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O fardo do homem branco

O fardo do homem branco

O presidente francês Emmanuel Macron, cuja popularidade manifesta já sinais de desgaste, encontra-se agora no epicentro de uma embaraçosa polémica, após ter proferido declarações controversas sobre a situação africana, no âmbito de uma conferência de imprensa na Cimeira do G20, que decorreu entre os dias 7 e 8 de Julho, em Hamburgo, na Alemanha.

Por Eurídice Monteiro Do Expresso das Ilhas

No referido encontro das vinte maiores economias do mundo, quando questionado por um jornalista da Costa do Marfim sobre a possibilidade da implementação de um programa efectivo em África, semelhante ao Plano Marshall que havia sido aplicado no contexto europeu, Macron não se limitou a afirmar que os problemas enfrentados pelo continente africano são, de acordo com as suas palavras, de natureza civilizacional.

Será muito fácil perceber o desconforto que tais declarações suscitaram, desconforto esse manifestado não só entre os europeus ou africanos, mas um pouco por todo o mundo. Não se trata apenas de uma gafe quanto ao politicamente correcto ou não; mais do que isso, poderá corresponder à exposição involuntária da estrutura da mentalidade reinante no seio de uma certa classe política ocidental.

De modo ainda mais contundente, o presidente francês assegurou que, «quando num país, as mulheres ainda têm sete a oito filhos, podemos decidir gastar biliões de euros, mas não vamos conseguir estabilizar nada.»

O acento tónico, para Emmanuel Macron, reside nos sete a oito filhos por mulher, curiosamente um dado estatístico desactualizado. Pelo que se sabe, em África, a taxa de fecundidade média situa-se agora nos quatro filhos por mulher, existindo um ou outro país africano com indicadores parecidos com os revelados pelo presidente francês. Ainda que seja fácil de apontar para o fraco controlo da natalidade no continente africano, não parece ser esse o calcanhar de Aquiles do subdesenvolvimento africano.

Todavia, foi assim, nestes termos peremptórios, que Emmanuel Macron garantiu que o grande entrave ao desenvolvimento africano se deve, no seu entender, à elevada taxa de natalidade, desproporcional às condições propiciadas pelo continente.

Estas declarações suscitaram escândalo tanto pelo que explicitaram como pelo que ocultaram. Se as declarações políticas nunca são neutras, serão ainda menos quando pronunciadas por um político, filósofo e exbancário. Neste caso, sendo conhecedor do sistema de pensamento moderno quanto à classificação dos povos do mundo, das civilizações e das relações de poder imperialistas, neocolonialistas e capitalistas, certamente Macron não desconhece também as relações promovidas, por exemplo, pelo sistema bancário francês em relação aos países africanos que foram colónias francesas.

Tratando-se de um filósofo que entende bem de cifrões, certamente que saberá fazer contas melhor do que deixa fazer crer. Aliás, as suas declarações constituem-se num aviso à navegação africana, pois indiciam que as suas  políticas neoliberais poderão ser ainda mais nefastas para as antigas colónias do que já se pressupunha. Ao pretender proteger os interesses do seu país, a sua musa, saberá como reforçar os laços de dependência e dominação económica da África francófona, ainda sob forte influência da França.

É provavelmente por isso que as suas declarações políticas provocaram revolta e uma grande indignação junto da opinião pública pelo mundo fora. Circulam críticas a Emmanuel Macron por manifestar preocupações com os índices de natalidade no contexto africano, o que, na prática, oculta o efeito devastador e de longa duração das corporações multinacionais estrangeiras, nomeadamente as francesas. Estas, com a cumplicidade de elites africanas corruptas, continuam a expropriar o continente africano dos seus recursos naturais, condicionando de forma decisiva as futuras gerações.

As críticas às suas declarações apontam em sentido contrário, realçando que o alegado problema demográfico não parece ser propriamente a causa, mas a consequência do subdesenvolvimento a que o continente foi sendo submetido ao longo destes mais de cinco séculos de relações imperiais da Europa em relação à África. Nesta via, retoma-se as asserções sobre a forma «como a Europa subdesenvolveu a África», de Walter Rodney.

Esse posicionamento, de natureza nitidamente política, do ainda jovem presidente francês suscitou críticas também quanto ao seu viés marcadamente racista em relação a África. Curiosamente, tal racismo corriqueiro pode ser equiparado ao nível do condenável sexismo de que o mesmo vem sendo alvo em função da sua idade relativamente à da mulher.

A imanência desse racismo mais não é do que a outra face invisível do sexismo reinante no sistema mundo moderno. O pressuposto racista declina para uma atitude também sexista por atribuir implicitamente à mulher africana a responsabilidade pelo subdesenvolvimento do continente. Estará Macron a insinuar que é um fardo, para o seu reinado, esses tais sete a oito filhos por mulher, em África?

A controvérsia que a declaração de Emmanuel Macron gerou fez recordar o discurso do antigo presidente francês, Nicolas Sarkozy, em Maio de 2007, em Dakar. Na altura, embora tendo reconhecido os crimes do processo colonial e do tráfico negreiro, Nicolas Sarkozy exaltou os supostos benefícios da colonização – escolas, hospitais, estradas – enquadrados na missão civilizadora da Europa em África. Exorcizava assim qualquer culpa europeia nos males endémicos de África. Para Sarkozy, não é a colonização a responsável por guerras civis, genocídios, fanatismo ou corrupção em África. O auge da sua narrativa estava na sumária declaração política de que «o Africano não entrou suficientemente na história.»

Essa ideia reelaborada pelo então presidente Sarkozy encontrará certa inspiração na filosofia hegeliana e na sua argumentação quanto à inexistência de temporalidade histórica em África. De Sarkozy até Macron, será identificável uma herança ideológica eurocêntrica de tradição racialista. É por isso escandaloso o discurso de Macron sobre uma conotativa natureza sexual das mulheres de África, de que resultaria a ausência de planeamento da natalidade.

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