Começo minha coluna de março saudando os companheiros que fazem jornalismo sério no O Joio e o Trigo, pelo editorial corajoso, generoso e importante para o momento que vivemos. No texto, eles se posicionam e defendem que veículos de comunicação sejam transparentes com seus leitores sobre o que pensam. Em tempos como os nossos, essa honestidade intelectual é mais necessária do que nunca.
Quis, como pessoa física que atua em movimentos e constrói espaços coletivos, fazer o mesmo. Este é um primeiro exercício. Este ano não tem jeito, nada vai mudar, construindo espaços democráticos de políticas para as pessoas. Em ano de eleição, com ameaças à democracia, a gente pede voto e faz campanha.
A política está em toda parte. Está nas redes sociais, nas decisões de governo, nas disputas sobre orçamento público e nas políticas públicas que são desmontadas ou reconstruídas. Está também nos territórios onde a crise climática já deixou de ser previsão científica para se tornar experiência cotidiana. E isso é notícia diária, seja nas chuvas, no calor extremo ou em outros eventos críticos que vivemos como comuns todos os dias.
Esses dias, precisei escrever um minicurrículo para uma atividade e, ao terminar, eu pensei: “Que grande”. Quanta coisa andou e quantas outras voltaram à estaca zero. Nesse percurso, algo ficou cada vez mais evidente para mim: a crise climática não é apenas um problema ambiental. É também, como tenho me dedicado a explicar, uma crise de desigualdades sociais.
No Brasil, eventos extremos vêm se tornando cada vez mais frequentes. Mas seus impactos seguem um padrão muito conhecido. Quando as chuvas chegam com força, não atingem todos da mesma forma. No último mês de fevereiro, chuvas intensas caíram sobre Minas Gerais, de novo. Municípios enfrentaram enchentes e deslizamentos que deixaram mortos e centenas de pessoas desalojadas, casas foram destruídas e famílias precisaram abandonar tudo o que tinham em poucas horas.
Essas tragédias não são apenas resultado do clima. Elas também são resultado de decisões políticas acumuladas ao longo de décadas – o que costumamos chamar de desastres políticos.
No Brasil, quem vive nas áreas mais vulneráveis aos desastres políticos são, majoritariamente, populações negras e de baixa renda. São famílias que foram empurradas historicamente para territórios de risco pela combinação de racismo estrutural, desigualdade urbana e ausência de políticas públicas. Há muito tempo, movimentos sociais nomeiam esse processo como racismo ambiental.
Mas políticas climáticas são, antes de tudo, escolhas sobre o tipo de sociedade que queremos construir. Elas determinam quem terá acesso à proteção, a recursos e a oportunidades na transição para uma economia de baixo carbono. Por isso, separar o clima de democracia nunca fez sentido para mim.
Nos últimos anos, o Brasil também nos ensinou algo que talvez muitos de nós preferíssemos não ter aprendido. Direitos podem desaparecer rapidamente quando projetos autoritários chegam ao poder, políticas públicas podem ser desmontadas em poucos anos, instituições podem ser enfraquecidas de dentro para fora.
A defesa da democracia, portanto, deixou de ser um debate abstrato. Ela passou a ser condição básica para que possamos discutir qualquer agenda de futuro, inclusive a agenda climática.
Nos próximos meses, o Brasil enfrentará mais um processo de eleições nacionais. As eleições são, justamente, o momento em que a sociedade precisa disputar nossos horizontes de país e sociedade. A pergunta agora é: diante da crise climática, das desigualdades estruturais e das ameaças recorrentes à democracia brasileira, em qual lugar devemos construir esses horizontes?
Duvido muito de quem defende neutralidade, porque, surpresa: ela não existe!
Quem defenderemos e qual será nosso papel em 2026, com o mundo desmoronando e o país tentando sobreviver?
Mariana Belmont – Jornalista e assessora de Clima e Racismo Ambiental de Geledés – Instituto da Mulher Negra, faz parte do conselho da Nuestra América Verde e da Rede por Adaptação Antirracista. E organizadora do livro “Racismo Ambiental e Emergências Climáticas no Brasil” (Oralituras, 2023).