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O beijo gay ou o beijo da terceira idade: o que nos incomodou mais?

O beijo gay ou o beijo da terceira idade: o que nos incomodou mais?

O que realmente chocou grande parte da população, principalmente homens, com o quente beijo na boca das personagens de Fernanda Montenegro e Nathália Timberg na nova novela das nove Babilônia, da TV Globo?

A cena do folhetim foi o assunto mais comentado das redes sociais e da mídia em geral no Brasil no dia seguinte à sua exibição.

O que me chamou a atenção em mais uma polêmica envolvendo a exibição de demonstrações de afeto por parte de pessoas do mesmo sexo foi, dessa vez, o grau de agressividade nos comentários. Bem maior do que os dos beijos lésbicos de suas antecessoras. Nem mesmo o prestígio das atrizes, duas grandes damas das artes cênicas, as livrou de exclamações como “nojo”, “credo”, “agora o mundo acabou”.

Afinal, o que tem de tão diferente entre o beijo de Teresa e Estela e o das personagens de Luciana Vendramini e Gisele Tigre na novela Amor e Revolução, do SBT, considerado o primeiro beijo entre lésbicas? Ou o quase beijo de Aline Morais e Paula Picarelli no folhetim global Mulheres Apaixonadas? E o até então último beijo gay exibido em horário nobre, de Tainá Muller e Giovanna Antonelli?

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A cena que levou exatamente 15 segundos (incluindo o abraço final) trazia um dos maiores preconceitos da nossa atualidade: o prazer na velhice. A diferença desse preconceito para os outros é que ele já está institucionalizado no dia a dia até de pessoas que aceitam os outros temas.

Avançamos em muitos setores, conseguimos reconhecer juridicamente as relações homoafetivas (apesar da ainda resistência por parte de grupos conservadores), os deveres para com os afrodescendentes (também ainda falta muito a fazer), mas não demos nenhum passo em relação a um preconceito que cresce na esteira do culto exagerado ao conceito comercial de beleza.

Aos belos, tudo é permitido. Ou pelo menos nos excita. À carne envelhecida resta ficar em casa, a base de chás. Temos dificuldade em imaginar, e aceitar, que pessoas que passaram dos 50 anos possam ter sensualidade, beleza e uma vida sexual ativa. O que dizer de duas senhoras com mais de 80 anos.

E isso vale principalmente para as mulheres, já que para os homens, pelo menos os heterosexuais, ainda vale a cultura dos casamentos com mulheres bem mais novas – mesmo que rotulada como “golpe do baú”.

Como se não bastasse, a idade limite para o “prazer” imposta pela grande massa vem sendo reduzida gradativamente, apesar da crescente evolução da medicina, que alongou a expectativa não só de vida, mas de vida saudável e sexualmente ativa, da população. E leia-se prazer não só o sexo, mas qualquer comportamento que expresse liberdade com o corpo que não seja maternal, como vestir uma saia curta, ir para praia de biquini ou, pior ainda, fazer topless. Constatamos essa realidade durante os eventos organizados pelo Toplessinrio. Recentemente, vimos um massacre de ofensas ao biquini da atriz Betty Faria nas redes sociais.

Se colocar biquini não é permitido para alguém de mais de 70 anos, o que dizer de um “beijo na boca entre duas velhas”. O que as pessoas não sabem é que, com ou sem televisão, no escuro do quarto, atualmente pessoas acima de 70 anos tem uma vida mais ativa e prazeirosa do que há 40 anos, segundo estudo sueco com 1,5 mil pessoas da terceira idade (fonte: documentário Sexo e Amor na Terceira Idade). Com a cabeça mais madura, conhecimento e aceitação maior do corpo, especialistas acreditam que o sexo na terceira idade pode ser ainda melhor do que entre jovens inseguros. Mesmo que em frequência menor.

Uma novela como Babilônia pode atingir mais de 2 milhões de espectadores por capítulo. Esperamos que os beijos de duas das maiores atrizes do Brasil repercutam e tragam um novo olhar para essa realidade.

Até porque eu espero continuar beijando por muitos e muitos anos, homens ou mulheres, não importa.

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