sexta-feira, junho 24, 2022
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Novembro Negro trabalha com matrizes africanas no quilombo de Mata Cavalo de Cima

As manifestações culturais brasileiras passam pela cultura trazida pelos africanos. Por esse motivo o processo de construção e valorização da identidade negra é de extrema importância para o patrimônio histórico e cultural brasileiro. Com o intuito de promover a reflexão sobre a ocupação dos espaços pelo homem negro e a mulher negra na sociedade contemporânea e sobre as possibilidades de reversão do quadro de discriminação e exclusão desta população, uma série de atividades será desenvolvida no Quilombo de Mata Cavalo de Cima, localizado no município de Nossa Senhora do Livramento, situado a 50 km de Cuiabá.

Em sua quarta edição, o projeto Novembro Negro, idealizado pelo Instituto Usina em 2005 para festejar a matriz africana, especificamente a comunidade de Mata Cavalo de Cima (siriri quilombola) e o Congo de Livramento, passa a ser executado pelo quilombola Sizenando do Carmo Santos, mais conhecido como mestre Nézinho. O projeto integra a agenda do MT Negro promovido pela Secretaria de Estado de Cultura.

A novidade desta edição é o lançamento da Casa de Memória do Quilombo Mata Cavalo de Cima Nhá Dita, que acontecerá no dia 20 de novembro, ponto culminante das atividades e apresentações. O espaço irá abrigar fotografias bem como objetos antigos que traduzem um pouco da história do povo que habita esse lugar. “A gente faz a festa para comemorar o homem velho que é Zumbi. Aqui no quilombo tudo é simples e verdadeiro, tem que saber entrar, pisar e sair. A gente quer trazer as pessoas para conhecer nossa cultura, nosso modo de viver e conviver. Mostrar a nossa raiz é uma alegria pra gente. A Casa de Memória vai ser muito importante para as pessoas que visitarem o quilombo para conhecerem um pouco da nossa história”, comenta mestre Nézinho.

Segundo a historiadora e coordenadora do Ponto de Cultura Porto das Artes (IPHAN), Lúcia Picanço, o diferencial dessa ação é que a festa e as ações são discutidas com o Mestre Nézinho. “É ele quem decide, é ele quem sabe o que vai fazer no seu quintal. Nós somos colaboradores. E temos muito que aprender. O povo africano ou seus descendentes são portadores de conhecimentos milenares”, afirma. Ainda de acordo com Picanço, toda a contextualização do projeto gira em torno da matriz africana. O intuito dessa ação é estimular e contribuir para a conservação da cultura de raiz tão encolhida ao processo historicamente discriminatório.

Uma série de atividades está prevista para serem realizadas em novembro. A abertura da programação no dia 20 será marcada pelo som do atabaque. Haverá também oficinas de penteado afro, em parceria com o Grupo Tibanaré, que visa valorizar e elevar a auto-estima das pessoas daquela comunidade e oferecer uma atividade que futuramente pode gerar renda. Haverá também oficina de percussão, ministrada pelas acadêmicas de música Estela Ceregatti e Juliane Grisólia, ambas do grupo Urutau. Além disso, também haverá oficina de fotografia, fruto da parceria com o Coletivo Meus Amigos Imaginários e apresentações como capoeira com o grupo Consciência Brasil, formado por alunos do ponto de cultura Porto das Artes, o maracatu com o grupo Batuquenauá, o Congo de Livramento e dois grupos de Siriri da Terceira idade, do distrito de Varginha (Santo Antônio do Leverger) e do município de Cáceres, além do Siriri quilombola. A gastronomia ficará por conta do mestre Nézinho, que fará uma feijoada.

Segundo a coordenadora do Pontão da Viola de Cocho, parceiro do Novembro Negro, Terezinha da Silva, a falta de conhecimento leva as novas gerações a não perpetuar suas tradições, por isso ações desse tipo são importantes para esclarecer aos jovens a importância e beleza de suas raízes, de suas danças, cantos e tradições, que fazem parte do universo cultural do estado e país.

Conforme o secretário de Estado de Cultura, Oscemário Daltro, o MT Negro visa propiciar um grande encontro de grupos, artistas, movimentos e entidades, que tem unido seus elementos para mostrar seus valores culturais e discutir a participação do afro descendente na comunidade. “O projeto pretende contemplar a multiplicidade de culturas em Mato Grosso, pois a cultura negra não é uma coisa única, ela é lembrada em diversas manifestações como parte da grande contribuição dos negros para a cultura nacional”, explica.

Sobre o quilombo de Mata Cavalo de Cima – a comunidade negra rural Mata Cavalo encontra-se localizada, no Estado de Mato Grosso, às margens da BR-MT 060, no município de Nossa Senhora do Livramento, situada a 50 quilômetros da capital, Cuiabá. Mata Cavalo ocupa um espaço geográfico de 11.722 hectares dividido e organizado em seis associações, quais sejam: Mata-cavalo de cima, Ponte da estiva (fazenda Ourinhos), Ventura, Capim Verde, Mutuca e Mata-cavalo de baixo. Essas seis associações formam o complexo Quilombo Boa Vida Mata Cavalo no qual residem cerca de 420 famílias.

A sesmaria de Mata Cavalo de Cima foi constituída de negros africanos e afro-descendentes escravos no início do século 19, que foram trazidos para trabalhar com mineração em municípios próximos (Poconé e Livramento). Em 1883 eles receberam a doação das terras onde vivem da senhora Ana da Silva Tavares.

Vivem do plantio da mandioca, banana, coco de babaçu, do arroz e da cana. Poucos, por enquanto, estão transformando seus produtos artesanalmente para agregar valor fazendo doces, rapaduras e azeites de babaçu e mamona Aos poucos, a comunidade rural de Mata Cavalo de Cima vem provando a possibilidade de transformação cidadã através do reconhecimento de sua cultura.

SERVIÇO:

O que: Novembro Negro
Local: quilombo Mata Cavalo de Cima, sítio Dois Irmãos, na casa do mestre Nézinho
Data: 20 de novembro, sábado
Horário: a partir das 9h
Entrada gratuita

Fonte: Correio da Semana

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