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“Nos manteremos vivos, lutando pela vida e pela arte”

Por Kátia Mello

Lucélia Sérgio /Foto: Vitor Vieira

Começa nesta sexta-feira 15 e vai até a terça-feira 19, no Centro Cultural Olido e no CRD – Centro de Referência da Dança, ambos em São Paulo, o I Fórum de Performance Negra de São Paulo. O evento que tem como tema “Estéticas Negras e Políticas Públicas rumo ao futuro: como a memória da diáspora e as intersecções culturais podem alimentar as multipluralidades performáticas negras”, pretende reunir grupos e coletivos negros artísticos, para pensar, dialogar e fomentar os trabalhos e pesquisas da arte negra no Estado de São Paulo.

Participam desta versão paulista do fórum – criado em 2005 pelo Bando de Teatro Olodum, da Bahia, e pela Cia. dos Comuns, do Rio de Janeiro -, 30 pensadores, entre eles Leda Maria Martins, Salloma Salomão, Júlio Moracen Naranjo, Gil Marçal, Samuel Alves dos Santos e Rute Rodrigues dos Reis.

Para falar sobre a relevância do fórum e as discussões sobre a arte negra, a coluna Geledés no debate entrevistou uma das curadoras do evento, a atriz, diretora, arte educadora e co-fundadora da companhia de teatro Os Crespos, Lucélia Sérgio.

Geledés- O que se pode esperar do 1º Fórum de Performance Negra de São Paulo?

O fórum é um espaço para discutir políticas públicas e fortalecer as experiências estéticas dos grupos de arte Negra, dentro das diversas linguagens cênicas. Um espaço para levantar propostas para a continuidade dos trabalhos dos artistas negros do Estado. O objetivo é discutir os significados das diversas construções que se dizem negras, não para provar que elas existem, pois hoje isso já é notório e inegável, mas para entender sua complexidade, para buscar formas de ampliar as pesquisas e de multiplicar os espaços que existem para a circulação desses trabalhos. Estamos acostumados à escassez, a lutar por vagas limitadas, mas precisamos, juntos, pensar em subsídios para o pleno desenvolvimento da arte Negra, ações que considerem a diversidade de propostas e que contemplem a maioria da população brasileira. Não estamos contentes com 3% da verba destinada à cultura – o destinado hoje ao setor. Queremos mais, queremos equidade e precisamos lutar por isso juntos, considerando as especificidades de cada linguagem e das diferentes referências estéticas das obras.

“Estamos acostumados à escassez, a lutar por vagas limitadas, mas precisamos, juntos, pensar em subsídios para o pleno desenvolvimento da arte Negra; ações que considerem a diversidade de propostas e que contemplem a maioria da população brasileira”.

Geledés- O que significa o fórum sair de Salvador e aterrissar em São Paulo?

Fórum nacional é uma instância ímpar, de extrema importância nas conquistas do setor e para o desenvolvimento e nascimento de diversos grupos em todo Brasil. Dessa forma, o fórum sempre esteve aqui em São Paulo, pois ideias e sonhos não conhecem barreiras, ao contrário, elas contagiam. Os artistas e os grupos paulistas que tiveram a oportunidade de participar das edições do fórum em Salvador fazem parte dessa história e tem a responsabilidade de dar continuidade a ela, cumprindo a demanda que temos de discutir as especificidades dos Estados. Conseguir realizar essa primeira edição estadual mostra a força que os grupos de teatro, dança, circo e cultura popular ganharam com seus trabalhos nos últimos anos. Este espaço foi cavado a duras penas e conquistado pela qualidade das propostas. Dar visibilidade a isso é mais que importante, pois essa cena movimentou e modificou o que chamamos de arte cênica nos últimos 20 anos.

Geledés – Qual o papel dos artistas e de outros profissionais negros da arte na discussão sobre a elaboração de políticas públicas para a equidade racial?

As propostas de fortalecimento destes trabalhos precisam surgir dos trabalhadores negros da arte. Geralmente são escolhidas uma ou duas figuras para falar dos seus trabalhos como se elas fossem representantes de toda uma categoria; ou para ocupar os espaços, como se as iniciativas desses profissionais fossem exclusivas e inéditas. Dificilmente, em se tratando de negritude, o leque é aberto, pois é interessante para os que dominam os meios de comunicação mantenham a ilusão de que não existem milhares de iniciativas que caminham ao lado destas poucas escolhidas. É preciso pressionar para que se reconheça que não é uma exceção, existem muitas pessoas fazendo arte Negra e só essas pessoas podem construir propostas que não sejam reducionistas ou excludentes no campo das políticas públicas para as artes. Cada artista negro tem papel fundamental nessa discussão para que as pautas incluam toda a diversidade que esta cena apresenta.

