sábado, novembro 27, 2021
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Pandemia dificulta atendimento de crianças vítimas de violência, apontam especialistas

A necessidade de ficar mais tempo em casa, devido à pandemia da Covid-19, agravou os casos de violência contra as crianças, isso porque, segundo especialistas, as vítimas dificilmente têm acesso aos serviços de saúde.

O Hospital Pequeno Príncipe de Curitiba, que é referência em atendimento de vítimas de maus-tratos, recebeu 20% menos crianças vítimas de violência, seja ela sexual, física, psicológica, negligência ou autoagressão, em comparação ao ano anterior. Foram 554 casos registrados em 2020 contra 689 contabilizados em 2019.

“Elas estão convivendo com os agressores, estão ‘presas’, muito mais vulneráveis. A maioria dos casos de violência contra as crianças ocorre em casa, por algum familiar ou pessoa próxima. Isso tudo somado ao fato de as pessoas estarem menos tolerantes, mais irritadas, com problemas sociais”, diz a psicóloga Daniela Prestes.

Os dados do hospital indicam que a maioria das vítimas, 67,5%, é composta por meninas. Entre os 554 atendimentos na unidade, 362 crianças sofreram violência sexual – o que corresponde a 65,3% do total de casos. Veja abaixo:

  • Agressão sexual: 362
  • Agressão física: 57
  • Agressão psicológica: 2
  • Negligência: 114
  • Outros: 19
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Desenvolvimento da inteligência de uma criança é influenciado pelo ambiente e os cuidados que ela recebe na primeira infância (Foto: Getty Images/BBC)

De todas as crianças atendidas, 167 apresentaram lesões aparentes, e em 103 casos foi necessária a internação para se recuperar das lesões sofridas ou para serem retirados da convivência familiar – até que os órgãos de defesa da infância tomassem as medidas protetivas.

“É terrível. Os números de violência contra as crianças são assustadores. Porém, mesmo alto, é mais do que sabido que a cada caso que chega ao hospital existem mais 25 que não chegam. As crianças são vítimas desde muito cedo, e o nosso cuidado se estende não só apenas no sentido de receber as crianças e tratá-las, mas de fazer um acompanhamento à família e de fazer um alerta a toda população”, explica Ety Cristina Forte Carneiro, diretora-executiva do Pequeno Príncipe.

Enquanto em 2019 duas crianças foram retiradas da família e encaminhadas a abrigos, em 2020 o número passou para oito, de acordo com informações colhidas pelo hospital.

‘Não tem condição de pedir ajuda’

Outro dado alarmante apontado pelo Hospital Pequeno Príncipe é com relação à pouca idade das vítimas.

De acordo com a unidade, nos casos de violência sexual, as crianças mais novas vítimas desse tipo de violação foram três meninas e um menino de 10 meses. Em três dos quatro casos, o pai foi o principal suspeito. O genitor foi apontado como principal suspeito em 70 dos casos atendidos.

Do total de vítimas registradas na instituição no ano passado, 326 tinham até seis anos, ou seja, 59% dos 554 casos atendidos.

Ety Cristina lembra que, segundo o Comitê das Nações Unidas sobre o Direito da Criança, os primeiros anos da vida são a base para o desenvolvimento futuro de uma pessoa, e o estresse na primeira infância, incluindo a exposição à violência, coloca em risco a saúde e a educação.

Além disso, essa violência contra crianças gera consequências mentais e fisiológicas em longo prazo, que podem causar mudanças permanentes no cérebro, afetando a aquisição da linguagem, o funcionamento cognitivo e o autocontrole, conforme o comitê.

“Se você olhar nos nossos dados, a maioria das vítimas tem até 6 anos, isso significa que elas foram vítimas na primeira infância, em momentos que elas ainda não têm condição de pedir ajuda e nem de perceber que, às vezes, estão sendo vítimas de violência sexual ou de pedofilia. Até os 3 anos é o momento mais rico de maleabilidade cerebral para a evolução da criança, e essas situações até os 6 anos atrapalham profundamente um desenvolvimento cerebral saudável”, afirma.

Tentativa de acabar com sofrimento

O levantamento do hospital apontou que em 2020 a vítima mais nova de tentativa de suicídio foi uma criança de 10 anos. Ao todo o Pequeno Príncipe atendeu 19 crianças e adolescentes por causa de autoagressões.

“As vítimas dizem que não se sentem pertencentes para as famílias, não há diálogo entre os membros, existe muita cobrança, comentários pejorativos, não existe parceria, nem uma educação mesmo, um comprometimento de uma relação afetiva entre pais e filhos, além de outras coisas. A saída que eles encontram para acabar com o sofrimento é tentando suicídio”, reforça a psicóloga.

