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O racismo e o desconhecimento sobre as culturas e espiritualidades dos africanos
Créditos da foto: Ivanir Dos Santos / Arquivo Pessoal

O racismo e o desconhecimento sobre as culturas e espiritualidades dos africanos

O racismo e o desconhecimento sobre as culturas e espiritualidades dos africanos, que aportaram no Brasil na condição de escravos, reforçam todo o preconceito que atua fortemente na sociedade contemporânea”

Por Kátia Mello

Ivanir Dos Santos / Arquivo Pessoal

Carlos Alberto Ivanir Dos Santos, mais conhecido como professor Babalawô Ivanir dos Santos,de 64 anos, teve sua candidatura ao Senado pelo estado do Rio de Janeiro excluída. Com longa trajetória no combate ao racismo, o balalawô é um dos símbolos no Brasil da luta contra a intolerância religiosa. Líderes de diversas religiões, professores e ativistas de Direitos Humanos saíram em defesa de Ivanir dos Santos que é coordenador da Coordenadoria de Religiões Tradicionais Africanas, Afro-brasileiras, Racismo e Intolerância Religiosa (ERARIR/LHER/UFRJ) e interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR). Seus apoiadores entendem sua exclusão política como parte de uma manobra dos partidos DEM e PSDB para calar a voz de um líder das religiões de matizes africanas.

Doutor em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor, entre várias obras, de Intolerância religiosa no Brasil: relatório e balanço,

nesta entrevista à coluna Geledés no Debate, Ivanir dos Santos ressalta a importância do Estado na promoção de políticas que possam combater a intolerância das religiões de matizes africanas.

Geledés- Em que circunstância ocorreu o impedimento de sua candidatura ao Senado pelo PPS e o que pretende fazer em relação à essa medida?

São interesses de grupos e setores poderosos da política conservadora do Rio de Janeiro para proteger uma das candidaturas da chapa. A ideia é a de não criar dificuldades na eleição para o candidato do DEM. Mas também pode ter acontecido por outros motivos, como a possibilidade de não afugentar os votos dos evangélicos. Como resposta, estamos fazendo uma denúncia pública na qual apresentaremos nossa insatisfação. Independentemente de o ‘NÃO’ à candidatura prevalecer, sairemos fortalecidos desse processo, uma vez que ele possibilitou a união, a manifestação de apoio e a solidariedade de vários setores da sociedade civil que se viam representados na possibilidade da minha candidatura ao Senado federal.

Geledés – Houve repúdio em relação ao impedimento de sua candidatura por parte de diversos setores, inclusive de líderes de outras religiões. Como vê essas manifestações de apoio?

Raramente uma liderança do movimento negro recebe apoio tão grande de setores distintos da sociedade civil em um momento como esse. Vejo isso como um reconhecimento dos trabalhos que estamos fazendo há mais de quarenta anos. Somos militantes das causas dos Direitos Humanos, da luta antirracismo e contra a intolerância religiosa. Nossa trajetória de luta é também a promoção das Caminhadas em Defesa da Liberdade Religiosa, ao longo dos últimos onze anos, o que demonstra uma grande força e união inter-religiosa.

Geledés – Certa vez, o senhor afirmou que não basta o Brasil ser um Estado laico. Quais seriam, então, as principais medidas que garantam o Estado laico e ao mesmo tempo combatam a intolerância religiosa?

Precisamos entender que o Estado brasileiro não é laico, porque as pessoas que o administram e compõem esse país não são laicas. Elas carregam suas identidades e experiências religiosas para qualquer lugar. Portanto, não adianta dizer que o Brasil é um Estado laico, se a atitude das pessoas que o compõem é de não manter a neutralidade pela laicidade dos brasileiros. Por outro lado, basta observar como o estado mantém sua relação com os grupos religiosos não cristãos, as ditas religiões “dominantes”, seja nas práticas culturais, sociais e políticas, e como essa relação se inverte quando se trata dos grupos religiosos de minoria representativa. Para ser laico de fato, o estado precisaria garantir o direto das diversidades e da pluralidade que existem na sociedade brasileira. E ainda precisamos lembrar que é dever desse mesmo estado proteger os grupos minoritários que mais precisam de proteção. E não é o que estamos vendo na cidade do Rio de Janeiro, quando, por exemplo, acontece um caso de intolerância patrimonial contra um templo das religiões de matrizes africanas. Tive a oportunidade de pesquisar na minha tese de doutorado a relação do Estado brasileiro com as religiões cristãs e não cristãs e pude observar que Estado e cristãos sempre estiveram de “mãos dadas” na formação social, política e religiosa do Brasil.

“Liberdade religiosa não tem nada a ver com liberdade de expressão dentro do estado democrático de direito. As pessoas são livres para cultuarem de acordo com suas inserções religiosas, mas não para promoverem a intolerância e ódio contra as pessoas que creem diferente de sua fé”.

