terça-feira, outubro 4, 2022
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Obra perdida de Jackson do Pandeiro volta à evidência em lançamentos

Não é estranho que Jackson do Pandeiro seja muito mais comentado do que ouvido. Boa parte da vasta obra produzida ao longo de 63 anos de vida perdeu-se por muito tempo em um limbo que a deixou fora de catálogo. Até hoje. Agora, quase 35 anos depois de sua morte, o intérprete de clássicos como “Sebastiana”, “O Canto da Ema”, “Chiclete com Banana” e “Um a Um” tem seu legado novamente em evidência.

Por Guilherme Bryan Do Uol

Na música, o box “Jackson do Pandeiro – O Rei do Ritmo”, com 12 CDs duplos e três simples, chega às lojas nesta próxima sexta-feira (17). No cinema, ainda neste ano será finalizado o documentário “Jackson – Na Batida do Pandeiro”, dirigido por Marcus Vilar e Cacá Teixeira, ainda sem data prevista para estreia.

Mais do que um simples compilado de suas músicas, a caixa traz material inédito, fruto de pesquisa do produtor Rodrigo Faour a convite de Alice Soares, gerente de marketing estratégico da Universal Music. “Começou uma maratona pelas liberações porque a grande maioria das músicas só saiu no mercado uma única vez. Muitas editoras caducaram e muitos autores já morreram”, conta Faour.

No fim das contas, Faour conseguiu a liberação de 235 músicas, das quais cerca de 150 são inéditas em CD, e ainda rendeu a inclusão das capas originais em sua maioria nos encartes. “Foi uma vitória”, comemora. A obra do artista não está completa, mas reúne o que ele produziu entre as décadas de 1950 e 1980, pelas gravadoras Copacabana e Philips, fase em que o som é de altíssima qualidade, já que as faixas vieram diretamente das fitas masters.

O “Rei do Ritmo”

Cantor de baião, xote, xaxado, coco, arrasta-pé, quadrilha, marcha, frevo, forró e samba, José Silva Gomes Filho, nome de batismo de Jackson do Pandeiro, nasceu em Alagoa Grande (PB), em 31 de agosto de 1919, e morreu em 10 de julho de 1982, em Brasília. Rapidamente foi reconhecido como o “rei do ritmo”.

“Jackson continuou o trabalho aberto por Luiz Gonzaga em 1946, o de divulgar o melhor dos nossos ritmos nordestinos. Imortalizou o coco, o frevo e o rojão, além do samba e da marcha com tempero nordestino. Com sua parceira Almira Castilho, ele teatralizava suas apresentações, trazendo o folclore do interior nordestino ao Sul maravilha, fazendo com que o Brasil inteiro aprendesse não só os ritmos, como danças, gírias e expressões de lá, tal qual Gonzagão, mas com novas nuances”, descreve Faour. O pesquisador destaca ainda o fato de, como exímio ritmista, Jackson nunca cantar uma música duas vezes da mesma maneira, muito em função do dom do improviso que possuía.

Mas se há semelhanças entre Jackson do Pandeiro e Luiz Gonzaga, as diferenças também saltam aos olhos e ouvidos, como analisa o cineasta Marcus Vilar. Para ele, Gonzaga sempre encarnou a imagem do nordestino rural, do migrante saudoso que, mesmo morando na cidade grande, pensa o tempo inteiro em voltar para seu pé-de-serra. Já Jackson do Pandeiro encarna a imagem do nordestino que se integra e se assimila à metrópole, aos valores e à linguagem dela. Representa o nordestino que prefere se fixar no Rio de Janeiro ou em São Paulo e construir ali o seu futuro, sem perder as raízes na cultura popular.

“Jackson era sujeito de interpretações inigualáveis, cujas síncopes inesgotáveis amealhavam com uma simplicidade desconcertante, conquistando a simpatia do público e o crivo quase unânime da crítica, em consequência de sua alegria contagiante. É com essa original capacidade interpretativa que trafegou por diferentes ritmos, executados sempre com maestria”, comenta Vilar, a respeito do filho de um ceramista e de uma cantadora de coco de roda.

O artista pode também ser apontado como um dos precursores do movimento tropicalista de Caetano Veloso e Gilberto Gil, que gravou com sucesso “Chiclete com Banana”. “O Jackson foi um gênio. Ele conseguiu fazer um gol importante ao misturar muito bem nossos gêneros musicais regionais. O samba do Sudeste com o baião do Nordeste, como exemplo da liberdade criativa musical dele”, diz Alice Soares.

20jan1981---jackson-do-pandeiro-cantor-compositor-e-instrumentista-1466027731707_615x300Jackson do Pandeiro, cantor, compositor e instrumentista, em foto de 1981

Na batida do pandeiro

Marcado pela simplicidade e por muito bom humor, Jackson do Pandeiro merece ser ouvido e ter a história contada em filme, no qual deve chamar a atenção a personalidade dele, marcada pela generosidade com os conterrâneos e pelo aspecto agregador. “Uma unanimidade entre os entrevistados é na sua maneira de criar e, obviamente, na musicalidade nata na maneira como ele cantava, no ritmo e no jeito como ele dividia as canções. As demais curiosidades eu não posso contar para não quebrar o encanto. Elas virão à tona no filme”, garante Marcus Vilar.

Para o cineasta, o registro cinematográfico da vida e da obra de Jackson do Pandeiro é fundamental pelo resgate da história de um artista nordestino que conquistou o país e também para a filmografia paraibana, pela sua tradição em documentários. “Cabe desfraldar essa história num registro claro de uma arte nordestina que se quer universal a todo instante”, completa o diretor, que teve a ideia de fazer o documentário em 1999, quando estabeleceu contato com Fernando Moura, um dos autores da biografia “Jackson do Pandeiro – O Rei do Ritmo”, publicada em 2001 e dividida com Antonio Vicente.

Faour descreve a do músico como “riquíssima” e que “fala de um Brasil autêntico bem distante da pasteurização da música regional brasileira de hoje, cada vez mais brega e americanizada, sem tanta inventividade nas letras e baseada em teclados ou samplers eletrônicos. É revigorante para quem ainda acredita na autêntica música criativa brasileira. Ainda fará escola a muita gente”.

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