Novos tempos, nova coletividade

Na retomada da normalidade, é urgente a reconstrução do tecido social

Ao receber o diploma que oficializou a vitória nas urnas, o presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ressaltou: “Democracia, por definição, é o governo do povo, por meio da eleição de seus representantes. Mas precisamos ir além dos dicionários. O povo quer mais do que simplesmente eleger seus representantes, o povo quer participação ativa nas decisões de governo“.

É nesse clima de conciliação e de reconstrução pós-fragmentação que o Brasil se prepara para retomar a normalidade democrática em 2023. A aposta é que as novas configurações governamentais iniciadas durante a mais tensa campanha eleitoral da nossa história (como a inédita frente ampla entre partidos tradicionalmente antagônicos) impulsionem também modelos atualizados de participação social, de monitoramento da democracia e, sobretudo, de acompanhamento crítico dos governos.

O fato é que estamos nos reconectando às bases da nossa sólida trajetória democrática das últimas décadas, mas, ao mesmo tempo, experienciando uma nova sociedade fortemente marcada pelos aprendizados recentes. O que vivemos nestes últimos quatro anos pede que atuemos de forma ímpar durante o terceiro mandato de Lula, com características bastante peculiares.

Em primeiro lugar, não podemos ignorar o impacto da pandemia em nossas vidas, que fez emergir da sociedade uma força imensurável, apresentando soluções criativas e potentes, muitas vezes fora do alcance da atuação do governo pela distância dos territórios. As articulações que foram construídas —a despeito dos sinais contrários emitidos pelo governo Jair Bolsonaro (PL)— durante os momentos mais críticos da pandemia certamente serão reconectadas e terão ainda mais êxito quando o diálogo com o poder público voltar a ser prática constante na dinâmica da política brasileira.

Por outro lado, temos (todos nós, cidadãos brasileiros) o enorme desafio de reconstruir o tecido social diante da decepção de parte da sociedade que não se sente representada pelo governo eleito, não se identificando com o campo progressista. A resistência ao diálogo, principalmente após um longo período de “hiperativismo”, iniciado em 2013, e a necessidade de um árduo trabalho para renovar as políticas públicas, depois de quatro anos de pouca transparência, demandam uma sociedade civil organizada com um papel de protagonista, não de espectadora.

Durante os quatro anos do governo Bolsonaro, vivemos um período de ameaças diárias à democracia, aos direitos básicos, o que nos exigiu uma forte e coesa resistência. Agora, voltando ao fluxo natural da vida democrática, com as diferenças mais visíveis, precisamos preservar os valores essenciais. Democracia não é consenso; nela, é fundamental que saibamos lidar com os conflitos. É importante entender quais pontos e pautas comuns permitem um caminho de construção compartilhado, mesmo sem concordância na totalidade. Nesse contexto, colocam-se como um dos grandes desafios os diálogos com públicos estratégicos e tão heterogêneos como as juventudes e os evangélicos.

Há 16 anos, a Fundação Tide Setubal atua no enfrentamento das desigualdades socioespaciais, e a premissa de que o território importa norteia o nosso trabalho. Neste momento tão emblemático da nossa história recente, é fundamental que tenhamos condições de construir uma nova forma de diálogo e participação com a presença dos territórios.

As periferias são espaços de concretização das desigualdades de oportunidades, mas são mais que isso: são palco da construção política no cotidiano, de onde emergem as lideranças sociais e as soluções.

É hora de apagarmos as fronteiras e permitirmos trocas reais de construção e participação que nos façam trilhar um caminho para a redução das desigualdades e que nos leve a um país efetivamente mais justo.

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