sábado, novembro 26, 2022

Paula Brito

por: Mauro Rosso

Francisco de Paula Brito, “o primeiro editor digno deste nome que houve entre nós”, em citação de Machado de Assis, exerceu papel fundamental no desenvolvimento da carreira literária de Machado – bem como de muitos outros escritores, em meados do século XIX. Inaugurou, na verdade, uma vertente histórica e uma linhagem de editores ou casas editoriais que se constituíram em ponto de encontro da elite cultural e de incentivo à produção literária (assim o foram , por exemplo, a paulistana Casa Garraux, de Anatole Louis Garraux, na década de 1870, a Livraria de B.L. Garnier, na década de 1860/70, a Livraria Francisco Alves, no final do século XIX, a Livraria José Olympio Editora na década de 1930).

Em 1854, aos 22 anos, Machado de Assis já rabiscara os primeiros versos e lia avidamente os poemas e romances-folhetins nos poucos jornais existentes na época.; e sonhava em enviar suas produções.Até que a 6 de janeiro de 1855 teve publicado em A Marmota Fluminense, de Paula Brito seu poema “A palmeira” , e seis dias depois o poema “Ela”; e na livraria, ponto de encontro dos jovens escritores da época, Machado foi também acolhido, por iniciativa do próprio Paula Brito. Figura extraordinária, esse impressor, editor,jornalista,autor e o maior incentivador da literatura brasileira naquela época. Até 1864 Machado colaborou com a revista de Paula Brito, publicando poesias no mais arrebatado estilo romântico de então, mas também trabalhos em prosa: “O passado,o presente e o futuro da literatura”, que marca sua estréia no ensaio crítico , em 1858, o conto “Bagatela” – que abriga dúvidas, quanto a tratar-se de uma tradução ou criação machadiana [vide meu livro Contos de Machado de Assis:relicários e raisonnés,2008] — em 1859,nos folhetins de 10 e 13 de maio,3 e 14 de junho,26 e 30 de agosto.Por esse tempo, teve ainda a amizade e acolhida de Manuel Antonio de Almeida, diretor da Imprensa Nacional onde Machado consegue o lugar de tipógrafo de 1856 a 1858., ano em que incorpora-se de vez ao grupo de A Marmota (o jornal passou a ter esta denominação a partir de 1857) e da Sociedade Petalógica, “sociedade lítero-humorística” fundada por Paula Brito – cuja loja era um verdadeiro cenáculo, um “ponto de encontro neutro,onde os conflitos partidários rendiam-se em favor das letras e das artes” frequenta­da pelas figuras de maior relevo daquele tempo, reunindo todo o movimento romântico de 1840-60, dos poetas Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu, Araújo Porto-Alegre e Laurindo Rabelo a romancistas como Joaquim Manuel de Macedo, Manuel Antonio de Almeida , Teixeira e Souza, dos compositores Francisco Manuel da Silva ao ator João Caetano, além da presença de personalidades como os ministros José da Silva Paranhos (barão do Rio Branco), Eusébio de Queiroz, o senador Francisco Otaviano, líderes da sociedade como Antonio Maciel Monteiro, os jornalistas Joaquim de Saldanha Marinho e Firmino Rodrigues. Até que em 1861, já escrevendo no Diário do Rio de Janeiro (de 1860 a 1867 publica em A Marmota, em abril-maio “Queda que as mulheres têm para os tolos” — este,como se sabe, exemplo bem-acabado,malgrado as constatações de Jean-Michel Massa, dos ‘mistérios’ machadianos ,ao abrigar elementos de reflexão quanto a tratar-se de uma tradução ou criação machadiana [vide meu ensaio,2006] ; e no ano seguinte tem editado em livro,por Paula Brito, duas de suas primeiras peças teatrais “O caminho da porta” e “O protocolo”, encenadas em 1862 no Ateneu Dramático.

