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O Encontro das Águas

por Kátia Mello

Quem já teve a oportunidade de assistir, seja presencialmente ou até pela televisão, o Encontro das Águas, na Amazônia, sabe do encantamento e da força de quando o Rio Negro se une ao Rio Solimões para formar o imenso Rio Amazonas. São rios distintos: o Negro, com suas águas mais escuras (devido ao pH mais alto e mais alta temperatura), e o Solimões, com suas águas mais barrentas e uma velocidade menor. Correm juntos e, em alguns trechos, formam potentes redemoinhos que torna o fenômeno ainda mais encantador. O Geledés – Instituto da Mulher Negra também tem seu Encontro das Águas. Duas de suas grandes líderes, que se tornaram ícones no país da luta contra o racismo e o sexismo, a filósofa e educadora Sueli Carneiro e a advogada Sônia Nascimento, na mesma noite, na quinta-feira 22, foram premiadas em palcos diferentes.

A coluna Geledés no debate faz nessa semana sua homenagem a elas.

Foto: Natália Sena

No auditório do Ibirapuera, em São Paulo, Sueli Carneiro recebeu o prêmio Trip Transformadores 2018, que em sua 12ª. edição teve como temática “Conviver é possível?”. Em um momento turbulento em que se discute no país os rumos do ativismo, Sueli se confirmou como uma das mais importantes vozes intelectuais da indignação e uma das maiores líderes negras que o Brasil já produziu em todos os tempos. Em um vídeo produzido pela revista Trip, suas palavras ecoaram no auditório lotado por atentos observadores. Novamente recordou que se antes era uma moça indignada, hoje se sente feliz pelo caminho percorrido.

Duas gigantes feministas e ativistas contra o racismo, Sueli Carneiro e Sônia Nascimento, são premiadas na mesma noite

Sueli relembrou ainda a primeira palestra que ouviu da ativista negra Leila Gonzáles (1935-1996), que se tornou sua inspiradora. Sueli dispensa maiores apresentações e basta frisar que qualquer política pública relevante de enfrentamento ao racismo no país, como o Estatuto Racial ou a Lei das cotas, teve sua contribuição. Autora de inúmeros artigos nacionais e internacionais, agora sua tese “A construção do outro como não-ser como fundamento do ser”, que lhe deu o título de doutora em Educação pela USP, em 2005, será alvo de estudos, em leitura sob o comando das jornalistas Bianca Santana e Juliana Gonzalves, no dia 28 de novembro.

Foto: Natália Sena

Na mesma noite em que Sueli era premiada, há alguns quilômetros dali, no Palácio Tangará, no Morumbi, Sônia foi surpreendida ao chamarem-na ao palco como a vencedora na categoria Sociedade Civil do Prêmio Viva, uma iniciativa do Instituto Avon em parceria com a revista Marie Claire. Como acontece nessas ocasiões, deu a tremedeira em Sônia que mesmo após anos de apresentações em público, não conseguiu conter a emoção. Em seu discurso de agradecimento, Sônia recordou, entre outras ações, como foi levar para a instituição o Projeto de Promotoras Legais (PPLs), hoje um dos mais importantes programas do Geledés.

Sueli Carneiro e Sônia Nascimento Foto: Natalia Senna

O primeiro encontro dessas duas gigantes ativistas se deu durante a ditadura militar, no ano de 1972, quando ambas passaram em concurso e foram trabalhar juntas na Secretaria da Fazenda. Sônia, aos 22 anos, sempre gostou de música e já frequentava o clube dos negros. Sueli, aos 21 anos, devido à influência de seus pais, era uma garota politizada e inconformada com as discriminações. Entre idas e vindas na amizade, inclusive a presença de Sônia no casamento de Sueli em que as memórias da festa até hoje rendem boas risadas, um momento foi crucial na vida das duas: a criação do Geledés. Quando chegou a hora de Sueli fundar a instituição, não teve dúvidas e chamou a amiga advogada para desempenhar um importantíssimo papel, com o surgimento do SOS Racismo.

Imagem: Trip Transformadores e Prêmio Viva
FOTOS: MARIANA PEKIN
FOTOS: MARIANA PEKIN
FOTOS: MARIANA PEKIN

E no final da semana, na tarde chuvosa deste domingo em São Paulo, as duas puderem comemorar com o prêmio mais divertido entre os inúmeros recebidos por Sueli: uma cerveja que leva o seu nome, criada pela Confraria de Goose Island Sisterhood. A cerveja Sueli, como não poderia deixar de ser, é forte e densa, com aromas frutados e cítricos, com a presença de lúpulos africanos. Tim-Tim a essas mulheres maravilhosas!!!

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