terça-feira, agosto 9, 2022
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Por que sou contra a Educação a distância durante a Pandemia do Covid – 19?

“Onde há signo há mediação”. Desta forma, um dos maiores expoentes da educação mundial defendia as formas de educação, Lev Vigotsky. Este conceito amplia o entendimento e também possibilita a inclusão de Educação à distância enquanto possibilidade formativa. No entanto, o entendimento de signo para mediação no processo de ensinagem e aprendizagem necessita de um método de abordagem e uma metodologia de aplicação. Pergunto: as proposições intempestivas de promoção de Educação à distância no Brasil de 2020, em tempos de Covid19, possuem o método e a metodologia necessária a intermediação do signo? Vejamos.

Educação à distância não se trata da mesma coisa que ensino à distância. Ensino a distância a gente faz desde há muito tempo e continuará a fazer por muito tempo também. Sem a necessidade de um rigor cientifico e um método testado. Já educação à distância, mesmo também sendo utilizada desde a muito tempo requer um aparato que possibilite a sua operacionalização. Desde professores treinados e qualificados até a rede de Tecnologia da Informação funcionando, metodologia de ensinagem, materiais disponíveis etc. Precisa-se de uma política estruturada. A pergunta é: – quem propõe que professores fomentem esta ação e que os Estados municípios e rede particular, em algum sentido, adotem essa “opção” de política educacional possuem estes instrumentos à disposição para ofertar? Se não possui, logo, não há possibilidade de educação à distância em tempos de Covid 19.

“Ensinar não é transferir conhecimento”. Já nos dizia Paulo Freire. Mas, nem a transmissão de conhecimento é possível sem um mínimo de estrutura e de pessoas que faça essa “transmissão”. Sem se falar que não estamos num tempo do uso do conteúdo pura e simplesmente para a oferta educacional. (Se bem que este uso jamais deveria ocorrer). Mas alguns outros debatem nos alumia também quando falamos em mediação tecnológica para o processo de ensinagem e aprendizagem. Pergunto mais uma vez: – o que se entende como tecnologia? Em meu quilombo alguém produzia tecnologia, algum tempo, ou se produz hoje? A gente aprendeu o ou sabemos a partir de que? Quem construiu o conhecimento que temos, de formas distintas, conseguiu isso por quê? Este preconceito ou insuficiência cognitiva expõe as vísceras (mostra a pereba e o pus, como diz uma professora) de um problema maior ainda nos processos educacionais brasileiros: o preconceito e o lugar de fala.

O que é tecnologia? São somente as tecnologias digitais que partem dos defensores da educação á distância apresenta como tecnologia educacional? É somente um lugar político no mundo que a produz e as demais somente deve consumir? Vejamos: – o que vem a ser a linguagem? Considera-se linguagem como uma tecnologia? Se não, expõe se a imprecisão da cognoscibilidade, que lá na roça temos outro nome. Se sim, afirma que é necessário avançar no conceito antes da proposição. Mas, também não é necessário somente estas duas possibilidades, quem defende, logicamente, deve de ter mais. Mas, antes da defesa, faço algumas sugestões:

1. Verificar se os professores dominam os meios tecnológicos propositivos para o uso e o seu percentual;

2. Verificar se os estudantes possuem aparatos tecnológicos para a mediação da aprendizagem?

3. Verificar se existem redes qualificadas nos lugares para que estas pessoas acessem os conteúdos?

4. Verificar se esta é somente a única forma de promoção educacional em tempos de Covid 19;

5. Verificar se não é necessário estudar sobre educação e mediação, sobre situação social do Brasil, sobre pobreza e sobre onde se assenta cientificamente, a partir de uma proposta libertadora, a proposta de ensinagem à distância para poucos;

6. Verificar se há condições total de implementação da política em si.

Poderia explicitar mais umas 20 (im) possibilidades para escurecer o que digo, mas, limito-me por estas, por hora. E, digo escurecer (neologizando a vida descolorida) para ajudar também a perceber sobre os estudantes que estamos tratando quando propomos.

Com isso não estou negando jamais a possibilidade de Educação por Intermediação Tecnológica e Educação à Distância. Somente estou a fortalecendo e dizendo que Educação à distância não é qualquer coisa, como afirma um professor. E que nossos estudantes devem ser “coisas” maiores ainda. Devem ser considerados sujeitos de direito que possuem direito à educação.

Me dirão alguns, quiçá: – tudo bem, falou até bonito, mas, precisamos de ser pragmáticos e apresentarmos algo. Direi: – devemos ao apresentar vários algos. Este é apenas um, mas nem status de ser o principal deve ter. o principal deve ser o que chega a maioria dos estudantes e não o que nos é mais conveniente. E, mais, pedagogicamente falando, o principal não deve ser a apresentação conteúdista para os estudantes e a transposição da sala de aula para dentro dos celulares ou computadores. Aulas em que as chamadas duram 5 minutos e que em nada difere de uma sala de aula convencional. Não deve ser o mimetismo pela ignorância a nossa maior e melhor oferta para nossos estudantes.

Culpa dos professores? – jamais. Não foram preparados para este momento. O debate não é procurar culpados, mas apontar soluções. Podemos iniciar por soluções entendendo que estamos num momento atípico e que o conteúdismo precisa de ser colocado de lado neste momento (adoraria que fosse esquecido). Dialogando sobre o que dá sentido à vida destes e destas estudantes, muito para além de uma preparação técnica para passar no ENEM somente. Para agora precisa-se muito mais deste dispositivo. Educação para a vida.

A gente não pode propor e nem aceitar o improviso enquanto possibilidade de política pública porque isso fere o princípio da ciência, inclusive. Possibilitar materiais diversos para alunos da rede, ofertar diversas possibilidades e não cobrar deles pelo ofertado não se trata somente de uma opinião. Mas, no Estado da Bahia, por exemplo, se trata de uma decisão de governo. Acertadamente. E, quando passar esta crise, se repõe as aulas e garante educação em escala e qualidade.

Este momento abre a possibilidade, já tardia, de se pensar, planejar e implementar a qualificação de professores em sentido “propedêutico” alargado. De instrumenntalização no estado em oferta de TI, de qualificação de professores para a mediação das tecnologias disponíveis; em produção de conteúdos teóricos instrutivos e do entendimento maior sobre o que é tecnologia. De conceber educação para um público a partir de o público ser o foco estratégico da “aplicação” da teoria e não a teoria suplantar o publico beneficiário. Conhecemos nosso público?

Educação à distância, senhores, não é a “mimetização da realidade presencial em ambiente virtual. ” Educação é uma ciência. Seja ela a distância ou presencial. Não pode ser um arremedo improvisado para empurrar estudantes pobres para uma pobreza maior. Paremos!

Jocivaldo dos Anjos
Mestre em Gestão Pública e diretor proprietário da empresa Consilium Consultoria

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