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A poesia total de Elisa Lucinda – Por: Fernanda Pompeu

Todo poeta tem um rosto. O dela é radioso. Em parte, pela bela mistura que deu numa negra com olhos verdes. Mas principalmente porque Elisa Lucinda tem uma luz interior que se publicita em suas palavras profundamente declamadas. Ela se move no palco com a idêntica desenvoltura com que seus versos se movimentam na página. Muita gente já viu Elisa nas novelas da Globo, a última vez na trama Lado a Lado, escrita por Claudia Lage e João Ximenes Braga. Mas privilegiados são os que já a viram declamando seus poemas com dicção perfeita e fogo na alma. “Desde pequena eu praticava a poesia falada, acho que ali eu já exercitava a atriz que me tornei. A poeta e a atriz são indissociáveis em mim”, afirma Elisa. Quando ela completou onze anos, sua mãe Divalda a encaminhou para ter aulas de declamação. Com a professora Maria Filina, a menina aprendeu que “devemos conversar com a poesia e jamais aprisionar a palavra em uma só forma de dizer.” Libertar a palavra e libertar a si mesma é um propósito recorrente no trabalho de Elisa Lucinda, como comprovam estes seus versos do poema Última Moda: “(…) Não quero esses boletos/ essas etiquetas / esses preços / esses compromissos/ Não tenho código de barras, / (…) Não caibo nestas caixas / nestas definições / nestas prateleiras (…)”.

Escrevo para esclarecer

Ninguém precisa ser doutor em linguística ou em teoria literária para se deliciar com os versos de Elisa Lucinda. Ela consegue – como quase ninguém – escrever sobre temas complexos de forma extremamente clara e bonita. “Eu busco a maneira mais natural de ser e dizer. Procuro um à vontade para aquela realidade. Minha poesia é feita para revelar, não escrevo para esconder nada. Persigo a beleza das palavras, porque a beleza é condição obrigatória para que um conjunto de palavras se torne poesia”, nos ensina a escritora. Nascida em Cariacica, Espírito do Santo, em 2 de fevereiro de 1958, ela se mudou para o Rio de Janeiro – onde mora até hoje – aos vinte e poucos anos. Levou na mala, além das roupas e do nécessaire, as lições do seu pai Lino que adorava fazer trocadilhos, além de ensinar com paixão e bom humor o português para os filhos. Na Cidade Maravilhosa, Elisa Lucinda amadureceu seus múltiplos talentos. Subiu aos palcos, foi para frente das câmeras, soltou a voz em canções e poemas, escreveu sem parar. Ela diz: “A cantora, a atriz, a poeta estão em mim. Tudo sou eu, não tem muito mistério, nem explicação. Sou uma artista, procuro desenvolver minhas inclinações e ampliar minhas possibilidades. Sou hiperativa sem medicação”. A modéstia é dela, o prazer é nosso.

Meu tema é o mundo

A poeta Elisa Lucinda fala de amor, dor, paixão, frustação, nascimento, morte. Esses temas universais que acompanham a desesperança e esperança de todos nós. Mas sua poesia não se furta a trabalhar com problemas sociais e bem brasileiros. Racismo, sexismo, maltrato aos pobres. No poema Mulata Exportação, lemos o seguintes versos: “(…) Olha aqui meu senhor: / Eu me lembro da senzala / e tu te lembras da Casa-Grande / e vamos juntos escrever sinceramente outra história / Digo, repito e não minto / (…) Porque deixar de ser racista, meu amor, / não é comer uma mulata!”. Qual a razão de poemar sobre o racismo? Ela responde: “Ser preto no Brasil é muito puxado. Mata-se um leão por dia. Pois em qualquer lugar e em qualquer balcão, a pessoa negra pode receber um olhar, uma palavra, que não a enxergam como pessoa de primeira categoria”. Na mesma toada, Elisa Lucinda escreve sobre o ser e o estar mulher na atualidade: “Muitas mulheres morreram no passado e ainda hoje são assassinadas por assumirem suas escolhas de amores e parceiros. Eu aproveito o respaldo de muitos leitores para falar da liberdade feminina sem que o vizinho ou vizinha me chame de puta. No fundo, acredito no poder da palavra como arma e instrumento para melhorarmos o mundo. Não existe essa de um ser maior ou melhor do que o outro”.

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Elisa Lucinda (Foto: Reprodução / Facebook Elisa Lucinda)

Poesia para todos

Um traço marcante de Elisa Lucinda é não usar a máscara do poeta como um ser especial, tocado por arcanjos. Ela é uma das fundadoras da Casa Poema, com sede em Botafogo, Rio de Janeiro. A filosofia do projeto – que pode se replicado em qualquer canto do Brasil – se apoia na ideia de que a poesia, particularmente a poesia falada, colabora com a qualidade de vida pessoal e social das pessoas. O público que participa de oficinas e saraus é abrangente. São educadores, policiais, jovens da periferia, jovens com boa renda, aspirantes a escritores. “Eles aprendem a arte de dizer versos de um jeito coloquial. Passam a compreender a força da palavra como instrumento de informação, ampliação de repertório e formação de cidadania”, Elisa esclarece. Ao lado de todos esses afazeres, a cantora, atriz e poeta ainda arranja tempo para tietar o filho Juliano Gomes, jovem cineasta, de quem ela diz: “Guardem esse nome, pois virão muitas coisas boas dele”. No momento, ela também trabalha na divulgação de seu mais recente livro Fernando Pessoa, o Cavaleiro do Nada: “Escrevi sobre o homem Fernando, esse português genial. Ninguém precisa ter pedigree em teoria literária para curtir meu livro”, assegura a dama das palavras aladas.

Fonte: Yahoo

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