O pastor Feliciano e a fragilidade da política rastaquera do Brasil

O catolicismo oficial também compartilha com os evangélicos que o homossexualismo ‘não é natural’. Portanto, não se trata de ‘eu não gosto nem de gays, nem de negros e pronto, está encerrada a questão’. Não, não está: não para o presidente de uma comissão de direitos humanos. E não, também, para a sociedade.

As pressões contra o deputado Marco Feliciano que hoje ocupa, de forma não muito cômoda, a cadeira de presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, talvez tenha o fim que todos esperam: ou que ele mesmo não espera. O desinteresse pela Comissão por parte de parte da opinião pública brasileira certamente se seguirá à sua permanência imposta, por acordo político, na chefia da Comissão. Se até a Anistia Internacional não o aceita – vai-se a autoridade da Comissão para o que quer que seja. E tudo se resumiria, em suma, a uma opinião: a do pastor. Mas ele não está só. O catolicismo oficial – tirante a questão racial – também compartilha com os evangélicos que o homossexualismo “não é natural”. Portanto, não se trata de “eu não gosto nem de gays, nem de negros e pronto, está encerrada a questão”. Não, não está: não para o presidente de uma comissão de direitos humanos. Mas não, também, para a sociedade.

O compositor e músico Tomzé sugeriu, na TV Cultura, que o pastor Feliciano seria um homossexual enrustido. Se não foi uma piada, não se imagina por outro lado de que não tenha sido uma ofensa. Isso foi sugerido da mesma forma sobre o deputado Jair Bolsonaro, o que, nem de longe, aponta para uma solução do problema. Digamos que ambos os políticos o fossem e que mentissem sobre sua condição: haveria como se aceitar que qualquer dos dois ocupasse a chefia de uma instância que se diz defensora dos direitos humanos, vale dizer, explicitamente, a favor dos direitos de todos os homens, incluindo-se, de forma especial justamente, as minorias, quaisquer minorias? E que deste modo, tudo estaria resolvido? As pessoas de bem, sabem qual a resposta. 

A coisa, de qualquer maneira, só tem a ver com os direitos humanos, rigorosamente ignorados pelos deputados, que escolheram o pastor Feliciano. O pintor Goya y Lucientes , no longínquo século XIX, com uma gravura, mostrou toda a complexidade do que, na época, respondia, também, como racional e que seria o direito de todos os homens de terem os mesmos direitos, fossem quais fossem. Goya sugere e batiza seu trabalho como sendo “O sono da razão (que) produz monstros”. A obra dá o que pensar: um homem se debruça sobre uma escrivaninha, teoricamente dormindo, enquanto, sobre ele, esvoaçam e o assistem, desde morcegos e corujas (símbolos da sabedoria, mas também da noite), até um gato – signo da rapacidade agourenta. Há, porém, quem não veja tudo como um pesadelo. A razão ensejaria, enquanto adormecida, que as coisas se fizessem realmente como um mau sonho. Na razão adormecida, sobreviriam os pesadelos do obscurantismo e da fantasmagoria mistificadora. Adormecer não seria, em suma, uma prerrogativa que se concedesse à razão.

Foi o que sucedeu na Câmara. O acordo político subtraiu da razão a única coisa que a justificava – a convicção de que ela seria gerida com isenção, – virtude que falta ao pastor por suas convicções tanto racistas quanto religiosas. Ou seja, o que vedaria a participação de um padre católico na comissão foi acrescida pelo que o pastor carrega de racismo. Qual das duas é pior? Ambas representam exatamente tudo de contraditório com os direitos humanos no nosso século; e que se poderia imaginar, quem sabe, na cabeça do homem adormecido de Goya.

No entanto, o pastor Marco Feliciano está lá. E como existem acordos políticos, eis que a própria Câmara balança. Dizer que o político se sobrepôs aos direitos humanos é apenas uma conclusão, não uma solução – com o perdão da rima. E aí entra uma questão, que não pode ser dissociada das contradições da nossa sociedade.

O poeta alemão oitocentista, Friederich Heine, num de seus artigos políticos, surpreende esses confrontos que já eram os de sua época. Ao tentar a gênese da revolução francesa – com as diferentes visões do povo, da aristocracia e do clero, Heine anotou que o processo nunca foi unívoco, numa só direção, para qualquer parte. Cada classe ou categoria defendia o seu quinhão com convicções sempre sujeitas a altos e baixos. E que mudavam conforme as circunstâncias.

Igualmente, quando se fala em direitos humanos no Brasil, julgamos que toda a sociedade os aceite na forma mais democrática possível, quando isso nem sempre é verdade. Não bastasse a nossa tradição judaico-cristã a condenar o homossexualismo, haveria sempre a questão que nós, brasileiros, não aceitamos sequer discutir, que é o racismo. Não parecem ser os cabelos crespos do deputado Feliciano, que não denota nenhuma origem ariana de seu sangue, que irá demovê-lo de condenar os negros. Ficar-se-ia, assim, na mesma questão do homossexualismo. A possível origem negra do deputado não é suficiente para que ele não pense como uma boa parte da opinião pública, antes inclusive que seus seguidores – os quais, a seu turno, não se imagina terem posições muito diferentes das do pastor; nem que se justifiquem, eles próprios, por seus cabelos louros e seus intensos olhos azuis. Compreende-se, em suma, boa parte da discussão: ela propõe (ou não), que os direitos humanos sejam discutíveis (ou não). E então a gravura de Goya se elucida: ela tanto pode denotar que o sonho da razão seja um cochilo histórico – desses que começam com um golpe não sangrento, uma quartelada, como foi em 64. E que se transforme numa das ditaduras mais sanguinários, que o Brasil teve depois da sua independência. Ou, então, que seja da própria razão histórica que ela, a razão, esteja adormecida para muitos. 

Chega a ser engraçado que tanto o deputado quanto seus defensores – como o indefectível Bolsonaro – se prendam mais à indicação política do que à razão de ser da Comissão. Enquanto a questão for posta nesses limites da saia justa da política partidária e rastaquera do Brasil, nada feito, o deputado Marco Feliciano não se julgará na obrigação da abdicar. O seu partido e a política partidária o garantem – e não a razão da existência de uma comissão de direitos humanos. 

O mais, é o País: ou aceitamos nossas diferenças, ou mais a nossa democracia será uma peça de ficção. E não se diga, por favor, que a arte de um Goya, ou que a poesia não são coisas sérias. Elas simulam situações que só o futuro e a história real irão explicar.

 

Fonte: Agência Brasil

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