Criado em 1991 com o propósito de registrar e disseminar reflexões e conhecimentos do movimento de mulheres negras, os Cadernos Geledés se tornaram um marco no uso da comunicação para o enfrentamento ao racismo e ao sexismo. Foram cinco volumes, tendo sido a última publicação em 1995. Em 2026, após um hiato de três décadas, a iniciativa foi retomada.
No evento de lançamento das novas edições, que ocorreu em 14 de maio, Sueli Carneiro, coordenadora de Memória e Reparação, afirmou: “depois de 31 anos, essa série está de volta. E volta porque a memória de Geledés é método e ferramenta de leitura crítica do presente”.
Intitulado “Fortalecendo as Raízes Democráticas da América Latina”, o sexto caderno apresenta reflexões decorrentes da viagem de representantes da Casa Sueli Carneiro à Colômbia e ao Chile em 2022, um importante momento político para os dois países.
“No Chile, acontecia a posse do presidente eleito Gabriel Boric, e, na Colômbia, iniciava-se a campanha vitoriosa do segundo turno que levou Francia Márquez a ser a primeira mulher negra a ocupar a vice-presidência daquele país”, diz o texto.
Já o sétimo Caderno é nomeado de “Saberes Quilombolas” e reúne falas de um encontro realizado em 2022 e que discutiu as contribuições políticas e epistemológicas das mulheres quilombolas para a luta antirracista. O evento contou com as convidadas Mariléa de Almeida, Givânia Maria da Silva e Selma Dealdina.
Abre caminhos: as primeiras publicações
Em 1991, sob o tema “Mulher negra e Saúde”, era publicado o primeiro volume dos Cadernos Geledés. “Como um primeiro filho muito desejado, ele foi idealizado e gestado com afeto e fantasia; é fruto de um sonho coletivo que se tornou realidade. É a primeira publicação editada no Brasil dedicada inteiramente às questões de saúde da mulher negra”, escreveram as editoras.
A publicação tratou de apresentar a linha do Programa de Saúde e sistematizar o entendimento da organização acerca do que deveria ser um programa de saúde voltado para as mulheres negras. Os capítulos são: “A saúde da mulher negra no Brasil”, “O ovo e a galinha”, “A construção da cumplicidade: grupos de autoajuda e oficinas de saúde”, “Rompendo a conspiração do silêncio”, “AIDS: História, Cara e Sexo” e “28 de Setembro: Repensando o Ventre Livre”.
No mesmo ano veio o segundo Caderno: “Esterilização: impunidade ou regulamentação?”. Os textos trataram de uma questão alarmante naquele período: os altos índices de laqueaduras no país. Pontuam-se ainda as diferentes visões acerca do problema e da proposta de regulamentação da prática. Conforme aponta a edição, entre as causas para esse cenário estão “os interesses internacionais de países do Primeiro Mundo em reduzir a população dos países pobres do Terceiro Mundo, países de população de maioria negra ou não-branca”.
O volume seguinte recebe o título de “Não à Pena de Morte” e relata um debate realizado com o advogado norte-americano Bryan Stevenson, conhecido pela defesa dos presos condenados à morte nos Estados do Alabama e Geórgia, sul dos EUA.
“Com este Caderno pretendemos sensibilizar a comunidade negra, em particular, e a sociedade em geral para outras questões que estão presentes no debate sobre a implantação da Pena de Morte, para além do fato de sua inconstitucionalidade, posto que viola o primeiro dos direitos fundamentais do ser humano, que é o direito à vida”, lê-se.
A publicação divulga ainda o lançamento do Serviço de Assessoria Jurídica em Casos de Discriminação Racial – SOS Racismo, programa de Geledés que foi destinado a apoiar e representar vítimas de denúncias de discriminação racial.
Em 1993 é lançado o Caderno “Mulher Negra”, com três textos escritos por Sueli Carneiro. Num deles, “O Poder Feminino no Culto aos Orixás”, a filósofa aborda os modelos femininos presentes na mitologia iorubá e seu potencial de inspiração para as mulheres enfrentarem seus problemas.