Para a diretora-executiva do Pequeno Príncipe, o maior aliado no combate às violências contra as crianças é a sociedade, quando denuncia. Veja ao final da reportagem meios para denunciar.

“Como lidar com uma sociedade que não consegue proteger as suas crianças e os seus bebês?! Nós tentamos há muitos anos mobilizar as pessoas para que façam a denúncia, é muito importante o vizinho prestar atenção. Uma família que tem violência, tem grito, tem pedido de socorro, tem barulho de agressão. O cidadão precisa prestar atenção e esses gritos de socorro precisam ser notificados”, diz Ety.

Escapes de descontrole

De acordo com relatório de 2020 da Organização Mundial da Saúde (OMS), uma a cada duas crianças sofre algum tipo de violência no mundo, todo ano.

A psicóloga Daniela Prestes ressalta os números contra as crianças sempre foram altos, mas com a pandemia, além do problema da dificuldade de acesso das vítimas aos serviços de saúde, a violência também pode estar pior.

“O tempo de convivência entre a criança e o adulto ficou maior. O estresse da pandemia, das privações, do isolamento, tudo ‘ajudou’ a tornar momentos mais intensos, e pensando na violência às vezes o adulto agressor comete o crime como escapes de descontrole, de raiva, justamente no ser mais indefeso”, comenta.

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Crianças de até 6 anos são as mais atingidas pela violência (Foto: Arte G1)

Daniela também indica que o fato de as crianças estarem sem aulas presenciais também interfere no ciclo de proteção que ela poderia ter nessa fase da vida.

“A escola é um lugar de proteção das crianças, as professoras, monitoras, profissionais em geral, querendo ou não acompanham elas, veem todos os dias. Mas, estando longe fica complicado ver algum sinal mais evidente de que ela está sofrendo algum tipo de violência”.

A psicóloga explica que como na maioria dos casos os agressores são as próprias pessoas que moram com a vítima, eles têm poder e um controle dessa família, como se aquela criança fosse posse dele e ele tivesse o direito de praticar determinados atos.

“Normalmente esse agressor tem um controle sobre a família, sobre a criança, e até sobre um outro adulto que more ali junto, como a mãe da vítima. Todos ficam ‘reféns’ dessa violência calados e com medo. Situações de violência não tem a ver com cor, credo, raça, nível socioeconômico cultural, esses momentos acontecem em todos os lares”, diz Daniela.

Contudo, mesmo não existindo um padrão de onde ocorre essa violência, a psicóloga afirma que em famílias onde a situação é de vulnerabilidade social e de fragilidade material, outro fatores podem impulsionar um ato agressivo por parte de um adulto contra as crianças.

“Famílias que estão em situação de muitíssima vulnerabilidade, que às vezes moram em uma casa que não tem cobertura, que não tem uma alimentação adequada, nem condições sanitárias, uma prole numerosa, também tem situações de álcool, uso de drogas, desemprego, então são tantas dificuldades que podem amplificar a situação agressiva, intolerante e desrespeitosa”, revela.

Sinais de violência

A psicóloga Daniela Prestes e o vice-presidente da Sociedade Paranaense de Pediatria (SPP), Victor Horácio de Souza Costa Júnior, elencaram algumas formas para diagnosticar episódios de violência contras as crianças. Confira abaixo:

Observar mudança de comportamento

“Um choro sem motivo, uma reclusão de alguma situação que ela estava acostumada a fazer. Entrar em desespero ao saber que vai encontrar determinada pessoa”, pontua o médico.

A psicologa conta que algumas crianças mais reservadas, comportadas, obedientes, após serem vítimas de violência, se tornam crianças irritadas, agressivas, que respondem mal.

“Mas, pode acontecer ao contrário também, alguma criança que gostava de brincar, de falar, de sair, se torna mais caseira, mais isolada, quer ficar sozinha. E também aquelas que querem ficar na rua com outras pessoas para se sentir segura”.

Hematomas, fraturas e cicatrizes

Victor Horácio levanta outros pontos. “Equimoses que aparecem na criança sem o histórico de queda, criança que às vezes vai para a escola e não quer voltar para casa. Por isso, que eu vejo a importância da escola nesse cenário. Uma importante denunciadora de uma situação de maus-tratos é a comunidade escolar porque eles acompanham todos os dias e observam o comportamento da criança”.

