Obras do Rio são segregacionistas, afirma ativista da Maré

Walmyr Júnior, ativista e morador da Maré, critica as obras viárias que cobrem o Rio de Janeiro às vésperas dos Jogos Olímpicos. Para Walmyr obras como a extensão d a Linha 4 do Metrô para a Barra da Tijuca e a implementação do VLC no centro atenderão principalmente às elites: “Enquanto isso, no subúrbio, o projeto de cidade de nosso tempo reproduz a mesma lógica. Isola os negros e pobres com ilusões, dando pão e circo para que ninguém vá ao território gentrificado da praça Mauá e não entre na zona dos ‘senhores da cidade'”

Por Walmyr Junior Do Brasil247

Obras do Rio de Janeiro, a reprodução de uma lógica segregacionista

Mais um dia de rotina e vejo no olhar das pessoas o cansaço e o desgaste gerado pelo turbilhão das obras na Cidade do Rio de Janeiro. Estamos cansados de passar sufoco no trânsito da cidade por causa dos engarrafamentos estressantes, ônibus sucateado e sem ar-condicionado, com bancos quebrados, lanternas danificadas e vidros trincados. Enfrentamos ainda no dia a dia a sujeira dos mesmos veículos, sem seta, sem campainha, sem elevador para deficiente.

A regulagem de emissão de gases poluentes não parece também ser a preocupação dos responsáveis das empresas de transporte ‘públicos’ e do prefeito. Desde abril de 2013, o Procon do Rio já interditou 715 ônibus. A passagem é um absurdo de cara e só tende a aumentar.

Não bastassem os absurdos já citados, vemos a classe trabalhadora ser mais explorada ainda pelos grandes barões do sistema de transporte urbano. Os motoristas estão cumprindo dupla função!

A militante da Marcha Mundial de Mulheres, Priscila Borges, fez um relato em seuFacebook muito parecido com o que temos visto com frequência. Dizia ela:

“Meu bilhete único zerou. Entrei no ônibus e me deparei com uma cena comum agora, motorista cumprindo dupla função. Peguei o dinheiro na bolsa e entreguei pra ele. Sem olhar pro lado ele disse: “segura aí até o próximo” (ele estava se referindo ao próximo ponto de ônibus, uma vez que entrei quando o ônibus estava parado no sinal e logo em seguida saiu). Eu tranquilamente me encostei e fiquei esperando. Puxei papo, deu uma paradinha no transito ele pegou o troco, muito concentrado tentando não desviar o olho da via, me entregou e me desejou boa tarde. Passei pela roleta e aqui estou eu, sentada no ônibus pensando: o capitalismo é mesmo perverso, as relações de trabalho são deveras opressoras e por fim, antes que eu me esqueça, a luta de classes está em curso.”

Pergunto-me constantemente o que está em jogo nesta disputa pelo direito à cidade. Os rios de dinheiro das empresas de transporte, que já financiaram muitas campanhas eleitorais por aí, não servem para investir em transporte de qualidade. Não possibilitam um trabalho justo e tranquilo para os motoristas de ônibus e não possibilita ampliação dos cargos de trabalho dos cobradores. E de quebra, esses empresários enriquecem mais ainda com os consórcios dos BRTs e BRs.

Não quero me estender, porém não me permito não falar do Metrô. Um sistema que tem por finalidade interligar o Estado e que em sua ampliação atende à classe média da Barra da Tijuca. Analisar este fato não seria uma nova problemática, haja visto que a manutenção dos privilégios e direitos das elites não podem parar. A ‘Linha 4’ é a continuidade da lógica de favorecimentos a um grupo que é historicamente hegemônico.

As obras do VLT, que estão parando o Centro da cidade, programará um novo circuito turístico e cultural para o Rio. Essa obra me recorda o projeto da ‘belle epoque’ (expressão francesa que significa bela época). Uma era de ouro da beleza, inovação e paz, uma cultura urbana de divertimento incentivada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte. Uma reprodução do mundo da arte na Europa, fazendo com que teatros, exposições de telas, cinemas, entrassem no cotidiano dos burgueses.

Enquanto isso, no subúrbio, o projeto de cidade de nosso tempo reproduz a mesma lógica. Isola os negros e pobres com ilusões, dando pão e circo para que ninguém vá ao território gentrificado da praça Mauá e não entre na zona dos ‘senhores da cidade’. Temos o Parque de Madureira, com sua obra completa inaugurada, com praias e cachoeiras artificiais, linhas de ônibus do subúrbio que ligam a Zona Sul a Zona Norte sendo extintas, meninos sendo expostos e revistados ao irem à praia, e, como na década de 1920, os investimentos em transporte, cultura e etc. favorecem a sensação de bem-estar apenas de uma parcela da população, aumentando mais ainda o muro que divide a cidade.

*Walmyr Júnior, morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor e representante do Coletivo Enegrecer como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

 

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