“Achei que ia ficar louco durante as filmagens”, diz Jamie Foxx, ator de “O Solista”

Fonte: Uol-
O ator, comediante e músico Jamie Foxx, 41, gosta de dar entrevistas. Já o entrevistei pelo menos três vezes nos últimos anos, pelos filmes “Dreamgirls”, “O Reino”, e “O Solista”, que estreia esta sexta no Brasil. Nas duas vezes anteriores, ele já chegou à sala falando, fazendo piada ou uma imitação de alguém famoso. Quem ainda não o viu imitando o presidente Obama que corra para a internet.

 

 

 

Dessa vez foi diferente. Ele estava mais quieto, introspectivo, fazendo da entrevista um momento quase íntimo. Não é para menos. Jamie Foxx tinha uma história pessoal dramática para contar. Durante as filmagens de “O Solista”, o ator, que vive o músico esquizofrênico Nathaniel Ayres no longa, teve que ser monitorado constantemente e precisou da ajuda de um terapeuta quando começou a confundir sua vida com a do personagem. O diretor do filme, o inglês Joe Wright (de “Atonement”), chegou a sugerir que ele desistisse do papel, mas o ator decidiu enfrentar seu medos e traumas e ir em frente.

 

E o filme que estreia agora também conta uma história comovente, baseada em um caso real. Em 2005, o colunista Steve Lopez (Robert Downey Jr. no filme), do jornal Los Angeles Times, viu um morador de rua tocando um violino com apenas duas cordas. Parou para conversar e descobriu que seu nome era Nathaniel Ayers, e que ele tinha sido aluno de Juilliard, uma das escolas de música mais prestigiosas dos EUA, em Nova York. Abandonou os estudos porque sofria de esquizofrenia. Também por causa da doença, Nathaniel não conseguia funcionar normalmente na sociedade. Acabou morador de rua.

 

O jornalista da Califórnia publicou uma série de colunas a respeito de sua relação com Nathaniel, de todos os problemas que o músico enfrentava, e como a sociedade não está preparada para lidar com distúrbios mentais. As colunas fizeram tanto sucesso que viraram livro.

 

Agora, a história de Nathaniel e Steve virou cinema. E o filme fez os demônios que vivem dentro do ator Jamie Foxx ameaçarem aparecer.

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Uol – Você está completamente diferente neste filme, quase irreconhecível. O que você mudou?

Jamie FoxxEu ando por aí com esses dentões brancos falsos que parecem um piano. Então fui a um dentista e disse: ‘vou fazer papel de mendigo em um filme, mas o público não vai acreditar no personagem se ele tiver esses dentes super limpos e brilhantes, o que você pode fazer para eu parecer mais mal tratado?’. Ele disse que podia diminuir o tamanho e fazer uns quebrados, aí a maquiagem dava uma escurecida neles na maquiagem. Minha empresária estava comigo na sala e quase não me deixou fazer isso. Mas eu insisti e acho que realmente ajudou. Também raspei minha sobrancelha e acho que as duas coisas juntas fizeram o personagem não parecer comigo. Depois tive que refazer tudo, usar aparelho, foi um inferno. Mas valeu a pena.

 

UOL – O diretor, Joe Wright, me disse que você ficou preocupado com você no set porque parecia que estava indo muito fundo nos problemas psicológicos do personagem e ele tinha medo que você sofresse alguma consequência séria.

Jamie Foxx – É, porque eu já passei por um episódio psiquiátrico bem assustador na vida. Quando tinha 18 anos, estava em uma festa e alguém achou que seria uma boa idéia botar alguma coisa no meu copo e não me avisar. Acho que era PCP. Eu fiquei completamente maluco, em pânico, achei que tinha perdido o controle da minha mente. Desde de criança tenho um medo inexplicável de que um dia vou enlouquecer, e essa noite achei que tinha acontecido. Acabei no hospital.

 

UOL – Foi internado ou apenas passou pelo pronto-socorro?

Jamie Foxx – Passei pelo pronto-socorro, o que aconteceu de fato não foi tão sério como o que desencadeou dentro de mim. Tomei um soro e voltei para o meu dormitório na faculdade na mesma noite, mas os 11 meses seguintes foram uma tortura psicológica. Passei a viver em pânico, quem salvou minha vida foi o meu colega Mark, que dividia o dormitório comigo e toda noite conversava comigo, me dizia que o meu medo não era real, que eu tinha sido drogado, não estava ficando louco. Quando li esse roteiro vi os paralelos da vida do personagem com o episódio que eu vivi 20 anos atrás, e foi o que me fez aceitar o papel. Mas antes de começar as filmagens comecei a ficar muito ansioso, sem saber exatamente o que era real e o que não era, comecei a achar que era o personagem. Então o Joe (Wright, diretor) me procurou e disse que se eu não quisesse fazer o papel ele entendia e procurava outro ator, mas acreditava que isso poderia ajudar minha performance, desde que eu tivesse assistência durante o processo. Aí eu quis ir em frente.

 

UOL – E quem te ajudou durante as filmagens?

