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O que significa ‘ser de esquerda’?
Créditos da foto: Reprodução/Brasil247

O que significa ‘ser de esquerda’?

O posicionamento discursivo e político dito ‘esquerda’ foi estabelecido no transcorrer do processo histórico que culminou na Revolução Francesa (1789).

Por José Marcus De Castro Mattos Do Brasil247

Foto: Reprodução/Brasil247

 

Neste período a classe social constituída pelos burgueses (primeiros industriais, grandes comerciantes, banqueiros, profissionais liberais abastados e intelectuais militantes, em geral residentes nos principais centros urbanos franceses da época) combatia duramente os poderes institucionalizados geridos via de regra pela aristocracia e pelo clero.

Para fortalecer tal combate os burgueses procuravam contar com o apoio dos pequenos proprietários de terras, dos camponeses, dos trabalhadores assalariados e dos artesãos, os quais foram pejorativamente cognominados (pelos ideólogos da aristocracia) de ‘sans-culottes’, ou seja, aqueles que não vestiam os calções-justos (‘culottes’) que compunham os trajes da nobreza, substituindo-os por calças compridas de algodão ao estilo das utilizadas pelos burgueses (às calças compridas somavam-se o ‘carmagnole’ [casaco curto], o ‘gorro vermelho da liberdade’ e os ‘sabots’ [tamancos de madeira]).

(Especificamente denominava-se de ‘sans-culottes’ àqueles que lideravam as manifestações realizadas nas ruas de Paris contra a aristocracia e o clero.)

A Assembleia Nacional Constituinte de 09 de Julho de 1789 promulgou uma Carta Magna que favorecia o Terceiro Estado (composto sobretudo por representantes dos burgueses, dos camponeses e dos artesãos) e que limitava os poderes do rei (Luís XVI), além de neutralizar os privilégios econômicos e políticos do Primeiro Estado (composto por representantes do clero) e do Segundo Estado (composto por representantes da aristocracia).

Um evento social de grande importância simbólica transcorreu em 14 de Julho de 1789, qual seja, aquele que ficou conhecido como Queda da Bastilha: a fortaleza medieval que servia de masmorra para os prisioneiros políticos da aristocracia e do clero foi invadida, ocupada e incendiada pelos revolucionários.

Dentre as principais medidas tomadas pela Assembleia Nacional Constituinte (Estados Gerais, 09 de Julho de 1789) estão as seguintes:

I) Substituição da Monarquia Absolutista pela Monarquia Constitucional, ou seja, o governo do rei passa a estar submetido aos princípios estabelecidos pela Carta Magna.

II) Instaura-se a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, a qual demarca as seguintes garantias: a) igualdade de todos os cidadãos perante a Carta Magna, b) fim do ‘privilégio de nascimento’ atribuído à aristocracia e c) direito à propriedade individual de bens e serviços.

Ora, a população francesa ao final do Século XVIII era de vinte e quatro milhões de pessoas (a maior da Europa) e sua distribuição entre os ‘três estados’ era a seguinte:

A) Constituindo o Primeiro Estado, o clero contava com aproximadamente cento e vinte mil indivíduos.

B) Constituindo o Segundo Estado, a aristocracia e/ou nobreza (incluindo o rei, a corte situada em Paris, a aristocracia provincial e por aqueles que haviam comprado seus ‘títulos de nobreza’) contava com aproximadamente trezentos e sessenta mil indivíduos.

C) Constituindo o Terceiro Estado, os primeiros industriais, os grandes comerciantes, os banqueiros, os profissionais liberais abastados, os intelectuais militantes (em geral residentes nos principais centros urbanos franceses da época), aliados aos pequenos proprietários de terras, aos camponeses, aos trabalhadores assalariados e aos artesãos (em suma, aos ‘sans-culottes’), pois bem, tais segmentos sociais contavam com aproximadamente vinte e três milhões de indivíduos (80% por cento deles eram camponeses, ou seja, mais de dezoito milhões de indivíduos).

Neste contexto, no interior da Assembleia Nacional Constituinte (Estados Gerais, 09 de Julho de 1789) os chamados ‘girondinos’ representavam os interesses da alta-burguesia (composta por grandes industriais, banqueiros e comerciantes), enquanto que os ‘jacobinos’ representavam os interesses da média-burguesia (profissionais liberais), da pequena-burguesia (pequenos comerciantes e artesãos) e dos camponeses.

Ora, exercendo inicialmente o comando do governo pós a instituição da Monarquia Constitucional, os girondinos propunham posicionamentos políticos moderados e conciliatórios com a aristocracia e o clero, temerosos que os jacobinos tomassem em mãos o desenvolvimento do processo revolucionário e subvertessem a ordem social até então vigente.

De sua parte, os jacobinos propunham posicionamentos políticos mais avançados e não-conciliatórios vis-à-vis a aristocracia e o clero, preparando e acionando sempre que possível a insurreição popular.

