PhD em Harvard fala sobre racismo e educação: ‘conheci todas as formas de preconceito’

Joana D’Arc Félix, de 45 anos, esteve em Porto Velho para palestrar sobre educação científica em congresso. De origem humilde, professora coleciona 101 prêmios.

Por Mayara Subtil, no G1

 

Joana D’Arc Félix esteve em Porto Velho para palestrar sobre educação científica. (Foto: Mayara Subtil/G1)

 

A voz serena junto ao jeito tímido e sutilmente cômico de se comunicar não escondem o empoderamento que a professora Joana D’Arc Félix, de 45 anos, carrega de berço. Ela é mestre, PhD em química pela Universidade de Harvard, dos Estados Unidos e coleciona 101 prêmios como cientista.

Para tal conquista, Joana, que se especializou em estudos sobre resíduos gerados no setor coureiro-calçadista encarou a fome, o racismo dentro e fora do Brasil e a pobreza.

 

“Eu passei a acreditar que se eu estudasse, ia vencer na vida. Mas não foi fácil. Enfrentei tudo de cabeça erguida com apoio da família”, disse.

 

Pela primeira vez, Joana D’Arc esteve em Porto Velho essa semana (no período que homenageia a Consciência Negra) para participar da 6ª edição do Congresso de Pesquisa, Ensino e Extensão (Conpex), do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (Ifro).

O evento se estende até a próxima sexta-feira (23). O debate central do seu discurso tratou do papel da educação científica na construção do conhecimento.

Há 10 anos, Joana é professora na Escola Agrícola de Franca, no interior de São Paulo. O objetivo, hoje, é formar novas gerações de cientistas.

“São jovens advindos das drogas e da prostituição e meu foco de trabalho é esse. É propor um mundo melhor por meio da educação científica”, salientou.

 

Joana D’Arc dá aulas na Escola Agrícola de Franca, interior de São Paulo, cidade onde nasceu. (Foto: Reprodução/Facebook)

“Estuda pra ser alguém na vida”

A caminhada de sucesso pelo mundo da pesquisa começou em Franca, cidade onde nasceu e cresceu. Porém, por ser pobre e filha de pai e mãe semianalfabetos, jamais imaginou seguir o caminho acadêmico.

“Minha mãe era empregada doméstica. Meu pai trabalhava em um curtume. O salário era muito baixo. A gente mal tinha onde morar”, contou.

A caçula de três irmãos viveu em uma casa dentro de uma indústria química de curtume (local onde é feito o preparo do couro para depois ser usado) arrumada pelo patrão do pai dela.

“Foi nessa casa onde nasci. Por causa disso, ninguém nos visitava, pois o curtume fede”, explicou.

Por ser a menor dos irmãos, a mãe de Joana costumava levar a menina para o serviço. Com o objetivo de deixar a criança “quieta”, a cientista conta que a mãe a ensinava algumas palavras escritas em jornais impressos, mesmo sendo semianalfabeta.

 

“Minha mãe foi minha primeira professora”.

 

A facilidade no aprendizado surpreendeu a diretora de uma escola na época. Como consequência, foi matriculada no ensino fundamental.

“Ela perguntou se eu estava vendo as fotos do jornal e respondi que não, que estava lendo. Ela se surpreendeu, me pediu para ler um pedaço e fiz isso. Por coincidência, era início de ano e ela sugeriu que eu passasse uns dias na escola. Caso eu conseguisse acompanhar a vaga seria minha e funcionou”.

Precoce, Joana concluiu o ensino médio aos 14 anos. Nesse meio tempo, conheceu o preconceito racial e social de quem nasce pobre e negro.

 

“Na terceira série, eu mudei para uma escola estadual, pois era mais perto de casa. Só que era muito elitizada. Foi aí que conheci todas as formas de preconceito”, disse Joana.

 

Segundo ela, a mais marcante foi quando garotos a chutaram por usar um sapato furado que tinha por dentro um saco plástico e papelão. Entre eles, seu apelido era “neguinha fedida do curtume”.

“Eu fui tão excluída que meu pai falava ‘estuda pra ser alguém na vida’. Então, eu disse: vou me esforçar ao máximo pra vencer na vida”, contou. “As crianças não nascem racistas. Elas aprendem com os mais velhos”.

Depois que concluiu o ensino médio, começou a cursar química na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – Joana também passou no vestibular para Universidade Estadual Paulista (UNESP) e Universidade de São Paulo (USP). Se formou aos 17 anos e conseguiu ingressar, logo em seguida, no mestrado e no doutorado.

Racismo nos EUA
Durante o doutorado, Joana conseguiu ir para os Estados Unidos com o auxílio e incentivo do orientador. Em um ano, estudou na Universidade de Clemson, na Carolina do Sul. O estado é um dos mais racistas do país norte-americano.

 

“Os brancos daquela região se recusam em ‘servir’ os negros. Era como se eu estivesse roubando a vaga de um branco”, contou.

 

Por causa do racismo, ela contava com quatro amigos europeus para tudo, até mesmo para comprar um lápis. “Sempre lembrava do meu pai, quando ele dizia que era pra encarar de frente. E fiz isso”.

Após o período, ela retornou ao Brasil e concluiu o doutorado também na Unicamp. O convite para fazer o pós-doutorado em Harvard surgiu logo em seguida, aos 25 anos, depois da publicação de um artigo científico na revista acadêmica Journal of the American Chemical Society.

 

Pesquisadora enfrentou a pobreza e chegou à Universidade Harvard, nos EUA. — Foto: Stella Reis/EPTV

 

Por conta do trabalho feito no Brasil com estudantes de Franca, Joana D’Arc acumula 101 prêmios. Entre eles está o de “Pesquisadora do Ano”, no Kurt Politizer de Tecnologia de 2014, projetos em feiras e de “Personalidade do Ano” pelo Faz Diferença 2017, iniciativa do jornal O Globo, em parceria com a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

“Acho que é até importante falar que para outras pessoas também e ver que é possível. Que independente da condição financeira é possível chegar lá. Mas, claro, a partir de um esforço”, aconselhou.

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