Precisamos promover uma coexistência ao nosso redor

Djamila Ribeiro escreve sobre como podemos romper os muros invisíveis que dividem os diferentes grupos da sociedade

por Djamila Ribeiro no GQ

Empatia (Foto- Mauricio Planel)

Peço que leiam esta carta de coração aberto. Muitas das coisas escritas aqui vão incomodar, desestabilizar um lugar de conforto e a vontade poderá ser parar de ler ou julgar que é mimimi. Por isso, se desafiem, meu objetivo é criar pontes em vez de se manter muros. Pensei em começar a partir das reflexões trazidas em O que é Lugar de Fala? (Letramento/Justificando), primeiro livro de minha autoria, onde parto de intelectuais negras para resgatar o conceito que nos auxilia a pensar um projeto de mundo diverso, com a coexistência de vozes, para, a partir do grupo social a que pertencermos, podermos pensar uma postura ética na luta contra todas as formas de opressão.

Sou uma mulher negra e, como tal, estou sujeita a passar por experiências comuns a meu grupo, que acontecem independentemente de minha vontade. Desde ser quem tem maiores chances de morrer no parto, fruto do raciocínio de que a mulher negra é sempre “forte” e não merece cuidado médico, até ser quem mais sofre violência doméstica, como também recebe o menor salário, ocupa os postos de trabalho mais precários, isso quando consegue emprego, as mulheres negras se encontram na base da pirâmide. A intelectual portuguesa e professora na Universidade de Humboldt, na Alemanha, Grada Kilomba, ao pensar a opressão sobre a mulher negra, traz a ideia de dupla antítese de branquitude e masculinidade. Nesse sentido, vale dizer que a mulher branca é mulher, mas é branca; o homem negro é negro, mas é homem. Já a mulher negra, por intercruzar opressões, encontra-se no patamar mais vulnerável da sociedade.

No topo da pirâmide temos o homem branco, o sujeito que historicamente foi pensado como universal, como modelo de humanidade, como voz suprema.  Independentemente da vontade, ele vai ter uma vida marcada por privilégios em um país marcado pela desigualdade de raça, gênero e classe. Isso também significa dizer que, independente de sua vontade, uma mulher negra ganhará 70% menos do que um homem branco; a cada 11 minutos, uma mulher será estuprada; e a cada 5, uma será agredida pelo companheiro.

Necessário pontuar que ao citar “homem branco”, “mulher negra”, estamos falando de categorias que passam por um debate estrutural. Não é, portanto, um debate individual. Para começar a mudança, acredito ser necessário se ter empatia. Não penso a empatia como “se colocar no lugar do outro”; não é possível isso. Empatia é uma construção intelectual, se eu não conheço uma realidade, eu posso ler sobre, ouvir pessoas de um grupo discriminado. Porque aí eu entenderei a realidade de outros grupos e, a partir daí, me responsabilizo pela mudança.

Para coexistirmos em um país diverso, penso ser necessário uma postura ética de todos e todas, inclusive daqueles que se encontram em posições privilegiadas, passando por uma profunda autorreflexão sobre se, de fato, você está promovendo uma coexistência ao seu redor. Há pessoas negras em postos de poder no trabalho? Há iniciativas de estudo de pessoas negras em sua universidade? Você explica para seus amigos que assediar mulheres é errado?  São infinitas possibilidades que se ampliam ao passo que se aprofunda a consciência crítica.

Em 2017, a convite da embaixada da Noruega, passei uma semana nesse país para conhecer as políticas de equidade de gênero. Lá existe uma lei que obriga que 40% dos cargos altos nas companhias nacionais sejam reservadas para as mulheres. Quem pensou essa lei foi um político conservador que usou um argumento interessante: “se não se pensar em incluir outros grupos, a gente só contrataria quem joga golfe com a gente no domingo”. E isso exige esforço, responsabilidade pela sociedade e entender que lutar contra as desigualdades é uma tarefa de todos e todas. É preciso falar dos muros que ainda insistem em nos separar.

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