Com efeito, no anfiteatro em que se realizavam as tumultuadas reuniões dos Estados Gerais (Primeiro, Segundo e Terceiro), os girondinos sentavam-se ‘à direita’ e os jacobinos ‘à esquerda’, delimitando-se assim campos discursivos e políticos opostos: os ‘direitistas’ representavam os interesses do ‘status quo’, quais sejam, naquele momento, moderação e conciliação com a aristocracia e o clero, enquanto que os ‘esquerdistas’ representavam os interesses do ‘povo’, capaz, como tal, de subverter por completo o ordenamento institucional e social vigentes, colocando a França para além da Monarquia Constitucional e livrando-a da miséria que assolava há anos a maioria de sua população.

Assim, as expressões ‘ser de direita’ e ‘ser de esquerda’ originam-se diretamente dos posicionamentos espaciais ocupados pelos girondinos e pelos jacobinos no interior do anfiteatro no qual transcorriam as reuniões dos Estados Gerais, convocados para o exercício da Assembleia Nacional Constituinte (09 de Julho de 1789).

Todavia, em termos conceituais estas expressões passaram a denotar campos discursivos e políticos diametralmente opostos, a saber, ‘ser de direita’ significará desde então ‘ser um conservador do status quo’ (defensor e mantenedor dos interesses ‘da minoria, da elite’) e ‘ser de esquerda’ tornar-se-á um posicionamento ‘revolucionário do status quo’ (defensor e propugnador dos interesses ‘da maioria, do povo’).

Posicionados portanto à esquerda no anfiteatro dos Estados Gerais (reunidos no âmbito da Assembleia Nacional Constituinte a partir de 09 de Julho de 1789), os jacobinos propunham as seguintes medidas econômicas e políticas: a) extinção da monarquia, b) neutralização dos privilégios da aristocracia e do clero, c) educação pública para todos os cidadãos, d) auxílio público para os desempregados, e) controle de preços dos produtos de primeira necessidade e f) abolição da escravidão nas colônias francesas.

Em termos políticos diretos os jacobinos lideraram o processo revolucionário sobretudo entre os anos 1792/\94, período no qual muitos girondinos e monarquistas foram guilhotinados (inclusive Luis XVI, morto na Praça da Revolução em 21 de Janeiro de 1793).

O líder dos jacobinos era o brilhante advogado e deputado MAXIMILIEN ROBESPIERRE (1758 – 1794), grande orador cujas ideias foram inspiradas pelo filósofo JEAN-JACQUES ROUSSEAU (1712 – 1778).

O objetivo central de Robespierre era o de conquistar a superação da Monarquia Constitucional e transformar a França em um Estado Republicano pautado pelos princípios ‘Liberté, Egalité, Fraternité’ (Liberdade, Igualdade, Fraternidade), os quais conformariam a simbologia ideal da própria Revolução Francesa e também de vários outros movimentos revolucionários ao redor do mundo nos séculos seguintes.

Admirado pela maioria do povo francês a ponto de ser chamado de ‘O Incorruptível’, em 1794 Robespierre tornou-se Presidente da Assembleia Nacional Constituinte e em 27 de Julho é traído, ferido a tiros por seus inimigos girondinos e preso; sem ter sido julgado por nenhum tribunal, em 28 de Julho é executado na guilhotina juntamente com seus fiéis partidários LOUIS DE SAINT-JUST (1767 – 1794) e GEORGES COUTHON (1755 – 1794) – no ano anterior ocorrera o assassinato do também famoso jacobino JEAN-PAUL MARAT (1743 – 1793) –.

Em seguida ao assassinato de suas principais lideranças, as ações políticas dos jacobinos são perseguidas e proibidas em território francês, confluindo para a dissolução da organização ‘esquerdista’ em 1799.

Os girondinos – brutais assassinos de Robespierre, Saint-Just, Couthon e Marat (entre outros) – retomam o comando do processo revolucionário, implementando aos poucos o ideário econômico e político da alta-burguesia e preparando o terreno para a subida ao poder do militar NAPOLEÃO BONAPARTE (1769 – 1821).

Em síntese, os fundamentos históricos e conceituais da expressão ‘ser de esquerda’ situam-se na Revolução Francesa (1789) e dizem diretamente respeito à posição espacial ‘à esquerda’ que os jacobinos – sob a liderança de Robespierre – ocupavam no anfiteatro da Assembleia Nacional Constituinte (Estados Gerais, 09 de Julho de 1789).

Enquanto conceito, com o transcorrer dos anos tal expressão passou a significar o posicionamento discursivo e político de cidadãos e de associações devotadas à defesa e à implementação dos interesses do ‘povo’ e/ou das ‘classes exploradas/\dominadas’, de modo a revolucionar o ‘status quo burguês/\capitalista’, superando-o e implantando o ‘socialismo’ e/ou o ‘comunismo’.

Nós, esquerdistas, somos pois herdeiros de uma tradição política que remonta aos jacobinos liderados por Robespierre nos intensos e decisivos cinco primeiros anos da Revolução Francesa (1789 – 1794), os quais abriram caminho para a instauração definitiva do Estado Republicano e para a inserção do conceito de ‘cidadania laica e democrática’ nos povos europeus.

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