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O Racismo Lingüistico do Brasil

Que o Brasil é um país entranhadamente racista é coisa sabida e consabida. As estatísticas estão aí, como se fosse necessário o positivismo dos dados para confirmar: embora os não-brancos representem hoje metade da população, somente 14% deles têm curso superior; só 13,1% têm assento no Congresso Nacional, ao mesmo tempo em que constituem 70% da população analfabeta. Se isso não é racismo, sr. Ali Kamel, então me diga o que é. Impregnado nas mais diversas esferas sociais, poucas pessoas, no entanto, se dão conta de que também existe um racismo profundo na história lingüística do Brasil.

Por Marcos Bagno

Logo após a Independência, nossa ínfima elite intelectual se divertiu com o debate sobre o estabelecimento de uma norma-padrão para o português brasileiro. De um lado, os defensores da “língua brasileira” sustentavam a autonomia do nosso português com relação ao falado na Europa e lutavam pelo reconhecimento das características idiomáticas da nossa fala urbana como legítimas, inclusive para o uso na literatura. Do outro, os que recusavam essas características e defendiam a observância rígida das normas gramaticais do português lusitano. Liberais ou conservadores, porém, todos lutavam contra um mesmo fantasma: o português brasileiro falado pela imensa maioria da população, composta de negros e mestiços, e que trazia (e traz) as marcas dos processos de contato lingüístico entre o português e as diferentes línguas africanas aqui chegadas junto com os escravos.

É claro que, numa sociedade desde sempre oligárquica e autoritária como a nossa, venceu o projeto conservador, que acabou por instituir, como norma para o português brasileiro, um padrão inspirado nos usos literários de um punhado de escritores lusitanos do século XIX. O objetivo desse projeto, evidentemente, não era só lingüístico: era também distanciar o máximo possível a elite branca do “populacho” mestiço. Nossas classes dominantes sempre tiveram absoluto horror a tudo o que fosse genuinamente nosso, nativo, autóctone. Ora, elas jamais aceitariam como sua a língua que Araripe Jr., em 1888, chamava de “o falar atravessado dos africanos”. Para fugir disso, estabeleceram como padrão de “língua certa” um modelo importado que se afastava, ao mesmo tempo, do português popular brasileiro e das variedades urbanas da própria elite branca e letrada. Negação do outro, negação de si, alienação total e absoluta, esquizofrenia perfeita.

Essa é a origem do abismo largo e fundo que separa, até hoje, a língua que os brasileiros falam (e escrevem) – inclusive os altamente letrados com vivência urbana – das prescrições irreais e irracionais de uma norma-padrão fixada, já na origem, como uma impossibilidade de realização plena por parte de qualquer brasileiro. Ao contrário de outras sociedades, democráticas de fato, em que os usos lingüísticos reais das camadas letradas urbanas servem de base para se fixar o padrão a ser descrito pelas gramáticas e dicionários, ensinado nas escolas etc., no Brasil vivemos uma esquizofrenia lingüística: falamos o português brasileiro, resultante de 500 anos de contato lingüístico com idiomas africanos e indígenas, a terceira língua mais falada do hemisfério ocidental, mas utilizamos, como normas de regulação dessa língua, um conjunto de prescrições absurdas, arcaicas, já obsoletas em meados do século XIX, que contradizem frontalmente o nosso saber lingüístico intuitivo.

O português brasileiro é uma língua para a qual confluíram e confluem matrizes lingüísticas européias, ameríndias e africanas. Se tantos brasileiros pronunciam “djia” e “tchia” o que se escreve dia e tia é porque mamaram essas pronúncias junto com o leite das suas babás negras, junto com tantas coisas maravilhosas que os africanos nos legaram e que nossas classes dominantes continuam a repudiar como se não fossem suas, embora essas coisas estejam inscritas no DNA de todos os brasileiros.

Marcos Bagno – Escritor, tradutor, lingüista e professor da UnB

 

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