sexta-feira, novembro 26, 2021
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‘Nem hetero, nem homo’: como se identificam as pessoas não monossexuais?

O criador de conteúdo Nick Nagari se identifica com a bissexualidade, termo que designa as pessoas para quem o gênero não é um fator determinante da atração sexual ou afetiva. Estudando o tema e vivendo mais próximo a outras pessoas bissexuais, no entanto, encontrou um nome para abranger todos que se sentem como ele: Nick se identifica como “monodissidente” ou “não monossexual”.

As duas palavras são mais comuns no ambiente acadêmico e entre pesquisadores de sexualidade, mas também estão sendo descobertas por pessoas como Nick, que discute a questão no Instagram em seu perfil pessoal. Quem não é monossexual como ele, explica, faz parte do grupo de pessoas que sentem atração por mais de um gênero (ou seja, além dos bissexuais, também os pansexuais e os polissexuais). Confuso? Não. Só mais uma forma de garantir o reconhecimento e a visibilidade de todas as formas de se relacionar.

Não-monossexuais ou monodissidentes: quem são essas pessoas?

Se você se sente atraído ou atraída por apenas um gênero — é heterossexual, gay ou lésbica —, você está debaixo do guarda-chuva da monossexualidade.

Assim, os não monossexuais abrangem os que não se relacionam com somente um gênero e podem incluir:

  • Bissexuais: que se relacionam afetiva e sexualmente com pessoas sem que o gênero delas seja determinante para isso
  • Pansexuais: que se sentem atraídas por pessoas, independentemente do sexo, do gênero ou de como se apresentam ao mundo
  • Polissexuais: que podem se atrair por muitos gêneros, mas não por todos

Nick conta para Universa que mais recentemente compreendeu que não pertencia a nenhuma das caixinhas definidas como “hetero” ou “homo”. Por isso, prefere usar uma explicação divergente dessas orientações sexuais.

“Digo que sou monodissidente porque é um conceito mais intuitivo para entender aqueles que se atraem por mais de um gênero. E, ao usar o termo, entendo que minha história vem de longe, construída por quem criou comunidades bissexuais nos anos 1970 e por quem estuda isso desde os anos 2000”, explica o criador de conteúdo, que também se identifica como não binário, ou seja, que não se percebe como pertencente a um gênero exclusivamente (masculino ou feminino).

A psicóloga Melissa Bittencourt Jaeger, que é bissexual e tem um mestrado em gênero e sexualidade sobre mulheres bissexuais, explica que dentre os estudos do conceito da orientação monossexual também se analisa o monossexismo. Assim como o patriarcado e o racismo, ele faz parte de uma estrutura social. Nesse caso, acontece a suposição de que todo mundo é monossexual.

Nesse sistema, se diz que as pessoas são ou heterossexuais ou gays ou lésbicas, invisibilizando os não monossexuais

A especialista destaca que jogar luz sobre a não monossexualidade não significa que essa é uma forma melhor de viver e se relacionar, mas diz respeito a tirar do apagamento social as pessoas que, quando se identificam como bissexuais, por exemplo, já são alvo de discriminação e preconceito. “Também não é para dizer que as não monossexuais sofrem mais do que lésbicas ou gays. É colocar mais um ponto na comunidade, que deve ser considerado.”

Bissexualidade é o mesmo que não monossexualidade?

A resposta é não. Qualquer pessoa que não se encaixe na construção de se sentir atraída por só um gênero é não monossexual (e isso não tem nada a ver com ter diferentes parceiros, como a não monogamia, ou com questões de identidade de gênero, ok?). Mas a bissexualidade é uma das sexualidades contempladas pela experiência não monossexual. Nick explica:

A bissexualidade é uma definição mais antiga, que serve como ponto de partida para esse pensamento da monodissidência

“Ao mesmo tempo, há quem use bissexualidades para abarcar as várias formas de viver de quem se atrai por mais de um gênero”, explica.

Para ele, mais do que uma escolha de palavras, cravar o termo também tem valor político. “Crescemos em um não lugar, não nos é falado sobre a possibilidade de ser não monossexual. Seria ótimo se não precisasse dessa divisão, mas, quando se fala de rótulos, ainda precisamos de nomes para nos identificarmos e nos unirmos. É preciso mostrar que a gente pode viver sem nos enquadramos nas caixinhas de gay, lésbica e hétero. Caixinhas que não cabemos.”

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