A arte de escrever, e escrever, e escrever, até que o “invisível” venha à tona; escrever até que possam ser lidos os aprendizados das pretas mais velhas, nos seus gestos mais sutis; escrever até que enxerguemos lições onde não existe intuito de ensinar, ou não exista qualquer estímulo ao ato de aprender; vislumbrar na escrita de Cidinha da Silva também um ato de amor, porque são de uma mulher negra as lições que o livro pretende ilustrar a um dos países mais racistas do mundo, e sua intenção, certamente, não é a de segredar palavras doces aos ouvidos de surdos.
Engana-se quem pensa que o livro “Só bato em cachorro grande, do meu tamanho ou maior: 81 lições do método Sueli Carneiro”, publicado em 2025 pela editora Rosa dos Tempos, seja um conjunto de aforismos ou ensinamentos apanhados à ponta da língua de Sueli. A partir de uma relação de parceria e amizade de mais de 30 anos, a escritora Cidinha da Silva tomou para si a tarefa de reunir em cerca de 200 páginas um pouco do que considerou o essencial de sua estreita convivência com a mestra.
Concebido ao som de “Maçalê”, de Tiganá Santana, o livro tem notória – e notável – qualidade de ser também uma ode ao ouvir (com atenção!). É que, além de páginas e mais páginas de um verdadeiro testemunho de amor e respeito mútuo, o “Cachorro Grande” é uma pedagogia do uso dos nossos sentidos: o saber escutar atentamente até perceber que, naquilo que parece irrelevante, pode haver um grande significado. E não escutar mulheres é mais sintomático quando se trata de pessoas negras, pois o racismo, que na sua maneira de operar silencia, acaba por calar as vozes mais escuras de sua nação.
E quanto ao saber enxergar, é um livro que nos ensina a identificar na prática a aliança com o que as palavras dizem. Ou seja, o bom e velho ditado de que é preciso estar aliada com aquilo que se diz. E, pelo que podemos ver da imagem que Cidinha nos apresenta de Sueli, sim, a filha de Ogum é de falar e fazer!
A memória é uma das ferramentas que abrem os caminhos do livro, porque é sobre o chão do passado que Cidinha da Silva percorre novamente lugares e momentos diversos em sua vida. Na lição 31, “Respeite e reverencie a estatura de uma pessoa”, Cidinha narra um breve momento de comoção de Sueli Carneiro diante de uma companheira de geração que, como em tantas histórias que nós mesmos já ouvimos, abandonou a carreira e os cuidados pessoais para apoiar o marido e, após o divórcio, cuidar sozinha dos filhos. Com olhos marejados, Sueli reconhece a importância da batalha daquela mulher e a acolhe e a engrandece como quem sabe onde encontrar o ouro, como quem sabe as maneiras de revelar o melhor da pessoa que a ouve.
Quem entende a firmeza de Sueli como o estereótipo da negra tempestuosa, que se constrói na base das necessidades da vida, as quais não a estimulam a sorrir ou chorar, não poderá compreender (enquanto não ler o livro!) de onde vem toda sua verdadeira força, que está na sua entrega à causa, na sua imensa generosidade, dando provas em diversos episódios do livro, no seu modo valente e estratégico de liderar as frentes do Instituto Geledés no combate ao racismo no Brasil.
O livro “81 lições” é dividido em três movimentos, que a autora logo se incumbe de explicar nos seus prólogos. Ele cobre também movimentos da autora, agindo como um tipo sutil, não declarado, de “autobiografia”, já que todas as lições são experiências reais vivenciadas por Cidinha nessas mais de três décadas. Aí sabemos do primeiro contato com Sueli, em uma palestra em Belo Horizonte, no ano de 1988, e, após isso, a chegada de Cidinha a São Paulo, em 1991, para trabalhar em Geledés. Esse momento seria de crucial importância na reviravolta da música e da cultura brasileiras, pois Sueli e Cidinha foram também duas das mentoras intelectuais do movimento hip-hop em São Paulo nos anos 1990.
Embora uma das muitas lições importantes seja “Tenha agenda, anote tudo”, é um livro que não foi escrito com papéis e canetas em mãos, mas sim com a constante e corajosa ação prática e reflexiva de Cidinha na vida e no comportamento diário das pessoas ao seu redor. Cada lição é uma ação de Sueli Carneiro, observada pelos olhos atentos de Cidinha da Silva. E essa sua reinterpretação dos fatos faz com que a autora não seja apenas alguém que observa as situações narradas passivamente, mas sim uma personagem que possui a sagacidade de tomar quase quaisquer circunstâncias como matéria de nota. Muito mais do que uma mestra inteiramente disponível a ensinar (o que realmente há!), existe uma discípula que insistentemente quer aprender. E talvez por isso seja Cidinha da Silva a verdadeira protagonista dessa história, que já nasce uma leitura essencial para a compreensão de um outro Brasil, escrito por mãos de mulheres negras.