“O currículo é um dos caminhos pelos quais a escola pode cumprir um papel em relação à desigualdade”

A especialista em currículo Cláudia Valentina Assumpção Galian discute diferentes concepções de currículo, os elementos que o influenciam e as relações entre eles e os fundamentos da educação integral

Por João Marinho e Vanessa Nicolav, para Educação e Participação

O que é currículo para a educação, afinal? O que se deve abordar num momento em que, graças à discussão em torno da Base Nacional Comum Curricular (BNC), o tema volta com força? É preciso garantir espaço para escolhas por parte da escola e dos professores? Qual a importância do território, do tempo e da comunidade para uma proposta curricular, na perspectiva do desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens?

A especialista em currículo e docente da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP) Cláudia Valentina Assumpção Galian discute essas e outras questões na entrevista em vídeo exclusiva à plataforma Educação&Participação.

A pesquisadora também estará presente no debate virtual Currículo e educação integral, que acontece no próximo dia 3 de maio, às 10h, com transmissão ao vivo aqui mesmo, na plataforma, na companhia de Maria Cristina Garavelo, coordenadora do Programa Cidade Escola de Porto Alegre (RS). A entrevista dá insumos e faz provocações para os temas que serão abordados no debate.

Assista à entrevista completa, ou navegue mais abaixo pelos trechos do vídeo, de acordo com blocos temáticos:

O que é currículo

Cláudia Galian inicia a entrevista abordando as diferentes concepções de currículo, desde as que pressupõem uma listagem de conteúdos até a defendida por ela mesma: “currículo vai muito além do que a escola deve ensinar”, ou seja, não se limita à proposta de um documento formal. Definir a qual concepção o educador se reporta é essencial para o debate e para um currículo real. Confira no primeiro bloco da entrevista:

O cidadão que queremos

Partindo de uma concepção mais ampla de currículo, para Cláudia Galian, é necessário discutir que tipo de cidadão se quer formar antes de debater o conteúdo a ser ensinado/aprendido.

Currículo é escolha, sustenta a especialista, e essa escolha determina os conhecimentos escolares que serão abordados. Saiba mais no segundo e no terceiro bloco da entrevista:

Currículo, relações de poder e hierarquia das disciplinas

A definição de uma proposta curricular é essencialmente o espelho das relações de poder existentes na sociedade: não apenas entre diferentes estratos sociais, mas também entre as concepções existentes no interior de cada disciplina e mesmo entre as próprias disciplinas, o que impacta não só a proposta curricular em si, mas também a maneira como será implementada na escola.

Nesse processo, algumas vozes têm mais força e expressão, enquanto outras são silenciadas ou mesmo distorcidas. No entanto, ao passo que as relações de poder mudam com o tempo, o currículo é, por definição, temporário – e as vozes que não apareceram em uma proposta continuam pressionando para serem ouvidas. A importância dessas relações de poder é o tema dos três blocos seguintes da entrevista:

Currículo, território e comunidade

Faz parte do papel do professor – e da própria escola – considerar quem é o aluno com o qual ele se relaciona. Isso, para Cláudia Galian, significa que uma proposta curricular deve não apenas dar espaço para que a escola e o professor possam fazer escolhas, mas também levar em consideração o território e a comunidade em que o aluno se insere. Saiba mais no bloco:

O potencial das parcerias

“A escola precisa ser apoiada nas suas escolhas”, diz a especialista. Para Galian, ainda que seja importante manter a centralidade da escola quando se discute o currículo, a parceria da escola pública com outras instituições e organizações guarda inúmeras potencialidades. Confira no bloco:

Currículo e desigualdades sociais

Para Galian, é impossível cobrar da escola a resolução de todas as desigualdades sociais: não apenas a escola já está inserida em uma sociedade desigual, como há desigualdades que extrapolam a escola.

No entanto, “a escola pode muita coisa”, e o currículo “é um dos caminhos pelos quais podemos tentar fazer com que a escola cumpra um papel em relação a essa desigualdade”.

Além disso, a proposta rompe com “aquela ideia pobre de meritocracia”: a de que, “se o aluno se esforçar, ele pode tudo na escola”, sem levar em consideração os pontos de chegada diferentes com que adentram a escola. Veja no penúltimo bloco da entrevista:

Ampliação e requalificação dos tempos

Em uma realidade de tempos acelerados e excessivamente recortados, a ampliação da jornada é um dos elementos que propiciam melhor aplicação de uma proposta curricular, segundo a especialista. Veja por quê no último bloco:

A entrevistada

Cláudia Valentina Assumpção Galian é graduada em Biologia com mestrado e doutorado em Educação: História, Política, Sociedade pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Especialista em currículo com pós-doutorado pelo Institute of Education da University of London, atualmente é docente na graduação e pós-graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FE-USP). Além do currículo, seus estudos concentram-se também nos temas do conhecimento escolar e ensino de Ciências.

Foto e Vídeo: Vanessa Nicolav

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