Os meninos que não amam as mulheres

Blogues, fóruns e grupos em redes sociais reúnem jovens com discurso misógino e extremista

Por Camilla Feltrin

A lenda em torno do nome de Nessahan Alita diz que o rapaz era professor de Geografia da rede pública de ensino e também especialista em orientação junguiana, mas que hoje, após passar em um concurso da Funai, estuda a vida de índios. Essa é a lenda, não há nada comprovado. O que existe de real é uma dezena de livros publicados sob esse pseudônimo.

Influenciados pela literatura de Alita, homens e meninos se reúnem em grupos, fóruns e comunidades nas redes sociais para discutir os tais ensinamentos e variações dele. Dois dos principais livros do enigmático escritor são O Lado Obscuro das Mulheres e o Profano Feminino. Em suma, as publicações ensinam que as mulheres não podem ser muito bem tratadas e quanto mais são ignoradas, mais se interessam por um pretendente.

Os seguidores dos livros condenam o uso de violência e ameaças praticadas pelos Sanctos, grupo mais extremista, mas também não deixam de ter pensamentos amedrontadores e chocantes. Com – ou sem – licença poética do filme dos irmãos Wachowski, os jovens dizem que é preciso enxergar a verdade e a manipulação feita pelas mulheres e sair da vida “matrixiana” para poder viver feliz na Real, um suposto estado de consciência capaz de enxergar essa realidade questionável em que as mulheres são monstros e manipuladoras.

A preferência política dos participantes oscila entre direita e extrema direita. Os termos usados são diversos e humilhantes para as mulheres: ‘merdalheres’, ‘feminazis’, ‘m$ol’ (para mães solteiras), ‘bucetocard’ (em referência às gentilezas que mulheres bonitas, ou não, conseguem), entre outros do nível.

“Em vez desses homens se adaptarem a um mundo com maior igualdade, eles querem retroceder aos anos 1950, aliás, ao tempo das cavernas, em que o homem honrado precisava caçar. Eles sabem que esse retrocesso não vai acontecer, e por isso gastam seu tempo odiando mulheres e qualquer outro grupo historicamente oprimido que luta por mudanças. Nada disso é novo, mas, com a internet, esses homens frustrados, tristes, desesperados, podem se reunir em blogs, fóruns e páginas no Facebook”, comenta a professora universitária da UFC (Universidade Federal do Ceará) Lola Aronovich, que costuma escrever sobre o movimento em seu blogue (www.escrevalolaescreva.blogspot.com).

Jovens e nerds, esses internautas citam trechos de livros do Nessahan Alita como se fosse uma bíblia e mesmo aparentando serem novos e sem muita experiência de vida (leia-se amorosa e sexual), falam com propriedade que nenhuma mulher presta e estão prontas para enganar os homens com armadilhas naturais de dissimulação. A viagem é endossada por Schopenhauer e trechos da Bíblia e do Alcorão em que os homens são exaltados e as mulheres humilhadas.

Lola acredita que esse tipo de conversa pode gerar vários danos para a sociedade. “Eu creio que os masculinistas devam ser considerados um grupo de ódio. Um discurso desses pode servir de combustível para ações mais concretas como atentados, espancamentos e até assassinatos”, diz. Nos fóruns, é possível encontrar diversos materiais de estudo para a ideologia e debater assuntos pertinentes, desde como aumentar os adeptos do masculinismo no Brasil, sobre o modus operandi das mulheres (como se fossem uma organização ou militância) e a suposta inconstitucionalidade da lei Maria da Penha. Os ensinamentos e dicas são duvidosos e até risíveis. Um dos usuários, por exemplo, discorre sobre a necessidade de alterar sexo entre garotas de programa e ‘civis’ (sic). Um ponto apoiado em todos os grupos é de que as mulheres não gostam de sexo, apenas o fazem como forma de seduzir e controlar o homem.

O jornalista Olavo de Carvalho, o blogueiro Julio Severo e o deputado Jair Bolsonaro são admirados nesses tipos de blogue e tidos como referência. Na ficção, o assassino Max (Marcelo Novaes), da novela Avenida Brasil, Coronel Jesuíno (José Wilker), de Gabriela, com o bordão “Deite que vou lhe usar” são citados como exemplos de macho alfa que não se deixam ser comandados por mulheres.

