O “sonho” de Martin Luther King não se tornou realidade, por Douglas Belchior

 

50 anos depois do histórico discurso de Martin Luther King, ocorrida em 28 de Agosto de 1963 no Lincoln Memorial em Washington, as desigualdades que atingem negros nos EUA permanecem. A renda dos brancos americanos é em média o dobro da dos negros, que continuam sendo os principais alvos da polícia. A maior parte dessa população ainda vive nos bairros mais afastados, que são verdadeiros guetos – e distantes das melhores escolas e empregos.

Infelizmente o “sonho” de Martin Luther King, de que um dia seus filhos viveriam numa nação onde as pessoas não seriam julgadas pela cor da pele, e sim pelo caráter, não se tornou realidade. Pode-se dizer que o Reverendo expôs em suas palavras o sonho de todos os negros e indígenas da América, já que a história do continente os impôs realidades similares.

Embora o Brasil não tenha vivido a segregação racial formal e legalizada presente em alguns estados do Sul dos EUA, isso não significou uma vida melhor aos negros brasileiros. Nos EUA o conflito racial sempre foi marcado e explícito. Já no Brasil sua presença sempre foi negada apesar de socialmente presente e permanente. Mas ambas as realidades sempre foram muito violentas.

Lá como aqui, embora as políticas de ação afirmativa tenham gerado ascensão social a uma pequena parcela da população, o que deu origem ao que se chama de “classe média negra”, a maioria esmagadora dos negros americanos ainda sofrem com problemas sociais, empregos precários e com a repressão. A maior população carcerária do planeta é majoritariamente negra, assim como o é nas filas para cadeira elétrica e nos cemitérios, mortos que são pela polícia. Ou seja, uma realidade parecida com a do Brasil, com a diferença de que aqui não se aceita o racismo como causa.

Na terra da democracia racial, se convencionou resumir as desgraças a ideia genérica de “problemas sociais” quando na verdade vivemos um apartheid racial gravíssimo: A população negra é invisível nos melhores empregos, nas universidades, na direção de empresas, governos, partidos ou igrejas. Ao mesmo tempo é onipresente nas calçadas, albergues, periferias, morros, palafitas, nas cadeias, fundações para menores, na informalidade e no cemitério. Esse é o lugar comum para os negros, seja nos EUA, seja no Brasil. E por isso o discurso de Luther King ainda faz todo o sentido.

Há uma mensagem de respeito, tolerância às diferenças, valorização da diversidade e, sobretudo, de paz nas palavras de “I have a dream”. Mas como conviver em paz com a violência e a morte sempre a espreita? Há viva e atuante uma mentalidade escravocrata, um ideário que naturaliza e vincula o negro à pobreza, à vadiagem e ao crime. E isso naturaliza também a violência sofrida todos os dias.

O sistema político e econômico vigente é incompatível com a promoção da igualdade em quaisquer níveis, seja racial, econômico, cultural, de gênero e até religioso. Uma forma de organização social que tem como base a desigualdade e a concentração de riqueza precisa – para manter a quietude da massa oprimida, de instrumentos que dividam e dificultem sua unidade. Daí a importância do racismo, do machismo, da homofobia e da radicalização dos preconceitos religiosos.

É preciso construir um modelo de organização social onde os recursos financeiros e a riqueza nacional esteja voltada para as necessidades reais da população. É preciso buscar uma forma de organização onde a produção de alimentos, produtos, mercadorias e dos recursos vindouros sejam do povo que produz e não das corporações, de banqueiros ou do agronegócio. É necessário construir uma situação em que os meios de comunicação cumpram o papel de educar para a diversidade e para a igualdade de fato e não como como o sempre fez, uma escola de preconceitos de raça, classe, gênero, sexualidade e religião.

É necessário reconstruir o sistema educacional para que se invista nas pessoas enquanto seres humanos. É preciso, no que toca a questão racial, reconhecer a existência do racismo como dinamizador das relações sociais em todos os níveis e como tal, combatê-la com força proporcional a sua importância.

E além das mazelas sociais, o ideal de justiça e paz de Luther King nos leva, necessariamente a encarar a mais urgente demanda de nossos dias: o genocídio da juventude negra. Não é possível conviver com números de guerra no que diz respeito aos homicídios que, sabemos, atinge prioritariamente os negros. No Brasil, a desmilitarização da polícia e da política de segurança pública é mais que necessária; O fim da PM, assim como recomenda a ONU e a Anistia Internacional, além do reconhecimento e combate às milícias e grupos de extermínio é urgente.

Uma mensagem de paz passa necessariamente pela garantia do direito a vida. E para isso, é preciso formular uma a política de segurança pública que seja construída com participação popular e que considere como pressuposto de sua existência, investimentos em saúde, educação, moradia e trabalho.

Luther King, em sua pregação pacifista reivindicava a distribuição da riqueza e a reparação ao crime de lesa humanidade que foram as centenas de anos de escravidão, que interferiram drasticamente no desenvolvimento social e econômico da população negra. É preciso abrir um sério debate em relação à indenização da população afrodescendente, assim como os familiares de vítimas do nazismo o foram; Assim como os familiares das vítimas das ditaduras brasileiras o são. Menos que isso, serão políticas compensatórias apenas. Importantes, mas insuficientes. E estaremos condenados a comemorar 100 anos do discurso de Martin Luther King como sonetos de lamentação.

 

 

 

Fonte: Carta Capital

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