Jamie Foxx – O diretor, na maior parte das vezes. Quando ele via que a cena tinha acabado e eu continuava meio avoado, sentava do meu lado e me dizia ‘isso é real, isso não é real, você é um ator, ele é o personagem etc’. Foi bem esquisito e cobrou um preço alto, mas acho que é minha melhor atuação até agora.

 

UOL – O Robert Downey Jr. não te falou sobre a experiência dele com drogas?

Jamie Foxx – Falou, ele fala muito disso, não tem vergonha nem constrangimento de nada do que aconteceu com ele. Mas o meu problema não era droga, era paranoia, pânico. Ficamos muito próximos, eu adoro ele, considero um grande amigo hoje em dia. E ele é tão melhor ator do que eu, é impressionante (risos). Parece que atuar é muito fácil para o Robert, ele tem um instinto incrível, descobre as emoções de cada cena na primeira vez que lê.

 

UOL – PCP é uma droga muito poderosa. A experiência te assustou para sempre?

Jamie Foxx – Claro, esse negócio de droga nunca me atraiu, nem antes, mas principalmente depois. Eu tive que ler muito a respeito, porque tive alguns flashbacks na vida. Tive aos 26, aos 32 e nos 11 meses seguintes àquela experiência. Não é exatamente o efeito da droga que volta, mas a reação que desencadeia no seu corpo pode voltar a acontecer. Chama estress pós-traumático.

 

UOL – O que a droga te faz sentir?

Jamie Foxx – Essa é a droga do horror. Para mim, fez com que eu experimentasse os meus piores pesadelos. Sob efeito dela eu tinha medo do escuro, achava que a TV estava falando comigo e as coisas estavam saindo para vir me matar. É uma grande paranoia.

 

UOL – Você não fez terapia?

Jamie Foxx – Fiz, claro, não poderia ter me livrado dos meus demônios sem terapia. Já tinha feito algumas vezes, mas voltei quando comecei a me sentir esquisito por causa desse personagem. Agora parei, acho que foi um susto que passou e até que para o tanto que eu poderia ser maluco, funciono bem direitinho (risos).

 

UOL – Você conheceu bem o Nathaniel Ayres, o seu personagem? A vida dele é ainda bem parecida com a forma como é retratada no fim do filme, não?

Jamie Foxx – É, ele continua daquele mesmo jeito, juntando uma idéia na outra e fazendo muitas digressões durante uma conversa. Quem o conhece diz que eu o retratei muito bem, ele tem aquele jeito de falar que eu faço no filme. Tenho bom ouvido, estudei muita música, acho que isso ajuda muito na hora de pegar o ritmo da fala de uma pessoa, por isso eu tendo a fazer boas imitações.

 

UOL – E ele sabia quem você era?

Jamie Foxx – Quando me apresentaram a ele pela primeira vez ele disse ‘Jamie Foxx, Jamie Foxx, eu sei quem você é, conheço esse nome mas seus filmes nunca passam perto da minha casa mas também se passassem eu talvez não soubesse dizer porque não vou muito ao cinema sabe as vezes prefiro eu mesmo ser o artista em vez de estar na plateia’ (risos). Cada frase dele dura uns 3 minutos e tem mil começos, mil meios e muitas vezes nenhum fim. E tem dias mais calmos e outros mais agressivos, tem dias que ele tem vontade de socializar e outros que não quer conversar com ninguém.

 

UOL – E você chegou a tocar com ele?

Jamie Foxx – Não, eu só o assisti tocando. Ele sabia que eu também era músico mas estava ali como ator e para interpretá-lo, e acho que gostou disso, porque ele tocou muito para a gente ver. E é quando fica mais calmo, mais tranquilo, é o jeito que ele gosta de ter gente por perto. Eu ficava imaginando que aquelas pessoas de quem ele sempre fala, as pessoas com quem ele tem todos os debates mentais, se sentam para assistir quando ele toca. Tem um efeito calmante para ele.

 

UOL – E o que tem esse mesmo efeito para você? Gravar música, fazer comédia ou seu trabalho como ator?

Jamie Foxx – Nenhum deles, o que eu faço que me tira qualquer problema da cabeça é jogar ping-pong. Quem me vê jogando não acredita, sério que eu sou bom de ping-pong (risos). Podia jogar profissionalmente se quisesse (mais risos). Graças a Deus não preciso de uma nova profissão, mas esse jogo despertou uma coisa muito terapêutica, descobri que o melhor jeito de lidar com meus problemas é mexer com alguma coisa fora de mim. Meditação não é comigo, sou muito ativo e competitivo, ia ter que ser o melhor meditador do mundo (risos), ia ter que ser o cara que fica 78 horas meditando sem se mexer.

 

UOL – E seu senso de humor, não te ajuda?

Jamie Foxx – Claro que ajuda. A não ser quando atrapalha (risos). Mas acho que tudo que eu faço me ajuda, me expresso de todas as maneiras possíveis. E assim consigo que minha vida tenha atividade suficiente para eu não enlouquecer. Não sei como eu sobreviveria sendo um bancário que mora no subúrbio e chega em casa todas as noites para jantar com a família. Não poderia ter uma vida pacata, normal. Por sorte tenho algum talento e sou bem bonitinho, aí consigo viver dessa outra maneira.

 

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