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“Eu faço roupa ativista”

por Kátia Mello

Uma onda de axé tomou conta do primeiro desfile do estilista baiano Isaac Silva na sexta-feira 18, na São Paulo Fashion Week. No encerramento, a plateia aplaudiu em pé, entusiasta, as modelos negras que brilharam na passarela. “O desfile foi um grande ebó para tirar toda a energia negativa e abrir caminhos!”, disse Isaac à coluna Geledés no debate. O estilista distribuiu sal e raminhos de arruda durante a apresentação de sua coleção “Acredite no seu Axé”.

A trajetória de Isaac, que nasceu em Barreiras, no interior da Bahia, é pura inspiração aos jovens negros e negras que querem fazer da moda seu lugar de ativismo e expressão. Há sete anos em São Paulo, ele participou de várias edições da Casa dos Criadores, que destaca jovens estilistas, e abriu sua primeira loja na Vila Buarque- região central da capital paulista, no início deste ano.

Como ele relata aqui, ainda menino se encantou com o barulho das máquinas de uma costureira amiga da família para nunca mais deixar os tecidos e as tesouras.

Crédito: João Bertolini
Crédito: João Bertolini

Geledés – O que o levou a ser etilista e o qual o caminho percorrido?

Desde pequeno frequentei a costureira Morena do bairro onde nasci, em Barreiras. Gostava de ficar ouvindo o barulho das máquinas, de ver o tecido chegar em metros e ser transformado em roupa. Observava como era feita a modelagem. Aos 14 anos fui morar em Salvador. Lá, tive contato com a cultura afro-brasileira e a reafirmação de ser negro.

Aos 17 anos, resolvi que queria mesmo trabalhar com moda. Fiz alguns cursos em Salvador de design e moda e, aos 19, embarquei para São Paulo, cheio de sonhos, com uma lista das marcas que queria contatar. Mas não foi nada fácil. Foi muito chocante. Então, resolvi fazer o curso de tecnólogo de produção de moda no Senai. Tive contato, então, com todo o processo industrial da confecção, inclusive o chão de fábrica. Depois trabalhei com três estilistas com quem aprendi diferentes coisas. Com Gustavo Silveira, aprendi sobre as referências à cultura brasileira; com Geraldo Couto, o vestuário de festas e noivas; e com Eider Silveira, a produção em larga escala, inclusive a fazer pedidos para a China.

Geledés – A moda faz intersecção com ativismo?

A moda não! Mas a moda que escolhi para trabalhar foi a vontade de estar e fazer algo no lugar que eu amo, que é fazer roupa, quando falamos moda é muito amplo … eu neste segmento de moda, faço uma roupa ativista. Fiz várias coleções: Lady Bahia Tropical, Dandaras do Brasil, Xica Manicongo (a primeira travesti não índia do Brasil), Como um Raio de Sol, e Egito, em que desmitifico a imagem de um Egito branco.

“Ser um estilista negro na São Paulo Fashion Week significa levar toda minha ancestralidade, todo o axé das roupas para ser celebrada num grande evento. Nós, pessoas negras, merecemos este lugar.”

Isaac Silva- Casa de Criadores- Verão 2020
Foto: Marcelo Soubhia/ FOTOSITE

Geledés – O que mudou na atitude das marcas em relação ao sexismo e racismo e como é possível avançar?

Não muito nada! Só está mudando um pouco a forma de se comunicar com o cliente final, pois as marcas já sabem que se não se comunicarem com a diversidade, elas vão acabar.

Geledés – O que traz de sua experiência de vida para suas coleções?

Tudo! Todo o axé que carrego em mim. Aos jovens que gostariam de serem estilistas, digo: acredite no seu axé.

Geledés– O que significa ser um dos estilistas negros a apresentar seu trabalho na SP Fashion Week?

Significa levar toda minha ancestralidade, todo o axé das roupas para ser celebrada num grande evento. Nós, pessoas negras, merecemos este lugar.

Geledés – Qual foi sua condução para chegar à coleção “Acredite no seu Axé”? O que e quem lhe inspirou?

A vida me inspira muito o poder querer, fazer e ser! Acreditar em nós, sempre.

“Tento cada vez mais ter um casting diverso. Sempre tenho modelos negras trans nos meus desfiles, o que para mim, é natural.”

Geledés – Como acontece a escolha dos modelos de seu desfile, inclusive a participação de uma travesti negra?

Tento cada vez mais ter um casting diverso. Sempre tenho modelos negras trans nos meus desfiles, o que para mim, é natural.

Geledés– Moda é consumo e vivemos tempos de alerta para o sustentável. Seu trabalho faz essa reflexão?

Sendo uma marca pequena e sustentável isso já diz muito sobre ela: faço peças duráveis e atemporais. Digo sempre que meu maior concorrente são os brechós.

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