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Pandemia reduz acesso de crianças vítimas de violência aos serviços de saúde (Foto: Pixabay/Pexels)

Alteração do peso e semblante

“Além das próprias marcas físicas que a criança possa apresentar, como hematomas, arranhões, fraturas, às vezes ela pode apresentar emagrecimento ou ganhar muito peso rapidamente. Olheiras fundas e quedas de cabelos também indicam sobre alguma necessidade que ela está passando. Tem criança que, em uma situação de estresse desse tipo, para de se alimentar ou outras que por ficarem ansiosas comem sem parar, algo compulsivo, mesmo sem ter fome”, indica Daniela.

Alteração no sono

“Outra coisa que pode acontecer é no próprio comportamento da criança, por exemplo, quando ela não consegue dormir direito, tem insonia, pesadelo, ou então ela dorme demais como uma tentativa de fuga da realidade”, afirma a psicóloga.

Enurese e encoprese

Daniela ainda ressalta que a criança pode, especialmente nas situações de abuso sexual, desencadear enurese (que é a perda noturna do controle da bexiga) ou a encoprese (problema no qual a criança resiste a defecar).

Comportamento erotizado

“Também em relação ao abuso sexual, podemos notar comportamentos mais erotizados porque se essa criança está sendo muito precocemente inserida a viver a sexualidade. Ela muitas vezes não sabe que isso que fazem com ela é crime, que vai fazer mal fisicamente e emocionalmente. Ela é levada a entender que esse abuso agrada, que essa dor que ela sente é normal, que ela está inserida em uma sexualidade que ela não tem a menor condição”, explica a psicóloga.

Segundo a especialista ainda, algumas vezes essa criança pode repetir o ato com os amigos, com os irmãos e até com os próprios adultos abusadores, como beijar na boca, porque para ela aquilo é comum.

“Comportamentos erotizados muito além do esperado para aquela fase do desenvolvimento. Normalmente essas crianças também têm falas erotizadas, ou então desenhos com formas das partes íntimas, com órgãos à mostra”, completa.

Desempenho ruim na escola

Os profissionais também afiram que um dos sinais pode ser notado na esfera acadêmica educacional, em que muitas vezes essas crianças decrescem no nível escolar, começam a tirar notas ruins, a ir mal nos estudos porque não têm mais ânimo, nem energia e nem saúde.

“Se a gente pensar que 80% dos casos acontece dentro do ambiente familiar, a gente imagina como que essa criança vai ter ânimo de acordar e ir para escola fazer os deveres se ela não está dormindo direito, não esta se alimentando, se tem alguém abusando ou maltratando ela”, pontua Daniela.

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De acordo com a OMS, uma a cada duas crianças sofre algum tipo de violência no mundo (Foto: Kilvia Muniz/SVM)

Palavras de baixo calão

A psicóloga conta que as crianças costumam reproduzir ações dos adultos em que convive, e com isso ela também podem começar a falar palavras de baixo calão para outras pessoas, mesmo sem entender direito o que elas significam.

“É uma violência psicológica, uma violência emocional, uma violência sorrateira, porque é silenciosa, não é evidente como uma violência física, mas ela deixa marcas no desenvolvimento e na construção de sexualidade. Quando o adulto cuidador, o responsável, fala palavras ‘feias’, fala que a criança não serve para nada, fala que é um estorvo na vida dele, isso vai fazendo com que ela se sinta rejeita, sinta que não é o amor de ninguém. Essa criança pode agir da mesma forma com os outros posteriormente, ter um descrédito nas relações humanas”, afirma ela.

Como denunciar?

A denúncia pode ser feita ligando de forma anônima:

  • Nacional: Disque 100
  • Paraná: Disque 181
  • Curitiba: Disque 156

“É nosso dever como cidadão denunciar. Essa ligação pode ser a diferença entre a vida e a morte de uma dessas crianças. E pode ser a diferença da morte psíquica, inclusive, porque muitas sobrevivem fisicamente, mas estão arrasadas psiquicamente”, afirma Ety.

E ela complementa: “É uma causa muito cara para nós e é invisível porque as pessoas têm dificuldade de falar sobre ela. Essa violência é um problema de todo estado, da comunidade, do cidadão, do ser humano. A gente precisa ser uma sociedade que cuida”.

Para sensibilizar a sociedade sobre a importância da denúncia, o Pequeno Príncipe mantém, desde 2006, a campanha “Pra Toda Vida – A Violência não Pode Marcar o Futuro das Crianças”, que busca dar visibilidade ao tema.

“É importante falar que após a violência, existe um acompanhamento com psicóloga, uma necessidade de monitoramento da família com relação ao serviço social e, muitas vezes, acompanhamento da criança pela doença que ela pode estar adquirindo – que seja uma manifestação dos maus-tratos ou uma consequência dele”, conclui o médico Victor Horácio.

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