Modelos na passarela contra o racismo e pela autoestima dos negros e negras

O projeto Desfile da Beleza Negra resgata a autoestima das pessoas negras e joga luz na questão da saúde mental dos negros e negras do Distrito Federal

“Um sorriso negro, um abraço negro
Traz….felicidade
Negro sem emprego, fica sem sossego
Negro é a raiz da liberdade…”

Assim cantava a sambista Dona Ivone Lara em sua magnífica interpretação de Sorriso Negro, composta pelo trio Jorge Portela, Adilson de Barro e Jair de Carvalho. A música mostra essa oposição entre a beleza negra e a tristeza advinda das marcas inapagáveis da escravidão e das injustiças. Por isso, enfrentar o racismo no dia a dia é um desafio em tempo integral. Fora o preconceito e discriminação, a opressão baseada na raça prejudica o negro em diversos âmbitos da vida, incluindo o social e o mental. Resgatar a autoestima das pessoas pretas é fundamental para que elas tenham um convívio saudável em sociedade. Para isso, enaltecer a beleza herdada do continente africano deve ser um exercício diário. O Desfile da Beleza Negra, iniciativa de Dai Schmidt, 37, em celebração ao Mês da Consciência Negra, reúne modelos na passarela, lugar ainda pouco explorado por pessoas negras mundo afora. O projeto será encerrado amanhã, com o desfile às 20h, na Faculdade Anhanguera do Taguatinga Shopping.

Graduanda em psicologia na instituição, Dai trabalha com moda desde 2007. “Por perceber o preconceito na moda, dominada pelo padrão branco, eu decidi empreender esse projeto ainda em 2012 e já estamos na 17ª edição”, lembra Schmidt. Essa é a primeira edição na qual ela conta com a parceria da faculdade. “O intuito é ampliar o projeto para as questões da saúde mental da população negra, porque o racismo adoece”, explica a idealizadora. São 40 pessoas envolvidas no projeto, entre modelos, maquiadores e psicólogos. Os looks são assinados pela DS Afro e pelo Estilo África, empresas de moda voltadas para a moda afro-brasileira.

“A moda tem o poder transformador de dar autoestima à pessoa negra, porque é representatividade. A pessoa negra vê que tem um semelhante nesse universo no qual geralmente ela não é bem vinda”, assinala. “Quando a moda começa a trabalhar com a diversidade, ela começa a tirar as pessoas oprimidas desse lugar no qual elas não deveriam estar. A moda amplia essa visão das possibilidades, além de inserir essas pessoas em um ramo do mercado de trabalho”, complementa.

Uma das modelos participantes é a Karina Nunes, 25, também estudante de psicologia da Anhanguera. Essa não é a primeira vez que ela trabalha no mundo da moda, e relata que já ouviu comentários desagradáveis acerca da sua aparência, principalmente sobre o cabelo crespo e o nariz. “Com esse trabalho eu tenho gostado mais do meu cabelo, que sempre me preocupou. Inclusive, me desprendi da obrigação de ter um cabelo menos volumoso ou com cachos mais definidos”, conta Karina.

Eliane Santos, 35, ressalta a importância de se reconhecer afro-brasileira e como isso a ajuda no autoconhecimento. “A gente se olhar no espelho e se reconhecer como preto e ver as marcas de tudo que a gente passou é muito difícil, mas tem sido um processo feito com muito amor”, revela a estudante de psicologia. “Mas eu ainda escuto que tenho cabelo ruim ou bombril”, desabafa.

Foi vendo outras meninas negras participando de concursos de beleza que Gabriella Santana, 21, passou a aceitar o próprio cabelo e iniciar o processo de transição capilar. Ela foi vencedora de um desses concursos e passou a ser agenciada, mas conta que ainda atrai olhares estranhos para o seu cabelo crespo e volumoso. “Isso afeta a minha autoestima ao mesmo tempo que me dá forças, porque tem meninas que olham pra mim e falam que sou bonita e que queriam ter o cabelo com o meu. Fico feliz em poder ser uma inspiração para elas”, revela a estudante de técnico em enfermagem.

Aos 19 anos, Felipe Cardoso foi finalista no mesmo concurso no qual Gabriella foi vencedora e também passou a ser agenciado. Ele conta que sempre sofreu muito bullying na infância por conta do cabelo. “Minha mãe sempre mandava raspar”, conta o modelo que hoje ostenta o black power. “Está sendo muito bom servir de referência de beleza negra no Distrito Federal. Eu nunca tive representatividade na família, mas, depois que eu comecei a me aceitar, até minha família mudou. Minha mãe e meus irmãos passaram a aceitar o próprio cabelo do jeito que ele é”, orgulha-se Cardoso.

Saúde

A novidade da 17ª edição do Desfile da Beleza Negra é a atenção voltada para a saúde mental e social da população negra. Docentes participam do projeto fomentando esses debates em sala de aula, promovendo a conscientização cidadã por parte dos futuros profissionais da área. A coordenadora do curso de psicologia da faculdade, Karen Setenta Loiola, conheceu o projeto da Dai Schmidt em 2020, em uma apresentação feita pela aluna em uma disciplina do curso. “Esse projeto é importante para que as pessoas se reconheçam como negras, mesmo que com pele mais clara. Dentro da comunidade negra, há uma diversidade muito grande de traços”, diz a coordenadora.

Karen também destaca o caso específico das mulheres pretas, que geralmente não são vistas como belas ou dignas de serem amadas. “Ela é enxergada de maneira sexualizada e não é mostrada para a sociedade como a parceira em um relacionamento afetivo”, lamenta. “Desde a colonização, o corpo da mulher negra é erotizado de tal maneira que tira a posse do seu próprio ser.”

O professor de psicologia Heron Flores Nogueira, que também participa do projeto, alerta que o racismo faz vítimas desde a infância, o que o torna fator adoecedor em vários âmbitos da vida. “Para o homem negro, soma-se a cobrança de ser o provedor, característica do patriarcado, e muitas vezes esse homem tem baixa escolaridade e está em situação de vulnerabilidade”, aponta. A violência também é um problema sério para o homem negro, mas não apenas a urbana. “Quando você olha diferente para aquela pessoa e a desconsidera como alguém digno, isso também é violento.”

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