quinta-feira, setembro 30, 2021
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Políticas das desigualdades educacionais miram futuros das crianças e adolescentes periféricos

Embora nem sempre existam condições estruturais adequadas, a escola é um importante espaço de detecção de problemas e de acolhimento

As notícias não param de chegar e poucas vezes elas são boas. Após a agoniante edição de 2020 —em meio à pandemia— o Enem deve ter a seleção mais elitista de sua história, em 2021. A educação inclusiva, que tinha avanços tímidos, volta a retroceder via decreto federal.

O ensino de histórias e saberes africanos, indígenas e afrobrasileiros em sala de aula, que é lei, fica a cargo dos educadores que têm possibilidades de confrontar as escolas internamente. Nessa “brincadeirinha”, os futuros mais prejudicados são de quem depende da educação pública para o básico da instrução formal: pessoas negras, indígenas e periféricas.

Embora nem sempre existam condições estruturais adequadas, a escola é um importante espaço de detecção de problemas e de acolhimento das crianças. Para além de educadoras e educadores, professores podem se tornar confidentes dos estudantes, além de também perceberem necessidades sem que a criança ou o adolescente necessariamente os busquem.

O Brasil vive crises graves. Milhares de brasileiros retornaram ao cenário da fome, o poder de compra está cada vez menor e a qualidade dos alimentos também.

Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD) de 2019, o IBGE demonstrou que mais de 80% dos brasileiros eram atendidos pela rede pública de ensino. Entretanto, com o contexto social que surge pela pandemia, 5,5 milhões de estudantes não tiveram acesso às aulas em 2020, segundo o estudo “Impactos da Pandemia da Covid-19 na Educação”.

Uma das dificuldades que o ensino a distância representou para os brasileiros mais pobres das cidades e moradores das zonas rurais foi o acesso à internet e à alimentação.

Em se tratando do currículo escolar, temos um modelo de ensino tradicional que o professor fala e o estudante escuta, como numa relação de emissão-recepção com pouca interação. Uma metodologia que ensina a obedecer e, por vezes, a naturalizar o que não deve ser naturalizado. Que ensina a não questionar como prova de respeito.

Esse modelo de ensino, utilizado na grande maioria das escolas públicas e privadas, dificulta que o espaço se torne mais acolhedor para quem é negro, indígena, LGBTQIA+, tem deficiência. Por outro lado, preserva tabus e preconceitos que tornam a escola um martírio para essas pessoas.

Mesmo com todo esse cenário, em 2022, o novo ensino médio deve começar a ser implementado em turmas do primeiro ano. Ele foi aprovado durante o governo Temer e propõe a inserção do ensino profissionalizante durante os últimos anos escolares.

Essa medida soa como um desestímulo ao ensino superior. Sobretudo em se tratando de um país cujas taxas de desemprego só têm caído (em certa medida) por conta do aumento do trabalho informal, que não oferece garantias de condições seguras de trabalho.

Um dos pontos que mais levantam debate nessa medida é o entendimento —ou melhor, o desentendimento— de que a realidade do estudante não interfere em como ele recebe a educação.

Em um Brasil cada dia mais difícil para a população pobre e periférica, não é tão difícil entender que o processo de ensino e aprendizagem dos estudantes que vem dessa parte do país é completamente prejudicado. O ensino superior, que nem parece uma real possibilidade para quem vem das favelas e periferias, fica ainda mais distante.

Entretanto, essa é mais uma daquelas coisas que pode até causar um choque, mas não surpreende. Afinal, esse sempre foi o objetivo. A pandemia parece até “fabricada” de tanto que facilitou e acelerou esse processo.

O racismo institucional opera para manter jovens periféricos trabalhando pela sobrevivência, enquanto quem descende dos primeiros saqueadores do país tem trânsito livre para seguir mandando, criando e ordenando o futuro do Brasil.

Que a outra ponta dessa história não se paralise e siga construindo —com suor, amor e raiva— novos caminhos para que nossas crianças e adolescentes não sejam mantidos às margens.


Eduarda Nunes

Jornalista, colaboradora do PerifaConnection, Favela em Pauta e Agência Retruco (PE), integrante do Afronte Coletivo e da Rede de Mulheres Negras de Pernambuco e uma das homenageadas do 1º Prêmio Neusa Maria de Jornalismo

PerifaConnection

PerifaConnection, uma plataforma de disputa de narrativa das periferias, é feito por Raull Santiago, Wesley Teixeira, Salvino Oliveira, Jefferson Barbosa e Thuane Nascimento

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