão se repetir seguidamente, seja em uma festa em que o cenário evoca um Brasil escravocrata, seja em declarações discriminatórias ditas livremente em um programa como o Big Brother Brasil.

Convidamos pessoas que simbolizam a luta contra o racismo estrutural a nos contar sua visão a respeito de acontecimentos como esses. Como mudar essa realidade?

Taís Araújo

Atriz, 40 anos

Foto da atriz Taís Araújo
Fotos: divulgação e reprodução/Revista Trip

“O racismo estrutural é das coisas mais complexas do Brasil. Chegar em um restaurante e só ter negros trancados numa cozinha e nunca desfrutando de um prato de comida. Ver os presídios lotados de maioria esmagadora negra e achar isso natural. Ver os manicômios com maioria negra e achar que tudo bem. A maioria das pessoas em situação de vulnerabilidade são negras e você não se incomoda. A maioria das mulheres assassinadas, vítimas de violência doméstica, são negras. A maioria dos jovens assassinados são negros. São coisas que são naturalizadas porque o Brasil é construído em cima desse racismo.

A primeira coisa a fazer é reconhecer isso, olhar com crítica e reverter a situação. Mas como a gente reverte?

Acredito que são com políticas públicas — educação e saúde pública de qualidade, por exemplo —, porque é muita gente em situação de vulnerabilidade. Precisamos atender essa sociedade que está marginalizada desde a abolição da escravatura. A gente precisa conhecer nossa história verdadeira, porque o que aconteceu foi uma pressão ferrada da Inglaterra para ter público consumidor e o Brasil foi o último país a abolir a escravidão. A abolição aconteceu e os negros ficaram à margem, sem saúde, educação, emprego, nada. Isso deságua no país desigual que temos hoje. Não conhecemos nem nossa própria história. A gente tem que se envergonhar, se conscientizar e trabalhar para mudá-la.

Já me pronunciei algumas vezes sobre racismo estrutural. Uma vez uma marca de roupa fez uma estampa que remetia ao período escravocrata do Brasil e isso é inadmissível. Não dá para romantizar, não tem que estar na decoração, não é brincadeira, não é  romântico, não foi bonito. O Brasil tem uma tendência de transformar o período da escravidão em romance, quando na verdade as pessoas foram sequestradas, traficadas, mortas e torturadas. 

A outra vez que me pronunciei foi no caso da Donata Meirelles, porque não foi legal. São pessoas que sabem o valor da imagem, mas é tão estrutural que elas não conseguem perceber e isso é muito grave. Percebo (e quem tem a cor da minha pele percebe) porque bate direto na minha história, no meu sangue, de quem veio antes de mim. O racismo estrutural é péssimo para a gente, mas é péssimo para o país também. O Brasil inteiro perde.”

KL Jay

DJ dos Racionais, 49 anos

Foto: KL Jay DJ dos Racionais
Fotos: divulgação e reprodução/Revista Trip

“O racismo no Brasil é quase uma lei, faz parte da cultura que o próprio país, a própria nação, emite e prolifera. Está estampado na constituição: seja racista, é isso aí mesmo. É a mentalidade da colônia de 500 anos atrás que está se perpetuando. Faz parte da cultura. Está na estrutura do país. Diferentemente de vários países do mundo que lutam contra isso, aqui é bonito mostrar que “ó, a gente pensa isso aí mesmo”. A televisão permite, os meios de comunicação permitem, as escolas permitem. É uma mentalidade doentia.

Não existe uma lei pesada contra o racismo. A própria Rede Globo permite que, no Big Brother Brasil, as pessoas sejam assim, no ar, ao vivo, pra todo mundo ver. Era pra ser inadmissível. A pessoa deveria sair do programa imediatamente, levar processo e ir presa. Como a nação permite isso?

Será que aquela mulher da foto da festa faria a mesma coisa se fosse com o Holocausto? Os judeus iriam cair putos em cima dela, ela mesma acharia um absurdo. Mas as pessoas pensam que podem falar o que quiserem dos pretos que nada vai acontecer.

Eu consigo ver o racismo estrutural na atitude das pessoas, no jeito como elas falam comigo, como me olham e me tratam. Existe um complexo de superioridade de quem é racista. Ele fala com você com aquele ar superior, não é um tratamento igual.