Geledés – De que forma e por quem essas iniciativas favoráveis ao respeito das afro religiões deveriam ser adotadas?

Deveriam ser adotadas por organizações da própria sociedade civil. O estado precisa abrir um diálogo com a sociedade civil e criar políticas públicas em prol dos seguimentos mais atacados de forma isonômica. Veja, por exemplo, o investimento que o Estado dá para a realização de alguns eventos religiosos cristãos e compare-o à oferta ínfima que “oferece” para a realização da Caminhada em Defesa Liberdade Religiosa. As discrepâncias são gritantes. O investimento em eventos cristãos é infimamente maior do que para eventos inter-religiosos, como a caminhada.

Geledés – Muito se fala sobre o poder da bancada evangélica no Congresso. Ela prejudica a aceitação das religiões afro-brasileiras e se sim, em que medida?

Mais do que prejudicar, essa bancada tem um objetivo claro e não apenas no Congresso, mais também nas prefeituras: promover legislações que possam impedir a prática dos cultos de matrizes africanas. Um maior exemplo é a lei do abate religioso que atinge diretamente as religiões de matrizes africanas. Além dos acordos construídos pela bancada, esses políticos se alinham ao Executivo para obterem espaços estratégicos nas áreas da educação, saúde e assistência social. E a partir daí, promovem retrocessos em todas as nossas agendas sociais. E essa questão é grave e muito perigosa.

Geledés – A que se deve o aumento  nos últimos anos dos ataques aos terreiros de religiões afro-brasileiras e a seus praticantes?

Precisamos compreender que ataques e perseguições contras as religiões de matrizes africanas não são novidades dos pontos de vista social, político e histórico. A novidade está em como esses ataques vêm se reconfigurando de acordo com a lógica dos desenvolvimentos da nossa sociedade aliada à falsa ideia de expressão e posicionamento religioso. Liberdade religiosa não tem nada a ver com liberdade de expressão dentro do estado democrático de direito. As pessoas são livres para cultuarem de acordo com suas inserções religiosas, mas não para promoverem a intolerância e ódio contra as pessoas que crêem diferente de sua fé. Para além de tudo isso, precisamos pontuar que o racismo e o desconhecimento sobre as culturas e espiritualidades dos africanos e africanos, que aportaram no Brasil na condição de escravos, reforçam todo o preconceito que atua fortemente na sociedade contemporânea.

“Precisamos ponderar que o extermínio dos jovens negros é um dos maiores desafios para todo o Estado brasileiro. Temos um problema real que incide também na reeducação dos agentes públicos de segurança, no combate ao racismo e à intolerância religiosa”.

Geledés – Por que as religiões afro-brasileiras recebem diferentes tratamentos por parte de órgãos públicos, como por exemplo, as práticas em penitenciárias permitidas aos católicos e evangélicos, mas negadas aos membros do candomblé?

Primeiro precisamos pontuar que esse tipo de assistência social, que tem por finalidade uma ação proselitista, não faz parte da identidade das religiões de matrizes africanas. As religiões de matrizes africanas não exercem nenhum tipo de proselitimo religioso. Existem grupos que promovem esse tipo de ‘reintegração’ social, mas não de forma prosélica.

Geledés – O senhor se relaciona bem com as igrejas evangélicas tradicionais, mas já colocou ressalvas em relação às neopentecostais. Por quê?

Minhas ressalvas são apenas contras as lideranças religiosas que promovem a intolerância e o desrespeito contra grupos religiosos diferentes. Eu me dou muito bem com várias lideranças evangélicas e, inclusive, muitas dessas estão presentes na Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), lutando em prol do diálogo inter-religioso da tolerância e da equidade.

Geledés – Se sua candidatura se firmar, qual sua plataforma em relação à população negra? O senhor foi aluno da Fundação Nacional do Bem Estar do Menor Funabem, onde cerca de 90% dos jovens  eram negros. Como analisa o aumento da matança de jovens negros em nosso País e como candidato a senador quais seriam suas propostas para esta questão?

Esta é uma questão complexa, pois a solução não é apenas promover recursos destinados à saúde, educação e integração social. Precisamos pensar que o racismo e a ideia do eugenismo atuaram de forma muito incisivas sobre a formação social de nosso país, e um dos anseios do estado era “higienizar” a sociedade brasileira de todos os indesejados. No caso do extermínio dos jovens negros, atualmente, precisamos ponderar que esse é um dos maiores desafios para todo o Estado brasileiro. Temos um problema real que incide também na reeducação dos agentes públicos de segurança no combate ao racismo e à intolerância religiosa.

Intolerância Religiosa no Brasil Relatório e Balanço

 

 

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