quarta-feira, fevereiro 8, 2023
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Padre Assis: ‘Meu Cristo tem cabelo crespo, é do povão e anda por favelas’

Ivaldino de Assis Mendes Tavares já perdeu as contas de quantas vezes foi parado por policiais. E a cena sempre se repete: quando perguntam o que ele faz da vida, a resposta gera risadas. Nascido em Cabo Verde, país no noroeste da África, Assis saiu de casa para estudar fora aos 17 anos. Voltou em 2012 apenas para completar sua ordenação como padre. E logo veio para o Brasil.

Ele explica que uma junção de fatos o levou a se tornar padre. Assis vem de uma família católica, fez partes de grupos de igreja e sempre acompanhou os trabalhos humanitários que seus tios faziam. Ao longo do tempo, percebeu que queria trabalhar com questões sociais e resolveu unir também a fé em prol das populações mais vulneráveis.

Hoje, por mais que se descreva como um “homem católico normal”, padre Assis quebra estereótipos ao apresentar um outro lado do catolicismo, nem sempre conhecido.

O padre está no Brasil desde 2013 e faz parte da congregação Missionários do Espírito Santo, da Igreja Católica.

Foram muitos os caminhos que o trouxeram até a zona leste de São Paulo (SP), desde sua formação em filosofia em Lisboa, o mestrado na França, sua ordenação e suas vivências em Tefé, no meio da floresta amazônica.

Foi em 2005 que seus caminhos o trouxeram em direção ao Brasil. Enquanto estudava filosofia, Assis participou da Jornada Mundial da Juventude, em Colônia, na Alemanha.

Lá, ele conheceu Patrick Clarke, um padre irlandês que já trabalhava na Vila Prudente. Eles mantiveram contato durante anos e, em 2013, Patrick o chamou para trabalhar junto a ele na zona leste.

Preto, imigrante africano e com dreads, padre Assis se diz preparado para encarar o mundo, a religião e as desigualdades que o rodeiam.

Padre Assis Tavares – Imagem: Keiny Andrade/UOL

Seu trabalho é ajudar os outros que vivem marginalizados socialmente. Ele atua no mundo offline, bem longe das redes sociais, e é conhecido por muitos moradores das regiões mais pobres da Vila Prudente.

É lá onde celebra suas missas aos finais de semana. E quando tira a batina, continua exercendo seu papel como ser humano de Deus, se dedicando ao outro, doando seu tempo, ouvidos e preces.

“É isto que a gente tenta fazer da nossa região com os imigrantes, com os catadores, com os detentos. É estar presente, não para julgar, não para apontar o dedo, não para ensinar, mas apenas para estar lá do lado”, diz.

Sua semana é lotada de compromissos, já que ele atua em quatro favelas da região – sua área pastoral cobre o chamado “Favelão” ou Favela da Vila Prudente, Morro do Peu, Favela da Ilha das Cobras e a Favela Haiti.

Lá, para além das rezas e conversas, Assis faz um pouco de tudo e se coloca à disposição quando necessitam.

Em 2019, uma enchente atingiu mais de 500 famílias na região e sua casa virou abrigo para as pessoas que ficaram sem ter para onde ir.

“Ele não mede esforços para ajudar e fazer o bem ao próximo”, relata Raquel Maria dos Santos Soledade, moradora do Favelão, frequentadora da igreja e que acompanhou tudo de perto.

“A enchente foi no domingo. Na segunda-feira ele passou de casa em casa, sentiu como se fosse na casa dele. E depois foi atrás de doações de alimentos, móveis, roupas, higiene pessoal para as famílias que tinham perdido tudo”, acrescenta.

Durante a pandemia, a região conseguiu muitas doações de cestas básicas e foi Assis o responsável por organizar, distribuir e garantir que os moradores recebessem o auxílio.

A moradora relembra ainda de um episódio marcante que viveram juntos: Estavam todos em um almoço da igreja na casa do padre quando uma pessoa em situação de rua tocou o interfone para pedir comida. Assis fez questão de acolher esse homem que não conhecia, serviu um prato e colocou uma cadeira para ele na mesa junto a todos.

Padre Assis Tavares – Imagem: Keiny Andrade/UOL

O padre participa ainda do Centro Cultural Vila Prudente, da cooperativa de reciclagem Recifavela, frequenta duas penitenciárias, realiza compromissos litúrgicos e, mesmo com a agenda apertada, se mantém de braços abertos a qualquer um que necessite de um ombro amigo ou uma ajuda.

Aos domingos, uma missa afro

No primeiro domingo de cada mês, a Igreja do Rosário dos Homens Pretos, na Penha, zona leste de São Paulo (SP), enche de pessoas para a celebração da Missa Afro.

É o padre Assis lá no altar, com sua túnica colorida e sua vontade de incluir mais elementos afros no catolicismo.

“A Igreja não é europeia, a Igreja não é branca, ela foi feita assim, mas não é”, explica. A cerimônia se completa com músicas e instrumentos de percussão.

“Se Cristo é universal, então, tem várias maneiras de expressar Cristo. O meu Cristo não tem olhos azuis e nem cabelo liso, meu Cristo tem cabelo crespo, meu Cristo é do povão, caminha com a gente nas quebradas, nas favelas, chora com nóis.”

