CPI da Câmara Municipal vai investigar agressão de GCM contra mulher trans no Centro de SP

Enviado por / FonteDo G1

Imagens mostram agente da Guarda Civil Metropolitana quebrando cassetete em Laurah Cruz na quinta (30). Atriz alega que agressão começou após desentendimento com guarda. Ela também o acusou de transfobia e racismo. GCM informou que irá apurar as acusações.

A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Câmara Municipal que investiga a violência contra Pessoas Trans e Travestis em São Paulo aprovou na última sexta-feira (1) um requerimento para que sejam apuradas na comissão as cenas de violência de um guarda civil contra uma artista trans na região da Cracolândia, Centro da capital paulista.

O pedido da vereadora Erika Hilton (PSOL), presidente da CPI, solicitou informações à Prefeitura de São Paulo sobre o protocolo de abordagens adotado pela Guarda Civil Metropolitana (GCM) na cidade, “principalmente no que diz respeito a abordagens de pessoas LGBTQIA+ e quais programas e políticas anti-transfobia e antidiscriminatórias são implementadas pela Guarda”.

O requerimento também pediu à Secretaria Municipal de Segurança Urbana, ao Comando Geral da Guarda e à Corregedoria da GCM, que enviem cópia completa do termo de ocorrência da referida operação, indicando os nomes dos agentes que executaram a abordagem e as eventuais medidas tomadas pelos órgãos no episódio ocorrido na última quinta-feira (30).

A ação violenta da GCM aconteceu durante abordagem policial na Cracolândia, no Centro de São Paulo, e foi gravada por uma professora e as imagens acabaram compartilhadas nas redes sociais.

Por meio de nota a Secretaria Municipal de Segurança Urbana, informou que o comando-geral da Guarda Civil Metropolitana vai apurar a denúncia para tomar “as medidas disciplinares condizentes.”

“Sou ser humano, não mereço ser tratada assim”, afirmou a atriz Laurah Cruz, de 33 anos, após aparecer em vídeo sendo agredida pela GCM.

Numa das cenas é possível ver o momento que o guarda quebra o cassetete nas costas da vítima.

Laurah Cruz acusou o guarda de ter sido transfóbico e racista com ela e de jogar spray de pimenta no seu rosto.

“Homofóbico, homofóbico, é isso que você é”, diz Laura na gravação ao guarda que a agrediu. Nas imagens é possível ver que ela é revistada por outro agente da GCM.

Segundo Laura, o guarda a agrediu após um desentendimento entre eles durante abordagem nas alamedas Cleveland com a Glete, no bairro Campos Elíseos.

CPI da Trasfobia

A Câmara Municipal de São Paulo instalou a CPI da Violência Contra Pessoas Trans e Travestis, chamada de CPI da Transfobia, em 24 de setembro. A comissão foi proposta justamente pela vereadora Erika Hilton (Psol), após a morte de Lorena Muniz, mulher trans abandonada durante incêndio em uma clínica da capital em fevereiro deste ano.

Além de Erika presidir a comissão, o vereador Eduardo Suplicy (PT) foi escolhido vice-presidente e Cris Monteiro (Novo), a relatora. Os outros integrantes da comissão são a vereadora Juliana Cardoso (PT), a vereadora Silvia Ferrado, da Bancada Feminista (PSOL), e Xexéu Tripoli (PSDB).

Instalação da CPI da Violência contra pessoas transsexuais na Câmara Municipal de São Paulo. (Foto: João Raposo/Rede Câmara)

Na abertura da CPI, a vereadora Erika Hilton (PSOL) disse que “a comissão marca um momento histórico para o movimento da população trans do Brasil”.

“Vamos investigar as estruturas que perpetuaram a marginalização e a violência compulsória contra nossas existências”, disse a parlamentar nas redes sociais.

Erika Hilton tem 27 anos e é a primeira mulher trans a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal de São Paulo. Ela foi eleita com 50.508 votos em 2020 e foi a mulher mais votada da cidade na última eleição.

Desentendimento e agressão

Laura é integrante do Coletivo Tem Sentimento, que acolhe mulheres cis e trans em situação de vulnerabilidade oferecendo cursos, como o de corte e costura. Segundo ela, a confusão começou quando foi buscar uma doação de roupas na região conhecida como Cracolândia. O lugar é conhecido assim por reunir traficantes e usuários de drogas, que vendem e consomem entorpecentes nas ruas.

Na ida, Laura contou que passou em frente à viatura da GCM apenas com um caderno na mão. Na volta, estava com uma sacola. Segundo ela, os guardas pediram que ela mostrasse o que carregava. “Virei a sacola no chão”, contou Laura. A partir daí começaram as ofensas e agressões, de acordo com a atriz.

Apesar de Laura dizer que estava trabalhando, o vídeo mostra o momento que o guarda grita e corre em direção a ela: “Volta aqui…se eu não te arrebento”. É possível ver o agente dando golpes de cassetete na atriz, até que num deles o equipamento quebra.

” Disseram que nada ia acontecer, que eles iriam continuar a exercer a profissão. E perguntei se era assim que eles exerciam a profissão, ao invés de proteger as pessoas”, contou Laura à reportagem.

A atriz chegou a gravar um vídeo depois das agressões para contar sua versão sobre o que sofreu. “Expuseram meu corpo, até fiquei com a bunda de fora porque tive que levantar meu vestido”, contou ela na gravação, que também foi compartilhada nas redes sociais.

“Quero ir atrás dos meus direitos, isso não pode continuar acontecendo. Ele falou para mim que eu estava no território da Cracolândia e que já devia estar acostumada com isso. Não, não tenho que me acostumar com isso”, continuou Laura no vídeo que fez.

A artista falou à reportagem que vai registrar boletim de ocorrência na delegacia e também pretende dar queixa dos agentes na Corregedoria da GCM.

Dados de violência

Coletivo Tem Sentimento comentou agressão da GCM a trans na sua rede social (Foto: Reprodução/Instagram)

“Laura passa bem, com dor e indignada por tamanha injustiça. Ela foi alvo de discriminação, transfobia e racismo e quer que a luta tudo isso se multiplique”, escreveu o Coletivo Tem Sentimento em sua página no Instagram.

Levantamento feito pela Rede Nossa São Paulo mostra que 59% dos moradores da capital paulista já sofreram ou presenciaram pelo menos uma situação de preconceito em função de orientação sexual ou identidade de gênero.

Para 52% dos entrevistados, a prefeitura faz pouco para combater violência de gênero na cidade contra LGBTQIA+, enquanto outros 19% afirmam que a gestão municipal não faz nada, totalizando 71% de avaliação negativa sobre o tema.

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