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Por que tornou-se possível fugir do capitalismo

Os riscos de horror fascista, bem sabemos, são reais. Mas surgiu pela primeira vez, na história da humanidade, a chance de deixar para trás um sistema que, no fundo, todos detestam

Por Umair Haque Do Racismo Ambiental

Foto: Reprodução/Racismo Ambiental

Há uma pergunta recorrente para mim nesses dias. Se a questão, no capitalismo, é escapar do sistema, então qual a razão do capitalismo? É uma questão circular e, em certa medida, engraçada. Vou tentar explicar.

Estamos todos capturados por este grande sistema global chamado capitalismo – que atinge todos os cantos de nossas vidas, ordena nossas necessidades e desejos, planeja nossos dias e noites e estrutura nosso tempo e energia. Você pode até mesmo falar do capitalismo como se ele fosse uma pessoa, agora – “Ei, Alexa…” Um sistema que nós qualificamos mais ou menos como “empresas cujos donos são acionistas, que buscam o lucro máximo e têm esse único fim, não importando o custo para alguém ou para qualquer outra coisa”. Mas qual é o princípio organizador da vida que esse sistema, tão penetrante e capilar, produz? O que estamos realmente tentando realizar através dele?

O trabalhador tenta tornar-se um gestor. O gestor busca transformar-se em capitalista. Expressei-me em termos modernos; amos colocar em termos marxistas, só para ver o contraste. O proletário tenta tornar-se um pequeno burguês. O burguês busca ascender à alta burguesia. O trabalhador, quer ser dono de uma loja; o dono de uma loja, dono de uma cadeia. Mesmo na forma singela de “possuir” uma casa – ou seja, assumir uma dívida por toda a vida – ou comprar uma ação ou um título: o objetivo é acumular capital. Portanto, o capitalismo é algo como uma pirâmide, que todos escalamos: de trabalhador para gerente; de proletário para burguês, e no cume está o grande capitalista.

Mas em que o capitalista está tentando se transformar?

O capitalista, ironicamente, está tentando conquistar sua liberdade do capitalismo – assim como todo mundo. A única diferença é que ele está um passo mais perto. Vamos provar, com um exemplo simples e extremo, o de uma fazenda, um escravo e um proprietário. Este último está atrás de quê? Ele está tentando ganhar a liberdade do trabalho – não ter que trabalhar, daí os escravos. Também está tentando conquistar a liberdade de não ser explorado – ele tem o chicote e está acima da lei moral. E escapar do controle, punição, hierarquia – ele não tem chefe a quem prestar contas. Talvez dedique sua vida a atividades mais “cavalheirescas” – arte, literatura, pesquisa, exploração: mas qual é o sentido disso? Também estas atividades são uma libertação do capitalismo – de seu violento estresse, pressão, ansiedade, competição.

É possível, agora, compreender minha questão? Não é estranha e engraçada? O que o próprio capitalista busca realmente é conquistar sua libertação do capitalismo. Comprá-la de volta, mais exatamente. Do mesmo modo que o proletário, o membro da classe média ou o escravo assalariado. Quaisquer que sejam os termos escolhidos, dependendo de nossa visão política, a questão se mantém a mesma. A questão do capitalismo é escapar do capitalismo.

Alguns sistemas se autoperpetuam. Como uma floresta, um rio ou um oceano. Mas alguns sistemas são autoaniquiladores. Como um incêndio, uma tempestade, uma epidemia. Eles queimam a si próprios. Tendemos a igualar o capitalismo aos primeiros – mas estamos enganados. Ele está no segundo grupo – um sistema autodestrutivo, não um sistema sustentável. Se estamos todos somente tentando escapar dele – então o que mais poderia ser? Afinal, isso significa que provavelmente chegará o dia em que conseguiremos escapar – e nesse dia, adeus capitalismo, pelo menos no sentido acima, num piscar de olhos, como uma tempestade ou uma fogueira. Vamos, por um momento enxergar através das grandes lentes da história humana. Primeiro havia o tribalismo, e escapamos dele; depois o feudalismo, e escapamos novamente. Hoje há o capitalismo, do qual estamos tentando escapar de novo. Mas embora reis e cavaleiros pudessem não ter estado tão interessados em se livrar do feudalismo, o que chama a atenção no capitalismo é que estamos tentando escapar – até mesmo a maioria dos capitalistas – porque ele nos torna infelizes, mesquinhos e tolos.

Isso não significa que não haja ovos podres, gente cujo único objetivo na vida é acumular dinheiro, usando-o para abusar das pessoas. Por certo, há. Contudo, a ideia de que até mesmo os capitalistas tentam escapar do capitalismo provavelmente irá perturbar tanto a esquerda quanto a direita, porque estou indo além de Marx e sugerindo que a “luta de classes” é tão limitadora quanto a ideia de que “o capitalismo é o único fim da vida humana!” Penso, entretanto, que essa é uma ideia frequentemente aceita na Europa, graças a Adorno, Adler, Freud, Fromm e muitos outros.

Você pode ver isso em termos cômicos. O que os bilionários Jeff Bezos e Elon Musk estão fazendo? Tentando fugir para Marte. O que o Bill Gates está fazendo? Recomendando livros e tentando salvar o mundo com caridade. Que irônico. Estas são formas diferentes de libertar-se do capitalismo. Talvez em Marte possamos construir um mundo melhor. Talvez através de ideias e filantropia possamos resolver os problemas que as corporações não conseguem. Todos os capitalistas que vejo estão tentando conquistar a liberdade do capitalismo, de uma forma ou de outra.

