domingo, agosto 14, 2022
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Os efeitos da erotização na sexualidade de meninos negros cisgênero

Essa situação aconteceu durante uma atividade cultural no mês da consciência negra, numa escola pública da zona sul da cidade de São Paulo. A professora de artes —uma mulher cisgênero¹ branca com idade acima de 40 anos — decidiu realizar um desfile de “moda afro” e convidou alguns alunos negros para compor a passarela.

Um dos meninos escolhidos era Pedro*, um garoto de 16 anos, estatura alta, se comparado aos demais colegas de sua idade, e que tinha o porte físico tipo atlético. No momento do desfile, a professora mostrava muito animada e quando Pedro subiu ao palco, ela começou a gritar: “Tira a ca-mi-sa! Tira a ca-mi-sa!”. Após o menino obedecer a ordem, a professora seguiu gritando: “Lindo, tesão, bonito e gostosão”. O menino recebeu elogios sobre seus músculos e performance no palco e parecia satisfeito com o “reconhecimento” recebido pelas meninas de sua idade e mulheres adultas cisgênero.

Existem muitos estudos que se dedicam a compreender os efeitos do racismo na subjetividade de crianças negras, então é a partir da leitura dessas produções acadêmicas que podemos entender o quanto as pessoas negras, ao chegar à fase da adolescência, já vivenciaram muitos momentos de desvalorização de sua cor de pele, traços e capacidade intelectual —muitos deles, ocorridos no ambiente escolar.

A chegada da puberdade gera intensas mudanças físicas —independentemente da questão de raça —, contudo, o modo como cada indivíduo lidará com as alterações em sua corporeidade é atravessado pelos marcadores sociais como racismo, capacitismo, desigualdades de gênero e classe, afetividades e outros mais. Sendo assim, não podemos dizer que toda adolescência enfrentará as mesmas questões e passará pelas mesmas experiências da mesma forma.

No caso de adolescências negras, existe o fator da erotização, que se intensifica com as mudanças físicas da puberdade —e eu teria muitos exemplos para mostrar o quanto a erotização afeta o desenvolvimento sexual de meninas negras cisgênero. Contudo, quero retomar a história de Pedro e a professora agressora sexual. Sim, você leu certinho, eu a chamei de agressora sexual!

Isso porque ela não escolheu Pedro aleatoriamente entre os estudantes, ela utilizou como critério de escolha a eleição do corpo que mais lhe parecia erótico (o porte atlético e a altura do menino foram decisivos). No momento do desfile de moda, ela solicita ao menino que tirasse a camisa, mostrando que a roupa não era o foco da performance apresentada. Não satisfeita com o corpo semidespido, ela explicita: “Lindo, tesão, bonito e gostosão”.

Uma das facetas mais perversas do racismo é tentar justificar uma violência chamando-a de elogio e usar a própria vítima como prova de que não houve agressão e de que tudo não passa de um exagero. “Mas o menino gostou, até deu uma sensualizada no palco”. Contudo, quais os efeitos dessa erotização no desenvolvimento sexual desse e de tantos outros meninos negros cisgênero?

Seus traços, cor da pele e textura de cabelo que, na infância, eram tidos como motivo de menosprezo e agressões psicológicas e físicas, parecem se converter em uma falsa vantagem trazida com a puberdade: a erotização de seu corpo por pessoas, não só da sua idade, mas também por adultas.

O menino é tratado como homem, ou melhor, como “o negão”. A adolescência passou batida, agora ele experimenta o que é ser desejado e, por vezes, confunde isso com amor.

Muitos homens negros cisgênero têm trazido relatos em redes sociais e em podcasts sobre como o sexo e o amor na adolescência lhes pareciam ideias complexas e que, por vezes, acreditavam que só seriam mais amados se fossem “um negão estiloso, com pegada”, além da expectativa de que o pênis e a performance sexual tivessem que “fazer jus à fama”.

Certa vez, vi uma frase na internet que dizia: “Essa que vocês chamam de novinha, nós chamamos de criança”. Eu proponho aí um complemento: “Esse garoto que vocês chamam de negão, é um menino”.

¹ Cisgênero é toda pessoa que se identifica com o gênero que lhes foi atribuído ao nascer.
* Nome foi trocado para preservar a identidade do menino.

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