Guest Post »

ONU: 75% das pessoas com HIV no mundo conhecem seu estado sorológico

Índice calculado para 2017 pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS) representa avanço — em 2015, a proporção era de apenas 67%.

No ONU Brasil

Em novo relatório, o organismo também estima que no ano passado, 21,7 milhões de indivíduos infectados com o vírus — 59% do total — tiveram acesso à terapia antirretroviral. Número representa 4,5 milhões a mais do que em 2015.

 

Testagem de HIV.  (Foto: Marcelo Camargo/ABr)

 

O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (UNAIDS) revelou na quinta-feira (22) que 75% das pessoas vivendo com HIV no mundo já conhecem seu estado sorológico. Índice calculado para 2017 representa avanço — em 2015, a proporção era de apenas 67%. Em novo relatório, o organismo também estima que no ano passado, 21,7 milhões de indivíduos infectados com o vírus — 59% do total — tiveram acesso à terapia antirretroviral. Número representa 4,5 milhões a mais do que em 2015.

Apesar das conquistas, a instituição da ONU aponta que 9,4 milhões de pessoas com HIV não sabem que têm o vírus. Na avaliação da agência, essa população precisa urgentemente estar vinculada a serviços de testagem e tratamento.

Segundo a pesquisa do UNAIDS Conhecimento é Poder, em 2017, em torno de 37 milhões de pessoas em todo o mundo viviam com HIV (com margem de erro de 31,1 milhões a 43,9 milhões). No mesmo ano, foram registradas aproximadamente 2 milhões de novas infecções por HIV (com margem de erro de 1,4 milhão a 2,4 milhões).

De acordo com o relatório, o número de pessoas soropositivas com carga viral suprimida aumentou cerca de 10% nos últimos três anos, chegando a 47% em 2017. Mas 19,4 milhões de pessoas com HIV ainda não alcançaram a supressão da carga viral.

Para se manter saudável e prevenir a transmissão, o vírus precisa ser suprimido para níveis indetectáveis ​​ou muito baixos por meio da terapia antirretroviral continuada. A fim de monitorar a presença do HIV no corpo de forma eficaz, é necessário ter acesso ao teste de carga viral a cada 12 meses.

“O teste de carga viral é o ‘padrão ouro’ do monitoramento do tratamento do HIV”, explicou o diretor-executivo do UNAIDS, Michel Sidibé. “O teste mostra que o tratamento está funcionando, mantendo as pessoas vivas e bem e mantendo o vírus firmemente sob controle.”

Em algumas partes do mundo, fazer um teste de carga viral é fácil e constitui uma etapa totalmente integrada ao tratamento do HIV, mas em outros lugares, existe apenas uma máquina de carga viral para todo o país.

“O monitoramento da carga viral precisa estar disponível tanto em Lilongwe (capital do Malauí), quanto em Londres”, disse Sidibé. “Testes de HIV e de carga viral devem ser iguais e acessíveis para todas as pessoas vivendo com HIV, sem exceção.”

Na Costa do Marfim, o Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da AIDS (PEPFAR) apoia uma estratégia nacional para ampliar o acesso aos testes de carga viral. Em apenas três anos, o número de pessoas em tratamento duplicou e dez laboratórios adicionais começaram a oferecer os testes de carga viral. De 2015 para 2017, a cobertura desse exame passou de 14% para 66%. Até o final de 2018, o índice deve chegar a 75%.

Teste de HIV e de carga viral em crianças
O teste de carga viral é particularmente importante para recém-nascidos, pois o HIV avança muito mais rápido em crianças — o pico de mortalidade para crianças que nascem com HIV é de dois a três meses de vida.

O teste rápido padrão para o diagnóstico do HIV é ineficaz até os 18 meses de idade. O único exame válido para uma criança pequena é o teste virológico, que precisa ser feito dentro das primeiras quatro a seis semanas de vida. No entanto, em 2017, apenas metade (52%) das crianças expostas ao HIV, em países com altas taxas de infecção pelo vírus, recebeu um teste nos primeiros dois meses de vida.

Novas tecnologias de testagem em postos de atendimento, mais próximos das pessoas, mostraram que o tempo necessário para receber os resultados dos testes das crianças diminuiu de meses para minutos. Segundo o UNAIDS, isso está salvando vidas.

Obstáculos para conhecer o estado sorológico

A pesquisa do organismo da ONU mostra que estigma e discriminação são as maiores barreiras ao teste do HIV. Estudos entre mulheres, homens, jovens e populações-chave revelaram que o medo de ser visto em serviços de HIV acabava impedindo a utilização desse nicho do sistema de saúde. Outra preocupação era de que informações pessoais fossem compartilhadas com familiares, amigos, parceiros sexuais ou a comunidade em geral.