Ódio na rede

 

A pregação desse tipo de ódio na internet tem diversos adeptos e é algo tão amplo que pode se transpor para a vida real. No triste caso das crianças mortas por Wellington Menezes de Oliveira em Realengo (RJ), em abril de 2011, surgiu a hipótese de que o atirador participasse de fóruns pautados na superioridade do sexo masculino e de que as mulheres são seres oportunistas. Nada foi comprovado ainda, mas das 12 vítimas fatais, 10 eram meninas.

Durante a Operação Intolerância, deflagrada em março de 2012, a Policia Federal prendeu Emerson Eduardo Rodrigues e Marcello Valle Silveira Mello em Curitiba (PR). Eles eram responsáveis pelo site SilvioKoerich.org. O blogue continha diversas mensagens de ódio contra mulheres, negros, nordestinos, gays e imagens de pedofilia, corpos mutilados e zoofilia. Na época, policias disseram que a relação entre os dois com o assassino carioca seria investigada.

O Anonymous BR foi responsável por descobrir os nomes, endereço e CPF da dupla e entregar voluntariamente para a Polícia Federal. Segundo a usuária @anonim4isback, os dois também têm participação no ataque da rave no Distrito Federal em que 12 jovens ficaram feridos.

A dupla também planejava um ataque a UnB (Universidade de Brasília), semelhante ao de Realengo. No atentado frustrado pela PF, os alvos seriam estudantes do curso de Ciências Sociais da faculdade. O motivo? Pensamentos esquerdistas são repudiados por esse tipo de internauta. Emerson e Marcello são classificados como sanctos, a variação extremista da ideologia masculinista. Metade da capa do Correio Braziliense, em 23 de março de 2012, foi dedicada à operação da PF.

A origem

O termo dos fóruns de homens que discutem A Real surgiu no Orkut, especificamente na comunidades Mulher Gosta é de Homem Babaca e O Lado Obscuro das Mulheres no começo do ano 2000. À época, Nessahan Alita, autor dos livros, participava ativamente das discussões.

 

 

Fonte: Revista Forum 

+ sobre o tema

Feministas indicam desafios para avanço das políticas para as mulheres

Em reunião com a ministra da Secretaria de Políticas...

Graciliana Selestino Wakanã: ‘O que a gente quer é viver bem’

Graciliana Selestino Wakanã, do povo Xucuru Kariri, fala sobre...

Vozes femininas disputam espaço na Rio+20

"Se alguém acha que somos invisíveis, está na hora...

Agressor de mulher terá que pagar gastos do INSS

Medida começará por Espírito Santo e Brasília, mas deve...

para lembrar

Homens e mulheres concordam: o preconceito de gênero interfere no salário

De 13 perguntas da pesquisa Mitos & Verdades, feita...

Mulher Negra Brasileira Um Retrato – Rebecca Reichmann

A opinião publica brasileira raramente reconhece ou critica os...

Diálogos Feministas: Análise de conjuntura e desafios para a defesa da democracia

Esta publicação traz uma síntese do debate realizado: uma...

Thorning-Schmidt é nomeada primeira-ministra da Dinamarca

A líder dos social-democratas dinamarqueses, Helle Thorning-Schmidt, foi oficialmente...
spot_imgspot_img

Homens ganhavam, em 2021, 16,3% a mais que mulheres, diz pesquisa

Os homens eram maioria entre os empregados por empresas e também tinham uma média salarial 16,3% maior que as mulheres em 2021, indica a...

Escolhas desiguais e o papel dos modelos sociais

Modelos femininos em áreas dominadas por homens afetam as escolhas das mulheres? Um estudo realizado em uma universidade americana procurou fornecer suporte empírico para...

Ministério da Gestão lança Observatório sobre servidores federais

O Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI) lança oficialmente. nesta terça-feira (28/3) o Observatório de Pessoal, um portal de pesquisa de...
-+=