O fato de Paula Brito ter se tornado o livreiro preferido pela elite intelectual do Rio de Janeiro, bem como o principal editor da época — sucedendo o ‘lendário’ impressor francês, estabelecido no Rio de Janeiro desde 1824, Pierre René Plancher — exemplifica suas capacidade,energia,determinação e habilidade reconhecidas e incentivadas até a década de 1840 por Pedro I ,consolidada na admiração de Pedro II por seu empenho em estimular os escritores brasileiros. O próprio imperador foi o principal acionista da nova Imperial Typographia Dous de Dezembro, inaugurada neste dia de 1850, data do aniversário do imperador e de Paula Brito – e onde Machado foi trabalhar a partir de 1858 como revisor de provas e caixeiro. As publicações de Paula Brito, ao contrário do comum na época, que eram concentradas em administração, política e informações práticas para os homens de negócios, dirigiam- se muito mais para o “leitor comum” , fruto das marcantes mudanças ocorridas no Brasil entre a Independência e a maioridade de Pedro II, notoriamente os progressos sociais, no que tange à publicação de livros, advindos da valorização da condição da mulher , criando um público leitor feminino, ávido por literatura romanesca, influenciada pelos franceses,suficientemente numeroso para alterar as características do mercado.

O volume de publicações de Paula Brito dirigidas às mulheres, iniciado ainda em 1832 com a pioneira revista feminina A Mulher do Simplício, ou A Fluminense Exaltada —- não se estranhe o título do jornal, pois era comum na época : em 1834 publicava-se O Tupinambá Pregoeiro A Mutuca Picante ,como em 1822.,p. ex., existira O Periquito da Serra dos Órgãos Malagute— ,sucedida de 1849 a 1864 por A Marmota Fluminense,evidencia o quanto o editor era consciente da existência – e força –desse novo público leitor feminino. Paula Brito lançou ao todo 372 publicações , das quais 214 foram edições literárias ficcionais, 100 delas “dramas”, 43 libretos de ópera, 47 de traduções do italiano e do francês, e 24 edições de originais brasileiros. A literatura brasileira então era bastante incipiente, praticamente não existia (pelo menos como “sistema literário orgânico”, conforme a conceituação de Antonio Candido) — apesar das produções de Gonçalves Magalhães, Joaquim Manuel de Macedo, José de Alencar, Teixeira e Souza, Gonçalves Dias, Araújo Porto-Alegre, Casimiro de Abreu : Paula Brito foi o primeiro editor a incentivá-la, o primeiro a publicar trabalhos de literatos brasileiros como ‘empreendimento de risco’ e não mediante pagamento por parte do autor, como se praticava na época. Pela primeira vez, um romancista ou um poeta brasileiro era publicado em livro e pago por isso. É de Paula Brito por exemplo a publicação do primeiríssimo romance brasileiro, O filho do pescador, de Teixeira e Souza, em 1843 ( um ano antes do equivocadamente considerado pioneiro A Moreninha, de Macedo); os Últimos cantos, de Gonçalves Dias,em 1851, a primeira peça essencialmente brasileira, “Antonio José,ou o poeta e a Inquisição” e A Confederação dos Tamoios, de Gonçalves de Magalhães em 1857, além de comédias de Martins Pena e poemas de Casimiro e Abreu.

Mas não apenas na seara literária,ou editorial, Paula Brito foi notável : muito antes do próprio aparecimento e recrudescimento do movimento abolicionista, foi ele um ativo militante da causa, veemente crítico da escravidão e defensor da igualdade racial – até mesmo criando e editando, desde 1833,o jornal O homem de cor,pela primeira vez dando espaço ao negro e a questões raciais na imprensa brasileira.

Justamente nesse ano de 1857 tiveram início as dificuldades financeiras de Paula Brito, impossibilitado de remunerar os acionistas investidores nos 6% prometidos, e deu-se a liquidação da Imperial Typographia Dous de Dezembro, tornando-se simplesmente Typographia de Paula Brito. Continuou a publicar livros, mas a produção caiu para 11 títulos em 1857, 10 em 1858 e 1859, embora aumentasse para 15 em 1860 e em 1861, ano de publicação de Queda…. e da morte de Paula Brito(como também o trágico naufrágio que matou de Manuel Antonio de Almeida).

Mauro Rosso – pesquisador,ensaista,escritor.

Fonte: Portal Literal

 

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