O amor com o sol da manhã

Queria a paixão como algo cotidiano, que olhássemos o outro como parceria, complemento evolutivo, facilidade, leveza e naturalidade

FONTEO Globo, por Ana Paula Lisboa
A escritora e ativista Ana Paula Lisboa (Foto: Ana Branco / Agência O Globo)

Eu gosto do amor, eu gosto de amar. Inclusive, já escrevi muito sobre o amor nestas páginas, algumas vezes de forma explícita, outras vezes de formas que só eu sabia do tema. Mas achei que o dia de hoje era imperdível. Um Dia dos Namorados no meio da semana pode restaurar tudo e todos.

Eu, particularmente, amo esta data, mesmo que não esteja namorando — o que não é o caso deste ano. Gosto de olhar as fotos de casais, de ler as declarações de amor, os desejos para o futuro.

Amar deveria ser tão simples quanto parece no dia de hoje, para tudo e para todos. Mas, quando ampliamos a lupa do amor, é fácil ver que ele não parece ser para qualquer um.

Longe de me intrometer em lugar de especialista, mas sinto que estamos numa crise de relacionamentos. Especialmente porque as mulheres saíram (finalmente!) do lugar de suportar as relações, de fazer durar e ser para sempre, de fazer de tudo.

Uma das (poucas) vantagens do capitalismo e da loucura da produtividade foi que as mulheres precisaram fazer escolhas e, com isso, escolheram não colocar os homens e os relacionamentos como o centro de suas vidas. A onda do “detox de homens” tem servido para que olhemos mais para nós mesmas.

Eu sou adepta do caminho do meio. Acho os extremos perigosos e escorregadios, já estive lá. Mas sempre achei anormal que os homens fossem socializados para focar na carreira e neles mesmos e, as mulheres, no cuidado das necessidades com o outro.

Não faz muito tempo, nas novelas da TV, personagens mulheres focadas nelas mesmas, melhores alunas na faculdade, bem-sucedidas na carreira, ambiciosas, com falas diretas, sem filhos, eram as vilãs. Em algum momento da trama, ficava subentendido que elas faziam tudo isso por terem o coração partido — ou seja, falta de homem. Outra possibilidade era se dedicarem a elas mesmas e aos estudos por serem feias — ou seja, nenhum homem quis.

Para os homens, o amor é um assunto para depois. Para as mulheres, um assunto de todos os momentos. Para eles, as mulheres seriam uma distração das metas. Para elas, os homens seriam a própria meta.

Eu fico feliz de, talvez, minha geração ser a última com este desejo. Eu vejo muitas meninas pensando diferente. E meninos também, apesar de em menor número.

Eu queria mesmo era que o amor fosse algo da vida cotidiana, não uma luta ou uma conquista homérica. Queria que olhássemos o outro como parceria, complemento evolutivo, facilidade, leveza e naturalidade.

O amor é como o sol da manhã. Já reparou que a vida fica muito mais bonita com ele? Dá uma vontade de fazer as coisas, mesmo os trabalhos mais tediosos. Dá vontade de se levantar da cama, comer um misto-quente e uma tigela de iogurte com frutas e granola. Depois, dá até energia de sair para caminhar. Aí você volta, toma um banho e envia um áudio de cinco minutos pra sua amiga e pergunta se ela já viu o Sol hoje.

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