Os racistas adoram a música dos pretos, mas não gostam dos pretos. A música pode mostrar de uma maneira explícita o que acontece e, mesmo assim, isso não faz a pessoa deixar de ser racista. Mas ela pode tomar alguma consciência. Muitos brancos que não são racistas não compram a briga, não colaboram para mudar. O hip hop pode ter essa força de fazer você tomar alguma atitude, perceber que seu povo oprime aquele outro povo e que precisamos fazer alguma coisa para mudar.”

Elisa Lucinda

Atriz, 61 anos

Foto: da Atriz Elisa Lucinda
Fotos: divulgação e reprodução/Revista Trip

“Essas festas existem há 500 anos. O olhar da Casa-Grande é muito limitado, estereotipado e não tem muito discernimento sobre uma cultura que desconhece. Então, comete vários equívocos, como vem acontecendo. Sempre existiram essas festas, sempre tripudiaram com o nosso sofrimento. Esse é um racismo com o qual muitos brancos colaboram.

Tem muito branco gente boa, mas são racistas, tiveram aquela empregada que ninguém sabia o sobrenome, que dormia na casa e tinha uma patroa mirim, branquinha. Isso tem que acabar e o Brasil tá começando a olhar pra isso. O racismo muitas vezes é mantido por quem diz ser contra ele.

O que aconteceu de novidade é que até agora muitos brancos bacanas, gente boa, não sabiam que colaboravam com o racismo, mesmo tendo a empregada morando naquele quarto sem janela. A discussão tá chegando, sim, e nós estamos peitando a brincadeira. Não passarão os velhos discursos.

Tem mais gente falando, pensando, se posicionando, mais plataformas de emissão de pensamento. Aí, meu bem, o mundo é outro. Esse é o novo Brasil que, ao ir à escola, mexeu no funcionamento da máquina. Porque tem o Brasil que não pode ir à escola, tem que ir pra cadeia. Pedir desculpas não é a solução, mas é um bom sinal. Pra quem antes negava a participação, confessar o crime é um bom começo.

Uma coisa interessante é a educação dos filhos. Eles estão sendo educados de maneira racista e vão se ferrar no novo mundo. Não aguentaremos mais racistas. Se o filho só frequenta clubes e lugares com gente branca, está sendo criado num sistema segregacionista, com esse olhar de que o outro, além de diferente, é menor do que ele. Essa mudança é prática e vai ter que ir além do pedido de desculpas, porque isso aqui não é um confessionário. Admitir o crime é só o começo do assunto.”

Luana Xavier

Atriz, assistente social, influenciadora digital e sacerdotisa de umbanda, 31 anos

Foto da Atriz Luana Xavier, assistente social, influenciadora digital e sacerdotisa de umbanda
Fotos: divulgação e reprodução/Revista Trip

“É mais do mesmo. São repetições de coisas que sempre aconteceram. Me perguntam: ‘você não acha que não foi por maldade, que fizeram aquilo por falta de informação?’. A informação está aí. Eu entenderia como falta de informação se a gente estivesse falando sobre pessoas que tiveram um acesso muito frágil à informação. Nesses casos, estamos falando sobre pessoas que têm muito acesso, não há como perdoar. Até porque o racismo é crime inafiançável.

A gente que é preto no Brasil sofre quando é atacado, sofre novamente quando as pessoas nos cobram um posicionamento sobre aquilo. Quando a gente tem que se posicionar, a gente revive aquela cena novamente. Falo das pessoas não negras principalmente. Porque as pessoas negras, quando questionam, pedem posicionamento, normalmente querem se sentir acolhidas de alguma forma, enquanto as não negras perguntam numa pegada de ‘tribunal da inquisição’, sabe?

A questão do racismo não é um problema dos negros, é um problema dos racistas. Quem tem que se consertar são os racistas. Não somos nós, negros e negras, que temos que ter um olhar mais paciente pra ficar catequizando as pessoas sobre os danos reais causados por essas atitudes. Essa conta não pode ser cobrada da gente, mas, sim, de quem pratica. Tem uma frase forte que algumas pessoas do movimento negro estão usando. Não sei bem de quem é, mas diz: ‘o racismo é o único crime resolvido com pedido de desculpas’. Crime tem que ser resolvido na justiça, é assim que funciona.

