Pobreza e racismo da polícia explicam confrontos na Suécia

Os confrontos violentos que há seis dias abalam a Suécia não estão relacionados com as políticas de imigração, mas com a pobreza e com o racismo das forças de segurança, considera um perito sueco.

Em declarações à agência Lusa, a partir de Estocolmo, Mårten Löfberg, que trabalha para a organização Olof Palme International Center, que se debruça sobre direitos humanos e democratização e está ligada ao partido social-democrata, que governou a Suécia durante anos, até 2006, recusa dar destaque à categoria “imigração” para analisar os tumultos registados em várias cidades no país.

“A categoria interessante é a pobreza”, contrapõe. “Isto não é uma questão étnica, mas de pobreza. As necessidades e os interesses destas pessoas têm sido negligenciados pelas autoridades estatais há muitos anos, especialmente nos últimos”, recorda.

O único contacto que os imigrantes têm com o Estado é através da polícia, onde predominam “pessoas racistas e xenófobas”, identifica Mårten Löfberg, que tem trabalhado assuntos de imigração com as forças de segurança suecas.

“Falei com milhares e milhares de polícias e posso dizer que há uma forte presença de xenofobia na polícia sueca, especialmente no Sul do país, mas isto não consta em muitos relatórios”, assinala, estimando que mais atos de “violência e xenofobia” aconteçam.

Os tumultos agora registados, acredita, foram “provocados por comportamentos racistas da polícia”, que a imprensa internacional não está a referir, optando antes por “tirar tudo do contexto”.

Sendo verdade que a violência “está a acontecer em bairros pobres”, não se sabe “quem são os jovens, porque a sua identidade não foi revelada”, diz. “Não sabemos se são imigrantes ou não. Isso foi algo que os ‘media’ inventaram”, denuncia.

A comunicação social internacional “está a retratar isto como um confronto entre a polícia e jovens imigrantes, o que é totalmente incorreto”, critica, considerando que as notícias suecas têm, ao contrário, sido “equilibradas”.

A imprensa internacional “está a vender a ideia” de que a Suécia falhou na inclusão dos imigrantes, “o que é verdade, em parte, mas não por problemas entre imigrantes e nacionais, mas entre ricos e pobres”, sustenta.

A violência nas ruas “é preocupante”, mas “muito mais preocupante” do que “carros a arder” é que “uma porção da população, a mais pobre, não tenha confiança na autoridade do Estado e da polícia e os veja como inimigos”, sublinha.

O problema é que os pobres “são forçados a viver nos grandes subúrbios, mais baratos e com padrões de vida baixos” e os imigrantes “estão sobrerrepresentados” nestas zonas, reconhece, realçando, porém, que “vivem lado a lado com suecos e outros europeus pobres”.

Na Suécia vivem 2,5 milhões de imigrantes (entre 15 e 20 por cento da população – “uma elevada percentagem se comparada com a de outros países europeus”) e “apenas uma pequena porção destas pessoas estará envolvida nos confrontos”, contabiliza, lembrando ainda que as estatísticas mostram que o crime violento não subiu com o aumento dos imigrantes.

“A pobreza é que está a aumentar”, contrapõe, realçando que, “nos últimos 20 anos, a desigualdade cresceu mais na Suécia do que em qualquer outro país do mundo”.

Fonte: Inforpress/Lusa

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