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O Candomblé na música Brasileira

O Candomblé, a macumba e o estereótipo

por Roberto Rutigliano Do Afreaka

É normal no Brasil, por desinformação ou difusão de informações estereotipadas, muita gente associar o Candomblé com bruxaria ou com oportunistas que prometem milagres em troca de dinheiro. Ou ainda confundirem a cultura negra com superstição ou ideias maléficas. No entanto, esta religião conectada ao universo africano é fruto de uma forte ancestralidade que a qualifica como um conjunto de ideias, mitos, música, dança, roupas e oferendas que existem desde os primórdios da humanidade, merecendo reconhecimento e respeito por sua história e tradição.

Na realidade, o Candomblé se trata de uma serie de cultos e rituais provenientes de diferentes regiões da África que se reuniram na América (Haiti, Cuba, EUA, Brasil) como algo único, fruto do isolamento provocado pela processo de escravidão. As influências do Candomblé no Brasil, no entanto, vão além do domínio religioso e social, atingindo uma das mais fortes tradições culturais brasileiras: a música.

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As cerimônias, sempre animadas, prezam por uma minuciosa formação instrumental que é composta por uma série de instrumentos, como o agogô. (Foto – Divulgação)

A música no Candomblé pode ser apreciada como um meio para se relacionar com as divindades. Sendo considerada uma linguagem privilegiada no diálogo dos Orixás, em que o toque pode ser entendido como um chamado ou uma prece. Não se trata de um entretenimento ou expressão estética, mas um fenômeno que vincula o músico (chamado de Ogã) com o mundo transcendente.

As cerimônias, sempre animadas, prezam por uma minuciosa formação instrumental que é composta por uma série de instrumentos: o agogô (de uma boca ou duas) chamado Gã, o Xequerê, chamado de Abê, e três atabaques de diferentes tamanhos. Os músicos no Candomblé recebem o nome de Ogâ, o músico mais experiente, chamado de Ogã Alabê, toca o Run, o tambor maior, que é o tambor solista que comanda todo o grupo musical; e mais dois  Ogãs, que tocam o rumpi e o lê, dois tambores menores.

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Nascido em Buenos Aires e naturalizado brasileiro, Carybé foi um pintor reconhecido por trabalhos voltados para a cultura afro-brasileira, retratando seus ritos e orixás

São utilizados ainda outros instrumentos que, mesmo não fazendo parte da “orquestra”, têm funções específicas, como o caso do Adjá, um sino varia entre uma a sete bocas (campânulas), cuja principal atribuição é provocar o transe quando agitado sobre a cabeça daqueles que recebem o santo.

Ao contrário do que temos na cultura ocidental, onde os sons graves não ficam na frente, no Candomblé os graves assumem o papel de protagonista. As frases tocadas pelo Run (tambor solista) não são improvisos, mas estão em consonância com os movimentos do Orixá que recebem as pessoas. Assim, com seus ritmos característicos, cada Orixá expressa suas particularidades seja na linguagem musical quanto na gestual.

A educação dos novos Ogãs se dá como em outros grupos sociais, como os ciganos, por exemplo. O aprendizado tem início ainda infância e de maneira natural, o que estreita os laços entre o aprendiz e o conhecimento. Nei de Oxóssi e seu pai, seu Erenilton, da Casa de Oxumarê, na Bahia, considerado hoje um dos maiores Ogãs do Brasil, são demonstrações práticas de como a riqueza de uma cultura pode ser transmitida de geração em geração.

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Nos terreiros de candomblé, os três atabaques utilizados são chamados de rum, rumpi e le. (Foto – Wikipedia) 

Nei conta que o pai o ensinou desde criança com grande rigor, sem permissão para erros de toque ou cantiga. A rigidez, no entanto, é essencial na metodologia do aprendizado do Ogã uma vez que o fraseado do solista deve dialogar com o gestual do santo incorporado em uma pessoa, exigindo que o músico conheça detalhadamente todas as “coreografias” e os diálogos que se estabelecem entre música e movimento. A formação assim se transforma não apenas em ensinamentos mas também em uma espécie de biblioteca transmitida de geração em geração de modo oral.

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O Xequerê também é parte importante da cerimônia. (Foto – Wikipédia)

Influência nos ritmos brasileiros

Respeitada nos quatro cantos do mundo, a música brasileira recebeu fortes vibrações, diretas e indiretas, do Candomblé, que influenciou desde grupos musicais contemporâneos até manifestações culturais tradicionais que articulam música e dança. No Recife, por exemplo, a maioria dos que participam dos grupos musicais como os brincantes de Maracatu e Cavalo Marinho, estilos afro-brasileiros, praticam o Candomblé. O mesmo acontece com membros de grupos de Jongo, Folia de Rei, Bumba Meu Boi, ritmos africanos que não se relacionam diretamente com o Candomblé, mas pela presença destas pessoas em terreiros, acabam se misturando por meio de fraseados e interpretações.

Também temos a herança direta na nossa música, que pode ser percebida em frases geradas pelo agogô no ritmo Cabula, antecedentes diretos do tamborim, presente no Samba de Roda da Bahia e do Rio de Janeiro. Temos ainda os toques do ritmo Iilú, base da caixa da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira. Outro ritmo fundamental da música feita no Brasil é o Afoxé, produto 100% nacional, que uniu terreiros de diferentes etnias, como o Ketu, Angola e Jeje, e que foi incorporado à MPB por compositores como Gilberto Gil, Caetano Veloso e João Donato.

Uma das grandes homenagens prestadas ao Candomblé por membros da MPB é o disco Afro-sambas, fruto de parceria entre o violonista Baden Powell e o poeta Vinicuis de Moraes, músico que sempre se apresentou como o “o branco mais preto do Brasil”. O álbum, sucesso de crítica, condensou em canções como Canto de Ossanha e Lamento de Exú, todos os principais elementos do Candomblé. Clara Nunes, Pixinguinha, Dorival Caymmi e Maria Bethânia são outros bambas da música que cantaram os ritmos da religião.

Seja na música ou no culto aos Orixás, o Candomblé se caracteriza pela complexidade, entre os inúmeros ritmos que fazem parte deste universo. Nesse contexto, vale destacar ainda o ritmo Alujá, não incorporado à música popular brasileira, mas que com seu swing provoca todo um movimento interpretativo na dicção das semicolcheias, base de todos os ritmos brasileiros e cubanos, que quando interpretadas com este outro sentimento provocam uma espécie de superposição que permite uma pronúncia muito mais swingada.

A influência do Candomblé ultrapassa as fronteira nacionais. No mundo existem diversos músicos, como Chucho Valdés, que misturam elementos do Candomblé de Cuba com o jazz, consolidando uma espécie de afro-jazz. No Brasil ainda não temos tantos exemplos dessa mistura, contudo não se pode deixar de mencionar a Rumpi Less orquestra, que também se inspira nos ritmos da religião.

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O Candomblé se faz presente também no Jongo. (Foto – Wikipédia)

A riqueza do Candomblé repousa na variedade da suas fontes. Na realidade, é uma junção de culturas vindas de varias partes da Africa, também nas suas manifestações ocorridas na América , nas culturas brasileira, cubana e argentina , por exemplo e na multiplicidade da suas formações intrumentais  que formam um verdadeiro  arsenal tímbrico e musical que nos prova a riqueza deste imenso tesouro.

Para manter viva essa identidade cultural do Brasil é preciso aumentar o incentivo do estudo e valorização da tradição, os equiparando a quaisquer outros movimentos históricos ensinados e dinfundidos nas escolas e universidades brasileiras.

 

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