Há muitas pessoas que, tendo acumulado fortunas, parecem sob as garras de um tipo de compulsão. Precisam transformar dez milhões em cem, cem em um bilhão e assim por diante. É o que Marx chamava de “fetichização”. Pensadores que se seguiram, como Theodor Adorno e Eric Fromm, diriam que também estas pessoas estão tentando escapar do capitalismo – só que, ingênuas, não sabem. Tentam comprar amor, afetos, pertencimento, significado, propósito. Tentam obter exatamente a mesma auto-descoberta e auto-realização que nossos refinados burgueses buscam, ao devotar suas vidas à literatura e à arte, depois de terem acumulado dinheiro e conquistado um iate, uma mansão ou uma conta bancária maiores. Mas não é possível comprar este valores – nem neste mundo, nem no próximo. Por isso, é correto dizer que os mega-capitalistas não são exatamente monges – e ainda assim, também eles estão tentando fugir do capitalismo; pagar o resgate; deixar o sistema.

Além disso, há muitas pessoas que são a imagem do espelho. Não estão tentando tornar-se Jeff Bezos, Elon Musk ou Bill Gates. Fazem seus trabalhos, ganham seus salários e voltam para casa. E é verdade: muitos de nós tentamos escapar do capitalismo entrando em trégua com ele. Rendendo-nos, em certo sentido. Se eu trabalhar muito, posso nunca tornar-me rico – mas ao menos ficarei em paz algumas horas por dia. Ao menos, terei meus hobbies, meus interesses, minhas paixões. É uma troca calculada, uma apatia – ou seja, ao final, um tipo de capitulação. E só prova o argumento – estamos todos tentando obter nossa liberdade – sejamos ricos ou pobres, proletários ou burgueses.

Examinemos, agora de quê estamos buscando nos libertar. Liberdade da exploração. Liberdade do controle e da dominação. Liberdade para descobrir, para o auto-desenvolvimento, a auto-realização. Liberdade para viver vidas que de fato expressam significado, propósito e preenchimento – em vez de ser esmagados por ansiedade, feridos por competição obsessiva e sufocados por medo.

E aqui está a questão central. Se são estes os objetivos que realmente buscamos, por que não os oferecemos, uns aos outros. Talvez isso pareça trivial, mas quero colocar em perspectiva. Esta é, provavelmente, a primeira vez, na história humana, em que somos de fato capazes de dar estas coisas uns aos outros.

Nunca tivemos esta capacidade concreta antes. Nas fases anteriores da história humana precisávamos de exércitos de trabalhadores, envolvidos em garantir o sustento das nações – lavrando a terra, produzindo os bens necessários à vida, contabilizando, dirigindo e assim por diante. Mas agora, finalmente a tecnologia está automatizando e eliminando o trabalho repetitivo e burocrático de um modo diferente do que faziam, antes, as fábricas – que se limitavam a entupir o mundo de bens de consumo. Agora, a tecnologia permite substituir matérias-primas, lavrar os campos, fazer a contabilidade, dirigir as entregas e tantas coisas mais.

Também não tínhamos os meios financeiros. Como poderíamos oferecer às pessoas o que relacionei acima? Não havia condições de assegurar os meios do que começa a ser chamado de Renda Básica Cidadã. Hoje, se houver políticas para tanto, cada um pode abir uma conta online num banco central e receber dinheiro por meio dela. Se de fato quiséssemos e tivéssemos força política para tanto, poderíamos construir a liberdade financeira diante do capitalismo quase do dia para a noite.

Além disso, há tecnologia social – instituições, bens e investimento públicos. Apenas há cem anos, os seres humanos tornaram-se de fato capazes de operar sistemas como o de Saúde Pública, Transportes, Aposentadorias, Cuidado com Crianças e Idosos e muitos outros, em escala social. Estes sistemas exigem gerência pós-capitalista, que estamos apenas aprendendo a fazer. Quem “possui”, o NHS britânico [ou o SUS brasileiro], por exemplo? Eles são geridos por comunidades. Que lógica os mantém? Nem a do lucro, nem a do planejamento, mas a dos benefícios à Saúde, que podem ser mensurados com cuidado. Não se trata nem do capitalismo, nem o marxismo-leninismo, mas um tipo de pós-capitalismo do século XXI em ação – feito de bens comuns e investimento público.

Estas três coisas – tecnologias, finanças e bens comuns – finalmente amadureceram e se desenvolveram num grau em que a liberdade do capitalismo não é apenas possível. Ela está se tornando inevitável. O que ocorrerá quando estas três forças interagirem? O excedente social poderá ser reinvestido precisamente nas coisas que desejamos – ao invés de ser desperdiçado por elites predatórias. A liberdade da exploração e do controle; e a liberdade para nos descobrir, nos realizar e nos desenvolver. Na longa história da humanidade, nunca tivemos os meios, mecanismos ou ferramentas para alcançá-los em escala maciça. Agora, nós os temos.

É algo eminentemente bom. Remete à obsolescência do capitalismo, que talvez seja tão inevitável como, antes, a do feudalismo. Não significa que o empreendimento e a criatividade irão desaparecer. Ao contrário: significa que eles serão de fato mais benéficos. Podemos dedicá-los a coisas bem melhores que apenas o dinheiro, status, poder e egoísmo a que o capitalismo nos limita. E, por meio desta limitação, ao drenar nossa empatia, coragem, sabedoria, verdade e alegria, obriga-nos a desejar desesperadamente escapar, durante toda a nossa vida. Não importando se sejamos pobres, ricos, ou algo entre estes dois pólos.

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