Qual a diferença entre ser encoxada no trem e na balada? – Por: Leonardo Sakamoto

Foto: Flávio Florido

Assim que terminei de fazer uma comparação entre mulheres que são vítimas de violência sexual, encoxadas no transporte público, e as mulheres que são vítimas de violência sexual, encoxadas em baladas de São Paulo, no contexto de um outro assunto, eis que um grupo de jovens ficou revoltado.

Vestindo a carapuça, não admitiam que um ato vil como uma tentativa de estupro em um trem lotado fosse comparado com o que eles chamaram de “formas de conquista” da noite paulistana.

Por um momento fiquei em silêncio. O que os comediantes do Monty Python diriam nessas horas em que a vida é mais nonsense do que a ficção?

Evitei tocar neste tema no blog porque achei que – tão óbvio – nem era digno de nota. Mas a humanidade, essa brincalhona, vive me surpreendendo, feito uma criança que sai de dentro de um armário e, do nada, grita: rá!

Arrancar prazer de alguém que não faz a mínima ideia do que está acontecendo ou que simplesmente não quer nada com você é violência sexual. Ou necrofilia. Qual o próximo passo dos senhores? Visitar necrotérios em busca de prazer?

Não há diferença alguma entre o que tem acontecido nos trens de São Paulo e certas ações de rapazes em festas. Como é o caso de uma moça que, após ser encoxada fortemente na pista lotada, percebeu que sua calça estava suja. Saiu chorando para casa.

Aliás, minto. Para não dizer que não há diferença, nos casos das baladas, alguns dos garotos serão protegidos pelos caros advogados de suas famílias. E as vítimas, com medo das consequências de uma denúncia, uma vez que agressor e agredida, não raro, convivem no mesmo círculo de faculdade ou trabalho, ficarão em silêncio. Ninguém quer ficar mal com o grupo.

E, em uma sociedade em que manter a aparência é mais importante do que Justiça, algumas delas preferiram o sofrimento silencioso, o isolamento, o suicídio.

Vi a mesma frase ser usada para justificar violências em trens e em baladas: “Se tivesse acompanhada de um homem, isso não teria acontecido”. Mas que merda de vida é essa em que mulheres precisam demonstrar que pertencem a alguém para provarem que não estão “pedindo” para serem estupradas.

Sei que é chato e cansativo. Sei que temos a impressão de que denunciar não resolve. E muitas vezes não mesmo, porque há preconceito inclusive entre seguranças de balada e policiais que vêem isso como brincadeira adolescente. Mas são atos de violência e, independentemente da classe social, merecem ser punidos. Como sugerem entidades que atuam na defesa dos direitos das mulheres, chame a polícia, faça um BO para que isso fique registrado.

E não se engane. Não são só os “outros” que fazem isso, os “nossos” também fazem. Violência sexual não ocorre no trem com desconhecidos, mas pode estar aqui do lado. “Ah, mas o cara é amigo, apenas se excedeu.” Não caia nessa. Por você e pelas outras mulheres.

Fonte: Blog do Sakamoto

+ sobre o tema

para lembrar

BBC 100 Women 2019: quem está na lista?

A BBC acaba de anunciar a edição de 2019...

Vereadora de Uberlândia, mulher e preta, Dandara Tonantziné eleita deputada federal

A vereadora de Uberlândia Dandara (PT) foi eleita deputada...

Aline Midlej assume “Jornal das Dez”, e fala sobre pandemia e fake news

Em maio, o Grupo Globo anunciou uma série de...

Carta para Isabela

Filha minha, O menino nasceu e com ele uma mãe,...
spot_imgspot_img

ONGs LGBTQIA+ enfrentam perseguição e violência política no Brasil, diz relatório

ONGs de apoio à causa LGBTQIA+ enfrentam perseguição e violência política para realizar seu trabalho no Brasil, mostra um relatório produzido pela Abong (Organizações Brasileira de ONGs) em...

Menstruação segura ainda é desafio no Brasil, indica Unicef

Uma enquete do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), concluiu “que o direito de menstruar de maneira digna, segura e com acesso...

Mulher tem aborto legal negado em três hospitais e é obrigada a ouvir batimento do feto, diz Defensoria

A Defensoria Pública de São Paulo atendeu ao menos duas mulheres vítimas de violência sexual que tiveram o acesso ao aborto legal negado após o Conselho...
-+=