Para as populações-chave, como profissionais do sexo, pessoas que usam drogas injetáveis, indivíduos trans, pessoas privadas de liberdade, gays e outros homens que fazem sexo com homens, essas barreiras podem afetar ainda mais a busca por atendimento. O estigma, na sociedade e nos serviços de saúde, podem impedir que membros de populações-chave tenham acesso a cuidados de saúde, enquanto leis punitivas podem aumentar a discriminação e as taxas de violência. O resultado são obstáculos adicionais, incluindo medo de ser preso e assédio.

“Na Costa do Marfim, a prevalência do HIV entre profissionais do sexo é de 11%. Entre homens que fazem sexo com homens, é de 13%. E de 9,2% para pessoas que usam drogas injetáveis”, afirma Pélagie Kouamé, presidente da Rede de Populações-Chave da Costa do Marfim. “Não podemos deixar as populações-chave para trás. As coisas devem mudar e evoluir para que possamos sair das sombras e viver sem medo.”

Outros problemas incluem a violência ou a ameaça de violência, especialmente entre mulheres jovens e meninas. As leis e políticas de consentimento parental também são obstáculos, uma vez que em alguns países, jovens com menos de 18 anos precisam da permissão dos pais para fazer o teste de HIV. Além disso, os serviços são frequentemente muito distantes e difíceis de acessar ou muito caros. Também pode haver atrasos ou falhas nos resultados do teste de HIV e demora no início do tratamento.

Em alguns países, as pessoas não fazem o teste do HIV, pois acham que não estão em risco. No Malauí, por exemplo, um levantamento descobriu que entre adolescentes e mulheres jovens, com idades entre 15 e 24 anos, mais da metade (52%) não se considerava em risco de contrair o vírus. Por isso, era improvável que procurassem serviços de testagem. Mas essa faixa etária é, na verdade, considerada como em maior risco de infecção por HIV.

Novas opções de testagem

O relatório destaca como o fornecimento de diferentes opções de testes e serviços, como exames baseados na comunidade e testes domiciliares, pode derrubar barreiras logísticas, estruturais e sociais. Alternativas são oferecidas para pessoas que moram longe dos serviços de saúde. Outro benefício desses métodos é de que eles não trazem o transtorno imposto pelos horários, às vezes inconvenientes, de abertura e fechamento de clínicas. Além disso, são formas de testagem que não vêm com o estigma e a discriminação geralmente percebidos em serviços de saúde tradicionais.

“Não podemos esperar que as pessoas adoeçam”, defende Harouna Koné, presidente da Plataforma de Redes na Luta contra a AIDS. “Temos que ir às nossas comunidades e oferecer serviços de testagem e tratamento do HIV.”

A pesquisa do UNAIDS destaca a importância de adotar uma abordagem de cinco pilares essenciais: consentimento, confidencialidade, aconselhamento, testes com resultados corretos e conexão/vinculação com prevenção, cuidado e tratamento.

“Não existe uma abordagem única para todos os testes de HIV”, disse Sidibé. “Há várias estratégias diferentes necessárias para alcançar as pessoas em risco de infecção pelo vírus, incluindo abordagens inovadoras, como o autoteste, em que as pessoas podem se sentir mais à vontade para que sua privacidade seja respeitada.”

Outro passo importante é integrar os serviços de testagem para HIV dentro de outros serviços de saúde, incluindo de saúde materno-infantil, tuberculose, infecções sexualmente transmissíveis e hepatites virais.

A tuberculose é a principal causa de morte de pessoas que vivem com HIV, sendo responsável por um em cada três falecimentos relacionados à AIDS. No entanto, estima-se que 49% das pessoas que vivem com HIV e tuberculose não sabem que estão com uma coinfecção. Em 2017, em torno de 940 mil pessoas morreram por doenças relacionadas à AIDS (com margem de erro de 670 mil a 1,3 milhão).

O acesso ao teste do HIV é um direito humano básico. O UNAIDS está pedindo um compromisso global para remover as barreiras que impedem as pessoas de fazer o exame. Isso inclui eliminar o estigma e a discriminação relacionados ao HIV, assegurar confidencialidade nos serviços de testagem e tratamento e implementar uma combinação ideal de estratégias de diagnóstico para alcançar as populações mais necessitadas.

Também significa remover entraves políticos e legais que dificultam o acesso ao teste e ao tratamento, além de expandir o acesso ao monitoramento da carga viral em países de baixa e média renda e garantir o acesso ao diagnóstico precoce para recém-nascidos.

Acesse o relatório do UNAIDS na íntegra clicando aqui (em inglês).

Related posts