Preconceito com menstruação ameaça trabalho e saúde de mulheres na Índia

DA Revista Gelileu 

MULHERES NA ÍNDIA AINDA SOFREM COM TABUS LIGADOS À MENSTRUAÇÃO. (FOTO: SYLVESTER DSOUZA/UNSPLASH)

O filme Absorvendo o Tabu, que ganhou o Oscar de Melhor Documentário Curta-Metragem neste ano, mostrou como mulheres indianas lutam para superar preconceitos ligados à menstruação. Por lá, são muitas as mulheres – jovens e adultas – que sequer têm acesso a absorventes. Várias deixam de estudar e trabalhar por causa de um simples processo biológico de seus corpos.

Uma reportagem da BBC publicada nesta segunda-feira (8) traz mais detalhes dessa dura realidade. Segundo o jornal britânico, em um estado do oeste da Índia, centenas de mulheres estão passando por cirurgia para retirar o útero. O motivo? Conseguir trabalho na colheita de cana-de-açúcar.

A região é uma espécie de “cinturão da cana” no país, e todo ano há um fluxo grande de pessoas que migram para lá. Mas as mulheres são preteridas dos postos de trabalho simplesmente porque menstruam.

Não bastassem as condições precárias, elas ainda sofrem preconceito porque, segundo os patrões, podem faltar um ou dois dias por mês devido à menstruação. De acordo com a BBC, as pessoas dormem em tendas próximas aos campos de colheita, e não têm acesso a banheiros.

Muitas mulheres acabam tendo problemas de saúde íntima, como infecções, e são estimuladas a remover o útero – na maior parte das vezes, sem necessidade. À BCC, algumas relataram que, após a cirurgia, passaram a sentir dores constantes nas costas, no pescoço e nos joelhos; além de tontura e dificuldade de locomoção. Várias deixam de trabalhar.

O ministro da saúde indiano, Eknath Shinde, disse que 4.605 histerectomias (remoção do útero) foram feitas nos últimos três anos só na cidade de Beed, localizada na região da cana. Segundo o ministro, o governo montou um comitê para analisar os casos.

Remédios duvidosos

Indianas que trabalham em uma empresa bilionária do setor de vestuário no sul do país relataram que, quando estão com cólica, os patrões dão remédios de procedência duvidosa para elas.

Um relatório da Fundação Thomson Reuters, que entrevistou cem funcionárias da empresa, aponta que os medicamentos não são indicados por profissionais de saúde. Muitas afirmam que não são informadas sobre a indicação dos remédios ou possíveis efeitos colaterais.

As funcionárias culpam as drogas por problemas como infecção urinária, miomas (espécie de tumor benigno no útero), abortos e até mesmo ansiedade e depressão.

Segundo a BBC, a força de trabalho feminina na Índia caiu 36% entre 2005 e 2006, e 25.8% de 2015 a 2016. Em entrevista ao jornal, Urvashi Prasad, especialista em política pública do governo indiano, reconheceu a dificuldade de combater os abusos no mercado informal. Mas ela defende que medida sejam tomadas. “Precisamos que o setor privado e o governo se posicionem, e pessoas no topo deem exemplo”, disse Prasad.

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