Padre Assis

Ele lembra que fazer parte da Igreja Católica nem sempre foi fácil e que já sofreu muito racismo, principalmente pelas alas mais conservadoras, além de preconceitos pelas divergências com sua maneira de ver a religião, voltada para ajudar os mais desfavorecidos.

Mas, contra todo incômodo alheio, o padre usa seu conhecimento como resposta e como forma de se garantir e mostrar que merece estar ali.

“Eu me preparei para isso [os preconceitos], mas ainda sofro. E eu sabia que ia sofrer, por isso estudei bastante e continuo estudando. Estudo o suficiente para que eles não possam me pegar desprevenido”, conta.

Assis tem uma visão de catolicismo que, no mundo atual, algumas vezes, se diverge do que é praticado por igrejas.

Ele acredita em um Deus que acolhe, que está ao lado do povo oprimido, que está ao lado do povo LGBTQIA+, que está ao lado do povo indígena, dos ricos, dos pobres e do povo preto.

Para ele, Deus caminha com todos, mas principalmente com aqueles que são oprimidos. E é nisso que o padre busca se espelhar para estar com quem mais precisa de ajuda.

Padre Assis Tavares – Imagem: Keiny Andrade/UOL

“Eu simplesmente faço. Não vou separar A ou B, separar evangélicos e católicos, separar quem está preso ou quem está solto, o que tiver no alcance eu faço”, diz.

‘Minha casa é tipo um consulado’

Assis usa do seu conhecimento em cinco línguas – crioulo cabo-verdiano, português, francês, espanhol e inglês – para acolher e ajudar imigrantes de diversas nacionalidades que vivem na região.

“Minha casa é tipo um consulado”, resume o padre, que sempre mantém as portas abertas para qualquer pessoa que precise.

Yosvanis Labrada Hechavarria é cubano e chegou ao Brasil em 2018. Ele lembra que conheceu o Assis poucos meses depois de chegar e conta que o padre foi essencial para conseguir se sentir em casa no novo país, além de garantir alimentos, roupas e moradia. Foi graças ao apoio que recebeu que pôde também trazer sua família para cá.

“Ele não tem nada dele, tudo dele é para o povo”, diz e completa: “É um cara que tem um coração tão grande que não cabe em seu peito”.

Ele é referência na região e com frequência é procurado por outros imigrantes em busca de suporte com documentos, moradia, trabalho e como se estabelecer no país.

Já as mulheres imigrantes presas na Penitenciária Feminina da Capital, o padre busca ajudar com a língua, explicando seus direitos e procurando suas famílias que vivem, muitas vezes, a um oceano de distância.

Assis explica que é bem comum ver casos em que as mulheres avisam suas famílias que vão viajar e quando são pegas por tráfico internacional de drogas, não recebem nem o direito à uma ligação e a família fica sem notícias.

Nas prisões, Assis não quer converter ninguém. Ele está lá para oferecer acolhimento, uma escuta para os desabafos daqueles que estão encarcerados.

Além disso, ele criou em sua casa o Natal das Nações, em que todos os anos as pessoas se reúnem, levam pratos e comidas típicas de seus países e todos celebram como uma grande família.

Ele sabe, por experiência própria, que a data pode ser solitária para aqueles que vivem longe ou não têm familiares.

Por isso, fez do aniversário de Jesus um evento para compartilhar comidas, conversas, risadas e amizades.

Nos últimos dois anos a reunião foi suspensa por causa da pandemia, mas conta que pelo bairro as pessoas já estão perguntando “esse ano tem né?”, e ele confirma.

A importância do trabalho de ‘formiguinha’

Apesar de toda sua dedicação individual, o padre é modesto e conta que é a união das pessoas nas comunidades que realmente garante a melhora e transformação da região. “Somos retalhos, cada um somando um pouco. Eu faço a minha parte”, diz.

“Todo dia que acordo e tento fazer o bem e dormir fazendo o bem, é meu papel não como cristão mas simplesmente como Assis, que acredita na humanidade, que acredita que uma nova civilização do amor ainda é possível, que acredita que podemos viver no mundo, como dizia Rosa Luxemburgo, onde sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres”, diz.

Mas, nas convivências diárias com pessoas marginalizadas, Assis percebeu que apenas a fé e a religião não bastavam para fazer a diferença na vida do outro.

“Quando você está sempre em sintonia com a cadeia, escuta as injustiças, vê as coisas nas ruas, você vê que não é o suficiente para mudar a realidade.”

Por isso, aos 35 anos de idade, resolveu estudar direito e hoje está no quinto semestre na Universidade São Judas Tadeu. “Preciso me armar com as ferramentas do próprio Estado”, explica sua decisão. “Não dá pra mudar o mundo, mas dá pra fazer trabalho de formiguinha sim”, acrescenta.

“Se somos uma igreja que serve, então precisamos estar com o povo, no meio do povo, a serviço do povo. Não é assistencialismo, não é caridade, é simplesmente a presença, porque a gente acredita que Deus também habita esses becos e vielas”

Padre Asiss
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