O novo está acontecendo, apesar da política velha

O início foi na cidade de São Paulo, com o Plano Diretor acabando com espaços fechados, obrigando os novos prédios a terem comunicação com a calçada, procurando juntar várias classes sociais em uma mesma região. Depois, com a invasão das bicicletas, com a abertura da Paulista para músicos, vendedores alternativos.

Por , do GGN

Algumas ruas laterais ganharam espaços de madeira, nos quais os transeuntes podem sentar-se, com uma mesa no meio para poder até trabalhar com seus notes, se necessário.

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O conceito de “apropriar-se da cidade” tornou-se vitorioso.

Antes, a cidade era apenas dos automóveis. Havia poucos espaços de convivência.

Durante algum tempo, eu tinha o hábito de ir até a Paulista com a Augusta para comer milho assado, vendido em um carrinho. O vendedor foi expulso por alguma norma municipal. Na praça Buenos Aires com a rua Sergipe, o carrinho da água de côco era parada obrigatória para bate-papos. Fui expulso por outra norma municipal.

Essas normas eram tidas como políticas disciplinadoras do espaço urbano, quando não passavam de práticas higienistas, desumanizadoras.

O mérito maior da atividade política é a capacidade de assimilar e de implementar o novo. Mas a política convencional não consegue. O novo passou debaixo do nariz burocrático de José Serra e de engenheiro de Gilberto Kassab, e ambos não se deram conta.

Quando Haddad deu início às novas práticas, durante um curto espaço de tempo o cidadão reclamou, por não entender. Em tempo surpreendentemente curto, no entanto, aceitou o novo como se tivesse sido sempre óbvio.

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É essa falta de compreensão sobre o novo, e falta de ousadia de implementar novos paradigmas, que explica a crise política atual.

O país atravessa uma efervescência inédita, similar a registrada nos anos 50, com os primeiros influxos de internacionalização da classe média, ou nos anos 80, com os primeiros vagidos da nova sociedade civil.

A liberalização da sociedade civil, a internacionalização da classe média, a inclusão das classes populares, o embricamento de todas elas na nova cultura digital, liberaram uma energia monumental, que se manifesta em vários pontos do corpo social, como células saneadores, mas ainda vistas isoladamente.

Na cultura da classe média, um movimento vasto de jovens músicos desenvolvendo-se em todos os estilos, do choro ao jazz, com um grau de informação musical inédito. Nas periferias um furacão em forma de poesia, hip hop, funk.

Para a juventude, o empreendedorismo deixou de ser matéria de oba-oba das seções de jornais. A cultura digital criou não apenas uma nova geração de empreendedores, ousando em aplicativos, como de jovens praticando trabalho colaborativo em rede.

A complexidade e diversificação da economia abriram um sem-número de novas possibilidades de negócios, que estão sendo testadas pelos futuros campeões nacionais.

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No plano nacional e estadual, o que se vê no entanto é o velho tentando enquadrar o novo em fórmulas antigas e desgastadas.

Nesse ponto, governo Dilma e oposição se irmanam: nenhum dos dois conseguiu enxergar o novo. A crise de representatividade explode nessa tentativa infrutífera de tentar enquadrar um furacão dentro de uma caixa fechada.

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