Virou moda dizer que é de religião de matriz africana. As pessoas são frequentadoras, simpatizantes, assistem uma festa e acham que isso é dizer que são iniciadas naquela religião.

Candomblé é uma religião que, se você não for iniciado, não faz parte dela. Mas as pessoas estão transformando tudo em fetiche. É engraçado você fazer black face, mas eu duvido querer ser preto de verdade na hora que a polícia escolhe primeiro os pretos pra revistar, quando a gente chega no mercado de trabalho e é dispensado pela cor da nossa pele.

A gente que é de religião de matriz africana traz forte essa questão da ancestralidade. Dói mais ainda quando as pessoas tratam a nossa religião como brincadeira, como uma coisa que qualquer um pode estar dentro.”

Maíra Azevedo (Tia Má)

Jornalista, humorista, youtuber do canal Tia Má, 38 anos

Foto da Maíra Azevedo (Tia Má) Jornalista, humorista, youtuber do canal Tia Má
Fotos: divulgação e reprodução/Revista Trip

“O racismo é o crime perfeito. A gente está percebendo que, mesmo diante de situações racistas, ainda tentam responsabilizar justamente quem é a vítima. As pessoas cobram das pessoas negras um posicionamento diante daquilo que muitas vezes nos adoece, nos enlouquece e, de fato, nos mata, seja biologicamente, seja emocionalmente e psicologicamente. É nítido que a população negra é muito mais vulnerável a doenças que tenham relação com o emocional — andamos ansiosos, porque a gente precisa de respostas, ficamos tensos porque sabemos que podemos ser discriminados a qualquer momento.

Esses últimos episódios só atestam o quanto o Brasil ainda tem saudades do período escravocrata e se incomoda de perceber que, cada vez mais, a população negra está adentrando em espaços do poder. Na verdade, por conta do racismo estrutural, as pessoas não se dão conta de que determinadas posturas são de fato racistas. Tem gente que já naturalizou aquele comportamento equivocado e não consegue se dar conta que aquilo é um grande erro. Então, elas se desculpam quando aquela situação vem à tona — porque o grande problema no Brasil não é ser racista, o grande problema é ser descoberto enquanto racista.”

Marcio Black

Cientista político e produtor cultural, 39 anos

Foto de Marcio Black: Cientista político e produtor cultural
Fotos: divulgação e reprodução/Revista Trip

“Hoje, a questão racial se mostra estruturante tanto à esquerda, quanto à direita. A gente nem está em um fogo cruzado, pois as armas dos dois lados estão apontadas diretamente para gente. A informação sobre o debate racial chega, mas as pessoas fazem questão de ignorar porque isso não as afeta de maneira nenhuma. Essa galera não consegue nem entender o que é racismo e o que é preconceito, porque é uma coisa que nunca passaram na vida.

O caso da Donata e da festa em Salvador deixa isso muito evidente, inclusive na forma que defendem aquilo. ‘Era uma festa baiana.’ ‘Era uma festa de santo.’ Não é essa a questão. Não importa a razão pela qual aquele cenário foi montado. O que importa é que foi criado um cenário em que as pessoas negras, mais uma vez, foram colocadas como objeto cenográfico, como uma coisa e não como seres humanos.

O maior problema é que a elite e a classe média brasileiras não conseguem enxergar as pessoas negras como seus pares, tanto socialmente como economicamente. Mas, para não ficar só nos pontos negativos, existe uma série de empresas, de marcas e de pessoas que se posicionam contra esse tipo de acontecimento. Por mais que a gente tenha sofrido um monte de retrocessos nos últimos tempos, temos também que olhar com cuidado para quem são nossos aliados nesse momento.

A gente tem assistido hoje a ascensão de uma classe média negra que, inevitavelmente, está convivendo com essa classe média branca que estava aí há muito tempo com uma série de privilégios. Isso cria uma série de ruídos, mas também normaliza a presença dessas pessoas no mesmo lugar.

Já a elite, e mesmo classe média alta, vai demorar um tempinho para começar a reconhecer essas questões e essas demandas, porque as pessoas negras ainda não chegaram nesse lugar. Não temos negros banqueiros, dirigindo revistas de moda ou esse tipo de coisa.”

Related posts