Pobre, negro e coxinha?

Sim, claro que tudo é possível e cada um tem o direito de fazer suas escolhas, afinal estamos em uma democracia e estas escolhas são legítimas sem dúvida alguma. Por outro lado é inquestionável que as melhores escolhas são sempre feitas com informação e conhecimento. Ao contrário da informação o conhecimento exige análises, deduções e às vezes inferências, consumindo tempo e paciência, recurso cada vez mais escasso hoje em dia.

Por Judson Nascimento Do Brasil247

O jogo político é um jogo de informações e sua interpretação demanda perspicácia para não se deixar enganar pelo fluxo transitório de informações de lado a lado. É como um “cabo de guerra”, onde de um lado estão os coxinhas, de direita, os neoliberais, defendendo o capital, o mercado como regulador da sociedade e do outro os mortadelas, os chamados de esquerda, defendendo a diversidade e menos desigualdades sociais. Nesse jogo, alguns acreditam que estar à esquerda é sinônimo de comunismo, uma estratégia ilusória de sucesso que pegou com bastante força.

Há os que defendem a pauta do neoliberalismo sem saber do que se trata, sem conhecer suas consequências. Este fato tem facilitado a absorção plena da ideologia neoliberal fazendo inclusive com que pessoas pertencentes à classes menos favorecidas, “comprem” a ideia de que a verdade está com quem detém o poder. Este tem usado seus parceiros, conglomerados econômicos e midiáticos para induzi-los a achar inadvertidamente que os pobres fazem parte deste universo.

A verdade é bem diferente, os planos da direita não incluem os pobres nem a diversidade porque tais planos estão a serviço das elites e de seus valores tradicionalmente ortodoxos. A prova disso são as medidas tomadas pelo Governo Temer, extinguindo diretos sociais adquiridos com relação a trabalho, direito a terra, meio ambiente, questões de gênero, opção sexual e etnia, dentre outros.

Essa ideia dominante também é assimilada pelos negros. A maioria dos negros é pobre porque é negra, devido à atrocidades racistas históricas, absorvendo igualmente a ideia equivocada de que todos tem as mesmas chances de progredir independentemente da cor de sua pele. Política pública na visão de alguns brancos e negros é sinônimo de racismo ao contrário e portanto não deve existir, já que “todos são iguais”, quando se sabe que isso é uma enorme falácia. A história do negro brasileiro não tem sido contada de maneira factual, plena e transparente e sim enviesada, permitindo reforçar ainda mais a falsa e prejudicial ideia de democracia racial.

“Negro bom” tem sido aquele que é invisível para a sociedade, acreditando-se que quanto mais invisível for, mais ele será bem aceito. A mulher negra tem o agravante da discriminação de gênero, reflexo de uma sociedade machista e nada plural. A solução para alguns tem sido renegar sua origem, como raça, cultura e religião e tentar, como se fosse possível, disfarçar suas características fenotípicas. No passado alisava-se o cabelo, no presente nega-se a própria negritude.

A lógica é: se o negro “não existe”, não há racismo e, como “todos são iguais”, não faz sentido qualquer política governamental voltada para ele, argumento defendido por uma boa parte dos enformados, ou seja, dos colocados na forma da cultura dominante. Esta prisão ideológica e velada infelizmente reflete o fato de muitos pobres e negros escolherem sem saber, estar à direita, mais excluídos e mais à margem da sociedade que escolheram viver.

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