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Ó, dia, ó, azar…

Ó, dia, ó, azar…

Vou pro inferno! Talvez lá a vida seja menos ameaçadora e mais humana do que a que vivemos como cariocas

Por Zélia Duncan Do O Globo

Quando chego de algum trabalho, seja num hotel ou em casa, depois ou durante o jantar ou o lanche, ligo a TV. Os shows ocupam muito mais tempo do que a hora e meia do palco. Avião, trânsito, entrevista, camarim, maquiagem, pós-apresentação, isso tudo precisa estar no pacote do dia e da noite, na hora de planejar. Mas virou uma coisa muito traumatizante constatar que nessas horas de trabalho, as notícias se reviram, contorcem, multiplicam em mais roubos, denúncias, desgraças e desmandos.

Esta semana foi especialmente estarrecedora. A primeira imagem que saltou na tela foi a de uma câmera muito bem posicionada, captando políticos safados (sempre eles) literalmente enchendo os bolsos com maços grossos e sujos de dinheiro em espécie, ajeitando a bolada em caixa de papelão, bolso furado, na verdade é papelão pra todo lado. Propinas deslavadas, tudo nosso como sempre, roubado cinicamente inclusive por quem filmou, apenas para se defender. Raramente lembramos que o sujeito filma para ter uma arma de defesa, pois ele é tão implicado e sórdido quanto o meliante que abarrota os próprios bolsos, que, pequenos para tanta avidez, cospem algumas notas que caem no chão e são catadas às pressas, entre piadas de mau gosto e a falta total de vergonha na cara. O registro só é usado no caso de o patético videomaker estar em apuros. Quantas e quantas filmagens ainda devem existir, algumas ficando até obsoletas, diante de novas brechas e maneiras de se apropriar da dignidade do Brasil. E ainda me preocupa muito o fato de estarmos, de certa forma, nos acostumando com essas cenas. Agora, quando falam no chefe de quadrilha do Rio, Sérgio Cabral, a imagem é sempre aquela dele algemado. Pra mim ele já nasceu assim, presidiário. Coisa mais horrível. E os tais que dominam o transporte aqui no Rio? Quase tudo solto de novo… pode, Arnaldo? É um tal de prende-libera, prende-libera, que me sinto mareada, num mar de lama, que não para de bater. Por falar nisso, Mariana não verá os culpados de todo o desastre. Foi soterrado também o resultado justo, que puniria minimamente as mineradoras que provocaram mortes e desaparecimento de toda uma comunidade.

Mineradoras lembram outro desastre, Michel Fora Temer. Patenteando de uma vez por todas o seu descaso absoluto com o que não lhe pertence. Tudo nele parece estar deslocado de legitimidade, num grau que nunca chega ao seu limite. Arreganhando uma área da Amazônia onde caberia a Dinamarca inteira para saciar os desejos vorazes da mineração (olha ela aí!), esse senhor rejeitado por um país inteiro escava sem piedade nossos nervos já tão abalados. Ser ou não ser? Não é, nunca foi. Mas enquanto houver uma árvore de pé, uma tribo que resista, um rio de onde pule um peixe, políticos e empresários estarão na pista para negócios. Obviamente para negociar o que não lhes pertence, como de costume. Quando já estamos nos sentindo tão perdedores, tão sem chão firme pra pisar. Fico pensando que realmente ele não está interessado, nem um pingo, em ficar na História com alguma pequena glória que seja. Nem a vaidade, armadilha demoníaca tão conhecida, serve de freio para suas atitudes. Ele bem podia pensar, “O.k., dei um golpe, mas vou fazer aqui uma coisa boa que ninguém espera”. Não, ele só faz piorar os absurdos, e agora deu pra sair com respostinhas prontas e ocas, do tipo, “recebo quem quiser, onde eu quiser!”. Na na não, ai, ai, ai, Michel, você nos deve satisfações sim. Embora já surrada, não está nada resolvida a discussão entre o que é público e o que é privado. Abrir as pernas da floresta por decreto, abrir mão de proteger o que não é nem seu? Já voltou atrás? Mas não teve pudor de tentar. Estão nos escavando até o osso. Haverá limite? 2018? Gravações, encontros fora da agenda e da hora comercial desejável, políticos dando passinhos apressados, sobrecarregados de malas com meio milhão e sabe-se lá quanto mais, nada disso foi suficiente, nenhum desses absurdos significou o basta de que tanto precisamos. Nem aqui, nem na China!

Aqui no Rio o prefeito batalha pra aumentar o IPTU, claro, tirar de onde pra salvar o caos? Das igrejas que não pagam impostos? Que pecado pensar e ainda falar nisso, hein? Vou pro inferno! E talvez lá a vida seja menos ameaçadora, menos extorsiva, menos desanimadora, menos fundamentalista e mais humana do que a que andamos vivendo como cariocas.

Por falar em cariocas tristes… perdemos seu Wilson das Neves, ô, gente, me invadiu um silêncio nos olhos, saber que não vamos mais nos esbarrar. A última vez foi no Quintal do Zeca Pagodinho. Abraço, sorriso e ele mandava seu prefixo da sorte… ô, Das Neves, como já faz falta sua sorte por aqui!

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