“É preciso pressionar para que se reconheça que não é uma exceção, existem muitas pessoas fazendo arte Negra e só essas pessoas podem construir propostas que não sejam reducionistas ou excludentes no campo das políticas públicas para as artes”.

Geledés – De 2005 para 2019, o que mudou em relação à participação de negros e negras nos editais públicos?

Algumas políticas públicas foram criadas do primeiro fórum nacional até alguns anos atrás, alguns editais para artes negras, uma consciência maior de alguns editais para ter jurados negros, algumas decisões políticas do extinto ministério da cultura. O importante é que essas poucas e pequenas mudanças fortaleceram muito os grupos de performance Negra e impulsionaram a cena de forma irreversível. Mas vemos as poucas políticas criadas nesse sentido sendo retiradas, atacadas e desprezadas por uma sequência de fatores que tentam desmobilizar todo tipo de força social. As artes são espaços de poder, pois conversam e influenciam o imaginário das pessoas, de uma sociedade. Precisamos lutar pelo retorno das políticas públicas específicas para arte negra, mas também por outras propostas ainda não implementadas.

Grupo Aláfia participará do I Fórum de Performance Negra de São Paulo (Foto: Renato Nascimento)

Geledés – Como se é possível pensar a rentabilidade da arte negra em tempos em que a cultura está sendo desmantelada?

Temos que pensar juntos em saídas: patrocínio de bancos internacionais; maior representação nos poucos meios que ainda se sustentam; lutar pela sobrevivência das artes ao lado das pessoas não negras, exigindo que nossas pautas sejam incluídas. Prefiro não ter uma resposta agora. O fórum começa no dia 15 de novembro e ainda tenho muitas perguntas. As mesas de debates, as trocas de ideias, o contágio de esperanças podem nos iluminar os caminhos.

“Esse desmanche não é novidade, assim como nossa resistência também não será. Todo desmanche de agora será pauta, mas isso não pode desestruturar nossas convicções, nossos caminhos. Temos a esperança de não voltar atrás, de não recuar”.

Geledés – Qual a força dos coletivos na promoção de produções de arte negra? E quais as dificuldades enfrentadas?

Muitas pessoas pensam que alguns grupos, como Os Crespos, do qual faço parte, estão verdadeiramente inseridos na cena cultural paulista. Isso não é verdade. Grupos com maior experiência e grupos novos enfrentam dificuldades muito parecidas; precisamos nos unir e juntar forças, conhecer a realidade de cada um dos grupos e crescermos juntos. Temos buscado saídas para o encontro, alguns grupos fizeram um trabalho duríssimo de abrir caminho, outros tantos grupos enfrentam dificuldades em circular com seus trabalhos, porque os espaços limitam as propostas a uma pequena cota, estamos e temos que estar juntos. Toda organização coletiva é poderosa e temida, temos que saber disso. Alguns lugares falam de novo teatro negro, querem dizer que o teatro que agora completa 15, 20 anos é velho? Não podemos cair nessa armadilha que tentam nos impor. As estéticas se sedimentam com a experiência, nossa cultura ancestral fala de aprender com os mais velhos, com os mais novos e com os não nascidos e também já desencarnados, temos muito a ganhar com nossa união. A consciência de grupo e o trabalho dos diversos coletivos de arte Negra provam essa força de mobilização.

CLARIANAS participará do I Fórum de Performance Negra de São Paulo (Foto: Fernando Solidade)

Geledés – No último dia 7, um decreto presidencial transferiu a Secretaria Especial de Cultura para o Ministério do Turismo. O assunto estará em pauta? De que forma?

Estamos acostumados com a escassez, com as diversas formas de desmobilização. Fazemos arte Negra neste país há séculos: a arte Negra sobrevivente, arte Negra que conversa com a ancestralidade e com a cultura dos escravizadores também. Esse desmanche não é novidade, assim como nossa resistência também não será. Todo desmanche de agora será pauta, mas isso não pode desestruturar nossas convicções, nossos caminhos. Temos a esperança de não voltar atrás, de não recuar. Nos manteremos vivos, lutando pela vida e pela arte.

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