Claudia Silva Ferreira: negra e moradora da periferia – Por: Mariana Raquel

Cláudia Silva Ferreira era casada, mãe de quatro filhos e trabalhadora, mas não foram essas qualidades que tornaram Claudia vítima da violência, na manhã do último domingo.

A trabalhadora que saiu de casa para ir à panificadora, comprar três reais de pão e três reais de mortadela, foi baleada por policiais que subiam o morro da Congonha, onde a vítima morava.

O motivo? Que motivo!? Cláudia era negra e moradora da periferia, isso já é mais do que justificativa para a polícia militar brasileira, que mata mais do que os países que tem a pena de morte instituída.

 

Moradores do Morro da Congonha fazem manifestação pela morte de Claudia Silva Ferreira. Foto de Paolla Serra/jornal Extra.

Segundo relatos vinculados pela mídia, à vítima a contragosto dos moradores e familiares que se encontravam no local, foi “socorrida” pelos policiais militares, se é que podemos chamar de socorro a forma como ela foi jogada em um camburão, como se coisa fosse.

Mas o que marcou o crime cometido contra Cláudia não foi ela ser baleada, apenas por sair de casa para comprar pão, afinal, pessoas negras, moradores de periferia são mortos todos os dias, apenas por ser quem são.

O fato que deu notoriedade ao caso de Cláudia e que chamou a atenção da mídia e da população, foi o vídeo gravado por um cidadão onde o corpo da trabalhadora aparece dependurado na viatura policial, sendo arrastado por cerca de 250 metros. Sem que nenhum dos policiais que transportavam aquela mulher notasse que alguma coisa estranha estivesse acontecendo!

Cláudia entrou para a estatística de mortos pela polícia no Brasil, e sobre isto vimos pouco mais do que a menção do crime na televisão.

Por parte do governo, a presidenta enviou condolências a família por rede social. Já o governador do Rio, em entrevista, afirmou que medidas serão tomadas contra os policiais.

Condolência enche barriga? A promessa de justiça do governador muda a forma como os moradores serão tratados, daqui pra frente, nas comunidades pobres do Rio de Janeiro? Onde está a indignação da população brasileira? Já sei! Guardada para um crime cometido contra um alguém sujeito de plenos e efetivos direitos. Pois Cláudia, nascida negra e moradora de periferia, não serve como parâmetro de justiça no Brasil.

Seu destino, não é mais do que a manifestação do kit opressão destinado pelo Estado brasileiro a pessoas como ela. A face mais perversa do racismo institucional, que tem feito do Brasil o país do genocídio contra a juventude negra. País onde o bandido é identificado pela cor e pela origem humilde, e não pela pratica de ato criminoso.

Li em uma reportagem que Cláudia temia que seus filhos fossem confundidos com bandidos, e quis o destino que fosse ela a “bandida” da vez.

Claudia está morta, sobre isso, não há mais nada que se possa fazer a respeito. Contudo, cabe a nós transformar toda a indignação, por essa morte sem sentido, todo o choro derramado por seus filhos, no combustível da transformação social que esse país precisa.

Nós, como movimento negro, movimentos sociais, ou apenas cidadãos conscientes, devemos nos levantar contra a contínua violação de direitos a que são sujeitos os moradores negros e pobres das periferias espalhadas pelo Brasil.

Autora

Minha professora da 6ª série me batizou de: a menina do contra. E sou mesmo! Nasci Mariana Raquel, mas a vida me fez Diva. Do nome de protagonista mexicana herdei a certeza de um futuro brilhante (um dia serei poderosa e sambarei na cara da alta sociedade) e a contradição que só quem tem significados de nomes antagônicos pode conhecer! Como é possível ser soberana/cheia de graça, sendo mansa como um cordeiro?

Esse texto foi originalmente publicado na página ‘da CAMA ao PÓ’ no Facebook.

 

 

Fonte: Blogueiras Feministas 

 

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