Dois anos depois ocorre o lançamento de “A mulher negra na década a busca da autonomia”, em que as intelectuais Fátima Oliveira, Matilde Ribeiro e Nilza Iraci traçam uma análise acerca da situação das mulheres negras em diferentes esferas, como forma de contribuição para a IV Conferência Mundial sobre a Mulher, que seria realizada em setembro de 1995, na cidade de Pequim, na China.
Como os Cadernos Geledés foram pensados?
Nilza Iraci, coordenadora de Formação, Cuidado e Emancipação, além de ser comunicadora social com especialização pela Universidade Nacional de Brasília, participou ativamente da feitura dos Cadernos. Em entrevista ao Portal Geledés, relembrou o propósito da criação da iniciativa: “os Cadernos foram pensados como ferramenta de produção de saber, educação política e intervenção estratégica para influenciar políticas públicas e práticas institucionais, consolidando a voz e a agenda das mulheres negras no espaço público”.
Segundo a ativista, os textos tinham o objetivo de incidir nos debates sobre temas que dialogavam com a atuação da organização, como é o caso da inserção da temática racial nas conferências da ONU. A escolha dos temas era feita de acordo com prioridades políticas, considerando as pesquisas e ações realizadas pelos programas da instituição. A partir disso, pesquisadoras e militantes produziam artigos, reflexões e relatos para compor a publicação.
“Foi um instrumento de comunicação política: transformavam a experiência acumulada pela organização em conhecimento publicado, fortalecendo tanto a formação interna quanto a divulgação das pautas do movimento de mulheres negras para um público mais amplo”, destaca Nilza.
Para a diretora, a publicação pode ser considerada um marco na comunicação das organizações de mulheres negras no Brasil, por ser um dos primeiros veículos produzidos por uma organização do movimento negro feminista com a divulgação de reflexões e propostas sobre as desigualdades de gênero e raça.
“Eles deram visibilidade às experiências e às pautas das mulheres negras, que historicamente eram pouco representadas tanto na mídia tradicional quanto em parte dos movimentos feminista e negro, e contribuíram para a formação política, a circulação de conhecimento e o fortalecimento das redes de ativismo entre mulheres negras”, afirma.
Pontua ainda que os Cadernos colaboraram com a consolidação da identidade de Geledés como referência na defesa dos direitos das mulheres negras e no combate ao racismo e ao sexismo.
Os novos Cadernos
A volta atende ao propósito de fortalecimento da memória institucional da organização. “Os Cadernos registram vozes que precisam ser ouvidas e oferecem ao público instrumentos para compreender realidades que raramente aparecem de forma aprofundada na produção editorial brasileira”, pontua Iradj Eghrari, consultor internacional e responsável pela redação dos novos periódicos.
Ele explica que, além da transcrição de falas e reflexões, desenvolveu um conjunto de notas de rodapé que cumprem um papel pedagógico e de contextualização. De modo que o leitor acompanhe plenamente as narrativas propostas.
“No caso do Caderno 6, dedicado às experiências da Casa Sueli Carneiro na Colômbia e no Chile, um dos principais desafios foi tornar acessível ao público brasileiro uma realidade pouco conhecida. Quem participa de uma visita internacional vai compreendendo o contexto à medida que conversa com as pessoas, conhece os territórios e recebe explicações ao longo da experiência. Já quem lê uma transcrição não dispõe desse contexto”, pontua.
“O Caderno 7 também nasceu da degravação de um encontro realizado em Geledés em 2022, reunindo três mulheres quilombolas. Durante o processo de edição, fui percebendo que aquelas falas representavam muito mais do que relatos individuais. Elas expressavam um extraordinário compartilhamento de conhecimentos acumulados ao longo de gerações pelas comunidades quilombolas, saberes que permanecem pouco conhecidos por grande parte da sociedade brasileira”, diz.
Iradj afirma ainda que as próximas edições – desenvolvidas pelo Centro de Documentação e Memória Institucional de Geledés, sob a direção de Sueli Carneiro – devem continuar com o propósito de registrar e compartilhar experiências, reflexões e conhecimentos produzidos por Geledés e por intelectuais, ativistas e lideranças comprometidas com a promoção da igualdade racial.